A febre de Gaia. Artigo de Marcus Eduardo de Oliveira

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14 Março 2026

"Nesse emaranhado, no plano geral, à medida que o sistema dominante devora os recursos do planeta e ameaça o clima global, a economia de curto prazo, que exige mais degradação, segue com seu projeto de modernidade, mesmo com os sistemas climáticos da Terra descompassados e com a resiliência do planeta em risco, e mesmo fechando as portas do supermercado universal para 75% da humanidade na parte Sul do globo."

O artigo é de Marcus Eduardo de Oliveira, economista e ativista ambiental, mestre em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (USP), pelo Programa de Integração da América Latina (Prolam). Delegado do CORECON_SP por Osasco/SP. Autor de Civilização em Desajuste com os Limites Planetários (CRV, 2018) e A Civilização em Risco (Jaguatirica, 2024), entre outros.

Eis o artigo. 

Dada a dinâmica de um mundo que mercantiliza tudo, ninguém mais coloca em dúvida que esses tempos atuais são marcados pelos excessos antropocêntricos alimentados, sobretudo, por uma economia global destrutiva, agora mesmo entendida como a principal causadora de profundas mudanças no planeta. Assim sendo, em meio as erosões do Antropoceno, diante da civilização do carbono, “jamais a humanidade reuniu tanto poder a tanta desordem, a tantas preocupações e a tantas manipulações, a tantos conhecimentos e a tantas incertezas”, como disse o poeta Paul Valéry, que complementa dizendo que “a inquietude e a futilidade se justapõem em nossos dias”.

Sendo breve e objetivo, a verdade é que a escala de interferência humana no sistema Terra assusta, uma vez que impõe um padrão de degradação da biosfera sem precedente. Como se sabe, a capacidade e as funções dos ecossistemas estão em desequilíbrio; assim como a crise climática global – e isso não é segredo - produz rupturas e abre de vez a possibilidade para se eliminar vidas. Na conta do estresse térmico, por exemplo, a ONU estima que, entre 2030 e 2050, o mundo conhecerá 250 mil mortes humanas ao ano.

O pior é que, nessa coordenada, uma vez apartados de uma relação harmônica com a natureza, ainda temos dificuldade de pensar nos direitos da Terra, pouco questionamos a tecnologia dominante e seguimos, como de costume, enquanto “sociedade de hiperconsumo”, como gostava de falar Gilles Lipovetsky, muito mais atentos à política de desenvolvimento.

Nesse entorno, não nos damos conta de que, para cada dólar investido na proteção da natureza, o mundo gasta mais de 30 dólares na sua destruição, como consta no relatório “Estado das Finanças para a Natureza 2026”, lançado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), em janeiro de 2026.

Seja como for, soa razoável dizer que, a par de toda essa moldura do atual capitalismo destrutivo, tanto mais as ameaças ambientais se multiplicam. Para falar abertamente, são ameaças sobre a regulação do clima, sobre a reciclagem de nutrientes, sobre a manutenção do equilíbrio ambiental, sobre a falta de conservação dos ecossistemas. Ou seja, um mundo em descontrole, diante dessa atual lógica de destruição socioambiental. Mas não é só isso. A temperatura da Terra fora de controle e a biodiversidade erodida numa velocidade assustadora – afinal, os números não mentem: no reino da vida selvagem, uma espécie desaparece por dia.

Portanto, estamos falando às claras de males civilizatórios que afetam sobremaneira o desempenho do sistema vida. Males que aumentam os perigos ecológicos. Nessa era dos combustíveis fósseis, todos estamos envolvidos nisso.

Por um lado, cumprindo determinações concretas, sempre em nome da noção de progresso e evolução social, vamos ordenando globalmente as sociedades. Clóvis Cavalcanti, voz de referência da economia ecológica, diz que agimos “como se não existisse aquilo que se chama de degradação entrópica, à qual tudo na Terra é submetido”.

Ora, de maneira concisa e em termos mais diretos, isso significa dizer que, pela economia dominante que dita os rumos de agora, ajudamos a alterar o funcionamento geral geológico e biológico do planeta.

Dentro dessa perspectiva, sem que desobedeçamos a racionalidade econômica, é fato concreto que já fomos longe demais com nossos abusos.

Agora mesmo, para falar como o físico Henry Kendall, “humanos e mundo natural estão numa rota de colisão”. Ou seja, temos um planeta doente, uma Terra cansada.

Não por acaso, no momento mais grave da crise do meio ambiente, vários estudos mostram que 25% da massa terrestre já foi alterada pela ação antrópica. Pelo menos 20% das terras agrícolas do mundo estão degradadas. E já inauguramos a mais nefasta erosão da biodiversidade.

Na sequência, vale dizer ainda que nada menos que 47% das bacias hidrográficas do mundo já apresentam sinais de esgotamento e metade das zonas úmidas do planeta (pântanos, mangues, charcos, trufeiras) já desapareceu devido aos impactos da agricultura, urbanização e poluição atmosférica, esta última, classificada pela ONU como a “maior assassina do planeta”, responsável por um quarto das mortes prematuras e doenças em todas as partes do planeta.

Pela cultura do capital que não respeita os limites ecológicos, já deixamos claro que nossa pegada ecológica excede em 50% a capacidade de regeneração e absorção do planeta. E assim seguimos produzindo estragos generalizados nos quatro ecossistemas que fornecem nossos alimentos – florestas, pradarias, pesqueiros e terras agrícolas.

Já fizemos desaparecer em menos de duas décadas algo como três milhões de quilômetros cúbicos de gelo dos oito que existiam no Polo Norte e, se a tendência for mantida, tanto mais aprofundaremos as alterações antropogênicas, desregularemos ainda mais a temperatura terrestre, desequilibraremos ecossistemas inteiros e empobreceremos de vez a diversidade biológica da Terra, afetando diferentes seres vivos.

Aliás, já se sabe, por exemplo, que o declínio das populações de insetos avança rápido a ponto de os especialistas chamarem de “apocalipse dos insetos”.

Por sua vez, as plantas estão florescendo mais cedo e algumas espécies de animais – por conta direta das mudanças climáticas, que fique claro – estão diminuindo de tamanho.

Nesse emaranhado, no plano geral, à medida que o sistema dominante devora os recursos do planeta e ameaça o clima global, a economia de curto prazo, que exige mais degradação, segue com seu projeto de modernidade, mesmo com os sistemas climáticos da Terra descompassados e com a resiliência do planeta em risco, e mesmo fechando as portas do supermercado universal para 75% da humanidade na parte Sul do globo.

Diante de todas essas evidências, convém lembrar Walter Benjamin: “a tempestade do progresso nos levou à catástrofe”.

Atualizando a narrativa, Ailton Krenak não cansa de dizer, sobre isso, que “o organismo de Gaia está com febre porque nós, os humanos, somos os únicos que temos a capacidade de incidir sobre esse organismo de maneira desordenada. E estamos ameaçando outras vidas, outras existências, causando uma febre neste organismo”.

Assim sendo, fechando o raciocínio, temos o dever de entender como mais um sinal de alerta (quiçá, um lembrete de urgência) as contundentes palavras do Dalai Lama: “É senso comum que não conseguiremos sobreviver se continuarmos trabalhando contra a natureza”.

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