A práxis de libertação, análise de conjuntura e a vida cotidiana. Artigo de Jung Mo Sung

Teologia da Libertação. | Foto: Diocese de Bragança

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20 Março 2026

"A vida mostrou e tem mostrado nos últimos tempos que a justiça ética deveria ser o 'motor' da história, mas são as relações materiais objetivas conflitivas que a dirigem", escreve Jung Mo Sung, teólogo católico e cientista da religião. 

Eis o artigo.

Uma característica fundamental do cristianismo de libertação e a teologia da libertação foi a relação entre a fé e a práxis religiosa-social-política. A noção de práxis foi o polo que recuperou a visão ativa da fé cristã. Isto é, na América Latina, em um processo de modernização e secularização (a perda da força política das igrejas na sociedade), a noção de fé cristã foi reduzida ao de “crer” em uma afirmação: a de que Deus existe e, com isso, a vida pós-morte. A expressão “fé e vida” e, depois, “fé e política”, foram marcantes nas décadas de 1980 a 2000 para recuperar essa visão ativa e prática da fé.

E o conceito de “práxis”, associada fortemente ao de política no cristianismo de libertação, pressupõe três elementos.

Primeiro, o sujeito ou agente das ações organizadas e planejadas (CEBs, movimentos sociais, partidos de esquerda...); o que pressupõe seres políticos com uma racionalidade política e critérios de cálculo em função da eficiência dessas ações.

Segundo, o objetivo final dessas práticas sócio-políticas, que nas CEBs e nos movimentos sociais e políticos influenciadas pela TL, era chamada de “libertação”, diferenciando-se, bem criticamente, de projetos chamados de reformistas.

Terceiro, uma teoria e estratégias de transformação sócio política, o que exige uma “análise da conjuntura” para entendermos onde estamos e o que devemos fazer. Por isso, nas décadas de 1980 a 2000 esses conceitos, Cebs/Igreja dos pobres, libertação e análise de conjuntura eram muito falados.

Nessa lógica de “fé e politica”, havia um problema fundamental. Como os pobres, organizados em CEBs ou em movimentos sociais, – que não tiveram acesso à boa educação e têm muita carência econômica e profissional – poderiam ser sujeitos dessa libertação contra os dominadores cheios de riqueza, poder político-militar e assessores, com muito conhecimento, a serviço deles? Frente a essa pergunta difícil de responder, muitos cristãos apelaram e ainda apelam à confissão de fé que Deus-libertador está com os pobres e os seus profetas e, por isso, essa libertação acontecerá no futuro próximo.

Porém, a vida mostrou e tem mostrado nos últimos tempos que a justiça ética deveria ser o “motor” da história, mas são as relações materiais objetivas conflitivas que a dirigem. E o próprio Novo Testamento nos mostra que o cristianismo reinterpretou a expectativa messiânica de Israel e a noção de poder de Deus a partir da fé de que Jesus. O Messias que morreu crucificado sob o poder do Império e do Templo e foi ressuscitado por Deus porque ele era “o justo”, apesar de ser político e militarmente fraco. Essa é a diferença fundamental entre o cristianismo e o judaísmo.

Reconhecendo os erros teológico e político na nossa visão da fé-práxis dos 3 elementos (sujeito, o objetivo de libertação plena e a teoria e estratégias de transformação social), devemos enfrentar o desafio de repensa-los. Dos 3 elementos, nesse final do artigo, quero apontar duas questões da estratégia de transformação social.

Em primeiro lugar, precisamos oferecer às comunidades cristãs e movimentos sociais, que assumem o direito dos pobres de viver com dignidade, uma “análise de conjuntura” que lhes permita a entender o que está acontecendo no mundo. Sem isso, a práxis não inicia. Por exemplo, ajuda-las entender a passagem do mundo liberal para o neoliberal, que está em disputa e aliança com a extrema-direita; a do mundo unipolar da globalização neoliberal para o do conflito entre EUA e China; o grande impacto da IA no âmbito da economia, das relações intersubjetivas e no controle de informações e do desejo...

Em segundo lugar, aprender do pensamento de Michel Certeau a relação entre a estratégia e tática nas nossas lutas. As estratégias têm a ver com os cálculos das relações de poder em que os agentes querem manter ou transformar essas relações de poder ou obter um novo posicionamento da estrutura social e político. Por outro lado, setores pobres e frágeis do sistema ou da sociedade, que não tem capacidade de impor as mudanças estratégicas, podem atuar no campo da tática na sua vida cotidiana. Por exemplo, desobedecer  as normas que lhes desumanizam, sejam em nome da lei da sociedade ou da igreja que ensina ser de Deus. Precisamos retomar algo que tínhamos muito mais nas décadas passada: a formação bíblico-sócio-teológica que lhes permitem ver o mundo cotidiano deles de modo diferente (as curas de cegos).

Na missão de defender a vida dos pobres e vulneráveis, precisamos entender melhor as estratégias dos poderosos e ajudar a criar novas táticas de resistência e de afirmação de seres humanos dignos. Nessa perspectiva, mesmo ainda não tendo clareza nas grandes estratégias, podemos por meio de práticas intersubjetivas e sociais possíveis, recuperar a noção de libertação, pois “foi para a liberdade que Jesus nos libertou” (Gal 5,1).

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