20 Março 2026
" A bondade e a benevolência geralmente encontram forte oposição daqueles que não estão dispostos a aceitar o amor incondicional e infinito de Deus, e estes escolhem matá-lo".
O comentário é de Consuelo Vélez, teóloga colombiana, publicado por Religión Digital, 10-03-2026.
Eis o comentário.
Naquele tempo, as irmãs de Lázaro mandaram avisar Jesus: “Senhor, aquele a quem amas está doente”. Ao ouvir isso, Jesus disse: “Esta doença não acabará em morte; pelo contrário, é para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por meio dela”. Ora, Jesus amava Marta, a irmã dela e Lázaro. Quando ouviu que Lázaro estava doente, permaneceu onde estava por mais dois dias. Depois, disse aos seus discípulos: “Vamos voltar para a Judeia”. Ao chegar, Jesus encontrou Lázaro já sepultado havia quatro dias. Quando Marta soube que Jesus estava chegando, saiu ao seu encontro, mas Maria ficou em casa. Marta disse a Jesus: “Senhor, se o senhor estivesse aqui, meu irmão não teria morrido. Mas eu sei que, mesmo agora, tudo o que o senhor pedir a Deus, Deus lhe concederá”. Jesus lhe disse: “Seu irmão ressuscitará”. Marta respondeu: “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia”. Jesus disse a ela: “Eu sou a ressurreição e a vida.
Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim jamais morrerá. Você crê nisso?” “Sim, Senhor”, respondeu ela, “eu creio que tu és o Messias, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo”. Jesus ficou profundamente comovido e perturbado. “Onde o colocaram?”, perguntou. “Venha e veja, Senhor”, responderam eles. Jesus chorou. Os judeus disseram: “Vejam como ele o amava!” Mas alguns deles disseram: “Aquele que abriu os olhos do cego não podia ter impedido que este homem morresse?” Jesus, profundamente comovido novamente, foi até o túmulo. Era uma caverna com uma pedra colocada na entrada. “Tirem a pedra”, disse ele. “Mas, Senhor”, disse-lhe Marta, irmã do falecido, “já cheira mal, pois faz quatro dias que ele está lá”. Então Jesus disse: “Eu não lhes disse que, se crerem, verão a glória de Deus?” Então removeram a pedra. Jesus, levantando os olhos para o céu, disse: Pai, eu te agradeço porque me ouviste. Eu sei que sempre me ouves, mas disse isso por causa da multidão que está aqui, para que creiam que tu me enviaste. Tendo dito isso, clamou em alta voz: Lázaro, vem para fora! O morto saiu, tendo as mãos e os pés atados com faixas de linho e o rosto envolto num pano. Jesus disse-lhes: “Tirem as faixas e deixem-no ir”. Muitos dos judeus que tinham vindo visitar Maria e visto o que Jesus fizera creram nele (Jo 11,3-7.17.20-27.33-45).
Em cada um desses domingos da Quaresma, o evangelista João apresenta Jesus em relação a diferentes personagens, estabelecendo diálogos que nos ajudam a compreender mais profundamente quem Jesus é. Com a mulher samaritana, Jesus se apresenta como aquele que sacia a sede; com o cego de nascença, como aquele que devolve a visão; e no texto de hoje, a ressurreição de Lázaro, como aquele que dá a vida e a vida eterna.
Esta passagem é bastante conhecida, mas vale a pena relembrar alguns detalhes. O evangelista revela o profundo amor que esses irmãos compartilhavam com Jesus. Quando contam a Jesus sobre a doença de Lázaro, dizem: "Aquele a quem amas está doente". Mais tarde, o texto diz: "Jesus amava Marta, e sua irmã, e Lázaro", e após a morte de Lázaro, diz: " Jesus ficou profundamente comovido, perturbado e chorou ". Jesus realmente estabeleceu relações de amor sincero e leal com seus contemporâneos.
O diálogo que Jesus estabelece com Marta é fundamental para o texto. Ela, de certa forma, o repreende por não ter chegado antes, para que seu irmão não tivesse morrido. Mas então ela professa sua fé judaica na ressurreição no fim dos tempos. É nesse momento que Jesus a ajuda a mudar sua perspectiva, afirmando que ele é a ressurreição e a vida, e que, se ela crê nisso, seu irmão ressuscitará. Marta, então, faz uma confissão de fé, semelhante à de Pedro quando Jesus pergunta aos seus discípulos: “Quem dizem os homens que ele é?”. E Pedro responde: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,13-16). Nessa passagem, Marta diz a mesma coisa: “ Tu és o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo ”. O confronto dessas duas passagens permite reafirmar que a confissão de fé em Jesus como o Cristo é feita por um homem e uma mulher, mostrando aquela igualdade fundamental entre aqueles que estavam com Jesus e que, por séculos, foi invisibilizada em relação às mulheres.
O texto continua a explorar o significado da morte e ressurreição de Lázaro. Contra todas as expectativas, visto que Lázaro estava morto havia quatro dias, como diz Marta, Jesus profere as palavras: "Lázaro, vem para fora!", e assim aconteceu. A ênfase não está na natureza milagrosa do evento em si, mas no significado revelado pela presença de Jesus. O texto conclui afirmando que muitos judeus presentes creram em Jesus.
Contudo, embora isso não seja mencionado na leitura de hoje, a decisão tomada por outros judeus foi matá-lo. Em outras palavras, os sinais que Jesus realizou durante seu ministério público levaram muitos a crer nele e a segui-lo, mas também suscitaram controvérsia, e muitos outros decidiram matá-lo. A bondade e a benevolência geralmente encontram forte oposição daqueles que não estão dispostos a aceitar o amor incondicional e infinito de Deus, e estes escolhem matá-lo.
Esse é o desafio que enfrentamos hoje também: vamos acreditar em Jesus e em sua mensagem, ou vamos distorcê-la, deturpá-la ou negá-la? Nossas ações responderão a essas perguntas.
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