14 Março 2026
"Durante anos, pensamos que o problema era governar a inovação. Hoje sabemos que a questão é mais radical: que tipo de humanidade estamos tornando possível?"
O artigo é de Paolo Venturi, jornalista, publicado por Avvenire, 12-03-2026.
Eis o artigo.
Peter Thiel não chega a Roma como um simples protagonista da economia digital. Ele chega como portador de uma visão, e é isso que torna sua presença interessante e perturbadora. Ele não é apenas um bilionário do Vale do Silício ou o fundador da Palantir, mas um dos mais intérpretes radicais de uma transição de época: uma em que o mercado, a tecnologia e as finanças deixam de se apresentar como ferramentas e começam a se propor como o princípio de ordenação do mundo.
A questão, na verdade, não é mais meramente econômica. Não estamos diante de um capitalismo que produz riqueza, consumo e novas desigualdades; estamos diante de algo mais profundo: um sistema que usa o dinheiro para moldar instituições, imaginações, hierarquias e até antropologias. Não se trata apenas de organizar trocas, mas sim de organizar significados, decidindo quais vidas importam, quais medos merecem proteção, quais liberdades podem ser suspensas em nome da segurança. A economia torna-se, assim, uma força pedagógica e política. Ela não descreve o mundo: ela o constrói.
Dentro desse horizonte, Thiel representa uma posição precisa, apresentando-se como um defensor da humanidade contra o conformismo ideológico e o risco de uma tecnocracia sem rosto. Mas seu pensamento é permeado por um paradoxo decisivo: para salvar a humanidade, ele propõe dispositivos que acabam restringindo o que há de mais humano na humanidade; para defender a liberdade, ele confia cada vez mais poder a estruturas de controle. É aqui que a empresa deixa de ser apenas uma organização e se torna um símbolo e a expressão de uma mentalidade.
A ideia de que a complexidade da vida pode ser transformada em informação legível, a fragilidade em uma variável, o conflito em antecipação. Não mais compreendendo a humanidade, mas tornando-a administrável. Essa postura revela a raiz de sua visão hobbesiana de coexistência. Em sua essência está a suspeita de que o homem é, acima de tudo, um ser perigoso, marcado por paixões, naturalmente inclinado ao conflito, necessitando de contenção.
Se essa é a antropologia inicial, o resto se segue quase automaticamente. Se o homem é uma ameaça, é necessária uma ordem mais forte; se os laços sociais são frágeis, são necessários sistemas mais abrangentes; se o caos está sempre à porta, a liberdade deve recuar para que a segurança possa avançar. Mas é precisamente aqui que vemos o preço de uma abordagem que concebe o humano como um risco: toda a sociedade se organiza contra ele. A política se torna rígida, a economia seleciona, a tecnologia monitora.
A liberdade não é mais uma tarefa a ser cultivada, mas uma margem a ser concedida. A pessoa não é mais um mistério a ser acompanhado, mas um comportamento a ser previsto. E assim a promessa de proteção gera seu oposto: uma sociedade que, por medo de ser prejudicada, acaba amputando aquilo que a mantém viva. O diagnóstico de Shoshana Zuboff, desse ponto de vista, parece até ultrapassado pelos desenvolvimentos recentes. Não se trata mais simplesmente de extrair dados da experiência humana para transformá-los em lucro, mas sim de converter a experiência em governança, comando, a arquitetura da realidade. O capitalismo de vigilância se torna uma verdadeira antropologia da vigilância.
É por isso que a questão levantada por este pensador deve ser levada a sério, porque nos força a levantar a questão crucial, aquela que nosso tempo vem reprimindo progressivamente. Livre de quê, é claro. Mas, acima de tudo: livre para quê? Essa questão não pode ser respondida com tecnologia adicional, nem mesmo com uma reação nostálgica ou antimoderna. Ela é respondida retornando ao cerne da questão: que ideia de humanidade estamos assumindo, muitas vezes sem dizer, quando projetamos tecnologias, instituições, modelos econômicos?
Se partirmos da ideia de que a humanidade é fundamentalmente negativa, um perigo a ser contido, então o controle parecerá inevitável. Mas se reconhecermos que existe uma positividade original na humanidade, então tudo muda. Essa positividade tem um sinal preciso: o desejo. Não o desejo reduzido a um impulso a ser explorado comercialmente ou a uma ânsia de ser disciplinado, mas o desejo como uma abertura constitutiva ao significado, à bondade, ao relacionamento.
É aqui que se decide a diferença entre uma sociedade que treina e uma sociedade que educa. Porque o desejo pode ser colonizado, manipulado, despertado artificialmente, mas também pode ser acompanhado, valorizado como critério. E assim, o verdadeiro desafio do nosso tempo, mesmo antes de ser político ou tecnológico, é educacional. Educar significa salvaguardar e orientar o desejo humano, não substituí-lo por mecanismos automáticos, não entregá-lo a plataformas, não reduzi-lo ao consumo ou ao medo.
Durante anos, pensamos que o problema era governar a inovação. Hoje sabemos que a questão é mais radical: que tipo de humanidade estamos tornando possível? Porque toda arquitetura técnica educa, e todo modelo econômico produz uma pedagogia implícita. Em última análise, o jogo se resume aqui, não entre tecnofobia e tecnolatria, ou entre apocalíptico e integrado. Mas entre duas imagens da humanidade: uma fundada no medo, a outra no desejo. Uma quer proteger a vida, a outra quer fazê-la florescer. Nosso futuro dependerá dessa escolha.
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