18 Março 2026
O psicanalista e filósofo humanista Erich Fromm analisou o medo da liberdade e a sociedade de consumo para entender por que as pessoas buscam refúgio em novas formas de dependência.
A reportagem é de Juan Ángel Asensio, publicada por Ethic, 17-03-2026. A tradução é do Cepat.
Erich Fromm nasceu em 1900, em Frankfurt, em uma família judia ortodoxa. Cresceu em uma Europa abalada por guerras, crises econômicas e a presença fantasmagórica da ascensão dos totalitarismos. Este contexto inevitavelmente marcou sua visão intelectual.
Formado em sociologia e psicanálise, e vinculado em seus primeiros anos à Escola de Frankfurt, logo desenvolveu sua voz própria. Sua obra transitou entre a psicologia, a filosofia e a crítica social, com uma pergunta de fundo que jamais abandonaria: quais são as condições que tornam possível uma vida verdadeiramente humana?
O nazismo o forçou a abandonar a Alemanha, em 1934. Instalou-se nos Estados Unidos e, mais tarde, no México, onde continuou seu trabalho acadêmico. Essa experiência de exílio reforçou seu interesse pelos mecanismos que levam sociedades inteiras a abraçar projetos autoritários. Diante da violência ideológica do século XX, Fromm propôs uma ética humanista baseada na responsabilidade, no amor e na autonomia.
Em 1941, publicou Medo da liberdade, um de seus livros mais influentes. O ensaio parte de um paradoxo: a modernidade libertou o indivíduo de muitas amarras tradicionais, embora essa liberdade tenha gerado angústia. Sem estruturas estáveis que orientem a vida, muitas pessoas experimentam insegurança e isolamento. Segundo Fromm, esse mal-estar explica a tentação de delegar a própria autonomia a líderes autoritários ou a ideologias rígidas.
O autor analisou a ascensão do fascismo na perspectiva psicológica e chegou à conclusão de que a submissão à autoridade oferecia uma saída emocional ao desamparo. Em outras palavras, a liberdade exige assumir responsabilidade e tolerar incerteza, ao passo que a obediência promete proteção. Fromm descreveu como o autoritarismo, a violência e o conformismo criam estratégias por meio das quais o indivíduo evita o peso de decidir por si próprio.
Sendo assim, observou que a pressão social pode levar as pessoas a adotar as opiniões dominantes para se sentirem integradas. Considerando isto, é inevitável que o desejo de pertencimento se transforme em um poderoso motor.
No entanto, a saída deste círculo não está em retornar às estruturas tradicionais, mas em construir uma liberdade positiva. Essa forma de liberdade se apoia na capacidade de amar, trabalhar criativamente e participar ativamente na vida social, e envolve gerar vínculos sólidos sem renunciar à individualidade. A maturidade psicológica, em sua concepção, é inseparável da responsabilidade ética.
Outra de suas obras mais conhecidas, A arte de amar, aprofunda uma de suas ideias centrais: o amor, que, segundo Fromm, requer disciplina, conhecimento e esforço, distanciando-se da visão romântica que reduz o amor a um sentimento espontâneo. Ele o entendeu como uma atitude ativa em relação ao mundo, uma disposição que combina cuidado, respeito, responsabilidade e conhecimento. Para este psicanalista, amar supõe se interessar genuinamente pelo crescimento do outro.
E vinculou a reflexão a uma crítica à sociedade de consumo. Em Ter ou ser?, argumentou que a cultura contemporânea prioriza a acumulação e a posse. O sucesso é medido por bens e status. Esse modelo fomenta relações instrumentais e competitivas. Frente a essa lógica, propôs uma orientação baseada no ser: desenvolver habilidades e conhecimentos, cultivar vínculos autênticos e experimentar a vida com profundidade.
Fromm considerava que a economia influencia na estrutura do caráter. Segundo ele, as sociedades orientadas para o mercado tendem a formar indivíduos que se percebem como mercadoria. É quando, então, a identidade se constrói a partir da imagem projetada e da aceitação externa. Essa dinâmica gera insegurança constante e necessidade de aprovação.
Seu pensamento sempre manteve uma dimensão política, e ele defendeu um socialismo humanista que combinava justiça econômica e liberdade individual. Também rejeitou tanto o capitalismo desumanizado quanto os sistemas autoritários que anulavam a autonomia. Acreditava em uma democracia participativa, na qual as pessoas tivessem voz real nas decisões que afetam sua vida cotidiana.
Por outro lado, Fromm entendia que formar indivíduos críticos e solidários era uma condição básica para uma sociedade saudável. O aprendizado devia fomentar a curiosidade e, portanto, a capacidade de reflexão. Uma comunidade democrática, segundo ele, precisa de cidadãos capazes de pensar por conta própria e de cooperar.
No plano psicológico, desenvolveu o conceito de caráter social para descrever traços compartilhados por membros de uma mesma cultura. Estes facilitam a adaptação ao sistema econômico e político vigente. Analisar o caráter social, propõe Fomm, permite compreender por que determinadas ideias encontram terreno fértil em certos momentos históricos.
Embora tenha falecido em 1980, seus textos seguem circulando fortemente. Suas ideias não oferecem receitas rápidas, ao contrário, seu valor está em que propôs perguntas incisivas sobre o sentido da liberdade e da existência. Em tempos de polarização e aceleração tecnológica, suas ideias nos convidam a examinar a qualidade de nossos vínculos e a forma como exercemos a autonomia.
O medo, o desejo de pertencimento e a necessidade de reconhecimento influenciam nas decisões políticas e econômicas. Compreender essa interdependência amplia a visão sobre os problemas que nos cercam.
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