'Não sei que diabos estão fazendo no Irã'. Artigo de Ezequiel Kopel

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06 Março 2026

Donald Trump escolheu sistematicamente o confronto com o Irã, em sintonia com a estratégia de Israel. Com os recentes ataques militares, o conflito escalou até o assassinato do líder supremo, Ali Khamenei. Teerã busca agora resistir e ampliar a contenda para forçar uma negociação, enquanto os Estados Unidos e Israel parecem perseguir uma mudança de regime sem medir plenamente as consequências.

O artigo é de Ezequiel Kopel, publicado por Nueva Sociedad, 06-03-2026 com o título "¿«Qué carajo están haciendo en Irán»?

Ezequiel Kopel é jornalista especializado no Oriente Médio, é autor, entre outros livros, de A disputa pelo controle do Oriente Médio: da queda do Império Otomano à ascensão do Estado Islâmico (Buenos Aires, Eduvim, 2016) e O Oriente Médio. Lugar-comum: sete mitos que envolvem a região mais quente do mundo (Buenos Aires, Capital Intelectual, 2021).

Eis o artigo.

Em quatro oportunidades, o presidente estadunidense Donald Trump encontrou-se diante da disjuntiva entre adotar a opção mais confrontadora — e supostamente perigosa — em relação ao Irã ou buscar uma alternativa mais apaziguadora ou diplomática. Em todas escolheu a mais virulenta. Em 2018, cancelou o Acordo Nuclear que seu predecessor, Barack Obama, havia assinado com o regime dos aiatolás e, segundo todas as opiniões de organismos oficiais ou independentes, monitorava fielmente seu desenvolvimento nuclear e limitava a possibilidade de que o Irã desenvolvesse uma bomba de destruição em massa. Em 2020, o republicano decidiu ordenar a morte do comandante da Guarda Revolucionária Qasem Soleimani no Iraque, o que por sua vez provocou que o Irã lançasse mísseis pela primeira vez contra bases estadunidenses. Mais tarde, em meados de 2025, Trump somou-se ao esforço guerreiro de Israel — quando aparentava mediar — e decidiu atacar o Irã sob o pretexto da ameaça nuclear iraniana.

Oito meses depois de declarar que as instalações nucleares do Irã haviam sido destruídas e que as opiniões em contrário eram notícias falsas, os Estados Unidos, junto a Israel, lançaram outro ataque — outra vez "preventivo" — em meio a negociações com representantes da República Islâmica.

Israel utilizou mais de 2 mil bombas nas primeiras 30 horas da guerra, enquanto os Estados Unidos atacaram mais de 1 mil objetivos no mesmo período e o Irã respondeu com pelo menos 390 mísseis e 830 drones nos dois primeiros dias. As bombas atingiram escolas, hospitais e edifícios residenciais nos ataques mais duros contra Teerã em mais de três décadas. Segundo diversos relatórios, o Irã estava disposto a ceder perante a grande maioria das exigências: enriquecimento de baixo grau, supervisão total da Organização Internacional de Energia Atômica (OIEA) sobre todo o programa e reservas de enriquecimento de urânio. Mas Trump — que no passado havia dito em um tuíte, datado de 11 de novembro de 2013, que "o presidente Obama atacaria o Irã devido à sua incapacidade para negociar adequadamente, não por sua habilidade!" — exigiu a destruição da marinha iraniana. Isso representa uma questão-chave para o mercado petrolífero, pois limitaria a capacidade de pressão da República Islâmica para fechar o estratégico estreito de Ormuz (embora os drones ou os botes rápidos também ajudem nesse objetivo). Mas significaria também deixar de ser um país independente com capacidades efetivas em defesa.

A um dia de iniciado o ataque conjunto israelense-estadunidense, durante o Ramadã islâmico e antes do Purim judeu, Israel decidiu começar decapitando a liderança iraniana de cima para baixo, e nesse marco assassinou o líder supremo Ali Khamenei. É a primeira vez que o Estado judeu elimina um chefe de estado, o que move ainda mais os limites do permitido na esfera internacional. Dias depois, enquanto os representantes da Assembleia de Especialistas (que na verdade é um corpo de 88 clérigos escolhidos com a aprovação de Khamenei) se reuniam para designar o substituto do líder supremo, Israel bombardeou o recinto em uma ação que poderia constituir um crime de guerra. Em outros tempos, por exemplo, quando Israel atacou o reator nuclear iraquiano Osirak em 1981, a então primeira-ministra britânica Margaret Thatcher considerou o fato uma "grave violação do direito internacional" e explicou que ela defendia a legalidade internacional, e que uma vez que nos afastamos dela já "não saberemos onde estamos".

Acredita-se que em 3 de março a Assembleia de Especialistas selecionou Mojtaba Khamenei, filho do líder assassinado e não precisamente um candidato moderado: trata-se mais de alguém para manter o statu quo da República Islâmica. Seu nome tornou-se conhecido mundialmente quando esteve por trás da repressão aos protestos pela fraude nas eleições de 2009, para muitos o princípio do fim da credibilidade interna sobre o sistema eleitoral. Israel, nem lento nem preguiçoso, anunciou que tentará acabar com o novo mandachuva, mas possivelmente esteja se apressando e esquecendo uma constante na região: quando os líderes anteriores são substituídos por seus filhos, estes costumam ser os últimos à frente do sistema construído por seus progenitores.

Durante seu mandato, Khamenei erigiu o Irã como a maior ameaça para a segurança de Israel, prometendo repetidamente a destruição do Estado judeu, e com esse propósito sustentou grupos armados na região, continuou com o programa de mísseis balísticos de Ruhollah Khomeini — líder da Revolução Islâmica de 1979 — e flertou com as ambições nucleares do país.

Precisamente esta última ambiguidade é a que lhe custou a vida: enquanto sustentava que o Irã tinha o direito inalienável de promover a energia nuclear e manteve seu programa contra ventos e marés, não terminou de desenvolver uma arma de destruição em massa. Cabe pensar que, se um remanescente do aparelho de segurança e inteligência iraniano permanecer no poder, concluirá que cometeram um erro ao se conformarem com um projeto pela metade e no futuro deveriam revertê-lo.

O aiatolá Khamenei — segundo um artigo do New York Times — havia declarado ao seu círculo próximo que, em caso de guerra, preferia permanecer no poder e tornar-se um mártir antes que ser julgado pela história como um líder que havia se escondido. Khamenei encontrava-se no escritório do complexo residencial onde vivia com sua família e não dentro de um bunker subterrâneo. Isso pode fazer pensar que ele se propunha a ser lembrado por um ato performático deliberado, semelhante ao do sacrifício de Hussein — neto do profeta Maomé — em Karbala há treze séculos; um fato crucial para definir a variante xiita do islã. Mas também — dado que no ataque morreram sua esposa e vários membros de sua família — parece ter subestimado os riscos imediatos que pairavam sobre ele.

A morte de Khamenei — de quem se dizia padecer de um câncer de próstata e esperava-se que perecesse em pouco tempo devido ao agravamento de sua condição e sua avançada idade (86 anos) — trouxe justiça para os milhares de iranianos que perderam a vida durante seu reinado, mas também teve um falecimento similar ao de um herói irredento, mais disposto a sacrificar-se junto à sua família por seu povo do que a assinar uma rendição que o humilhasse. Khamenei reprimiu brutalmente por décadas as ondas de protestos internos contra o sistema e a mais recente foi esmagada por meio de um massacre, talvez o mais sangrento da história contemporânea iraniana, em janeiro de 2026.

Hoje a estratégia dos Estados Unidos e de Israel parece buscar uma mudança de regime (o que poderia levar a uma guerra civil) ou conseguir que o Irã capitule completamente em matéria de mísseis, armas nucleares e intervenção regional. Nesse caso, devem encontrar um setor da poderosa Guarda Revolucionária — organização fundada alguns meses após a Revolução Islâmica com a missão central de defender o novo regime — disposto a fazer um acordo em troca de manter o regime.

A primeira opção implica caos e sofrimento massivos; a segunda, uma rendição com o objetivo de promover uma queda posterior. A liderança iraniana não acredita que, em caso de rendição, os Estados Unidos aliviem a pressão, mas que, pelo contrário, a situação animará Washington a ir por mais. Outra opção parece ser a atomização do território iraniano mediante o levantamento dos diferentes grupos étnicos, em especial os curdos do Irã, que se espera que sejam apoiados a partir das zonas do Curdistão iraquiano em uma espécie de transnacional curda que nunca termina de se materializar (não por falta de coragem, mas pelo peso de seus inimigos e pelas divisões entre os diferentes grupos nacionalistas). A alternativa curda já se via chegar na semana passada quando diferentes empreiteiros de defesa estadunidenses saíram, antes do ataque contra o Irã, em busca de tradutores curdos.

Durante os últimos cem anos, os curdos foram armados e depois abandonados pelos Estados Unidos em inúmeras ocasiões ("Se me enganas uma vez, a culpa é tua. Se me enganas duas vezes, a culpa é minha"). Inclusive, há um mês, Trump suspendeu intempestivamente o apoio estadunidense às forças curdas na Síria, deixando-as à própria sorte para que assinassem um acordo de convivência com o governo central de tendência islâmica de Damasco, que havia começado a massacrá-los. Embora a atenção se centre nos grupos de oposição curdos iranianos (e na recente formação de uma coalizão entre os cinco partidos principais), cabe destacar que militantes balúchis salafistas precederam essa ação com sua própria coalizão. Ambas as opções preocupam tanto a Turquia quanto o Paquistão e, se algum desprevenido acredita que o presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, vai permitir pacificamente que os curdos criem um Estado étnico em sua fronteira, deveria recordar o que ele fez na Síria e no Iraque.

Fora do Irã, os grupos de expatriados encontram-se divididos: um com base nos Estados Unidos, que conta com o favor de vários políticos israelenses, sugere que a alternativa menos traumática para estabelecer uma sucessão ao sistema deveria ser Reza Pahlavi, o filho do último xá do Irã, Mohamed Reza Pahlavi. Ou seja, substituir a atual teocracia por um descendente da monarquia anterior. Mas é importante recordar que a Revolução Islâmica de 1979 não surgiu por geração espontânea, mas foi a resposta a décadas de repressão, desperdício econômico e tirania. Para muitíssimos iranianos, dentro e fora do país, o princípio do problema pode ser rastreado até o golpe de Estado promovido pelos serviços de inteligência da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos junto ao último xá, Mohamed Reza Pahlavi, para derrubar o líder nacionalista Mohamed Mossadegh, que contava com apoio popular e havia nacionalizado a indústria petrolífera iraniana. Além disso, a viúva do último xá do Irã e mãe de Reza Pahlavi, Farah Pahlavi, sustentou, em uma mensagem apenas velada, que embora seu filho "esteja em processo de preparar" uma transição, "o futuro do Irã não deve ser decidido fora de suas fronteiras" e que o apoio da comunidade internacional deve "ir para o povo, não para os cálculos geopolíticos". Também afirmou que a morte do líder supremo Ali Khamenei constitui "um momento de importância histórica", mas "não significa automaticamente o fim de um sistema".

O Irã tem o dobro da população do Iraque, o quádruplo de seu território e um aparato de segurança muito melhor equipado e motivado, que deu mostras em reiteradas ocasiões de estar coeso em torno do regime. Ao mesmo tempo, o sistema iraniano evoluiu, ao longo de quase meio século, até tornar-se uma estrutura desenhada para funcionar em tempos de crise — e mesmo que se apresente, como agora, a necessidade de uma mudança de liderança na cúpula do poder. Portanto, qualquer mudança política significativa requer o desmantelamento de um capilar sistema burocrático estatal que depende de centenas de milhares de pessoas. Fomentar uma guerra civil no Irã poderia não apenas ser desastroso para a nação persa, mas também suicida para a região, sobretudo se recordarmos que, no Iraque, uma situação similar acabou encorajando o nascimento do Estado Islâmico.

Para o Irã, o objetivo é tentar aguentar os ataques estadunidenses e israelenses, manter sua posição e expandir o máximo possível a guerra, aumentando o perigo para a economia mundial, à espera de que atores regionais e internacionais medeiem um cessar-fogo. Esperam que, se Trump não obtiver uma vitória rápida, busque uma saída negociada. Mas para isso, segundo os cálculos iranianos, é necessário pressionar os países do Golfo para demonstrar-lhes o preço do "não alinhamento" que eles consideram como uma colaboração indireta com os Estados Unidos e Israel. A estratégia não está isenta de riscos, pois pode levar os integrantes do Conselho de Cooperação para os Estados Árabes do Golfo a somarem-se ao esforço bélico contra o Irã. Mas o cálculo da defesa iraniana hoje é que não ter feito os países vizinhos pagarem um preço mais alto, quando o país foi atacado no passado, é o que os conduziu à situação atual e potencializou seus inimigos sunitas. Por isso, após o ataque estadunidense-israelense, o Irã lançou mísseis e drones contra Israel, Jordânia, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein, Omã e Arábia Saudita. Deste modo, Teerã decidiu responder sem demora, e essa veloz decisão definiu o curso operativo. A pior parte da retaliação iraniana parece ter recaído sobre os civis israelenses e a infraestrutura no Golfo. O Irã decidiu por três tipos de objetivos: bases militares estadunidenses na região (Bahrein, Catar, Kuwait), infraestrutura de energia (Arábia Saudita, Curdistão) e, talvez o mais perigoso de todos: zonas urbanas densamente povoadas para maximizar o impacto econômico e político (centro de Israel, Dubai).

Além disso, oficiais militares iranianos anunciaram na segunda-feira, 2 de março, que qualquer navio que cruzasse o crítico estreito de Ormuz — via marítima pela qual transita cerca de 20% do petróleo do mundo — seria afundado. Esta ameaça, junto aos milionários pagamentos exigidos às companhias de seguros, levaram a uma paralisia marítima que coloca em xeque várias potências e as obriga a implementar alternativas para o transporte do petróleo (a Arábia Saudita anunciou que poderia encontrar uma via de saída alternativa pelo Mar Vermelho). Neste contexto, a Rússia está expectante e desejosa de cobrir o consumo chinês e indiano, e inclusive o europeu. Para os países do Golfo, existe uma grande diferença entre resistir aos ataques a bases estadunidenses e os diretos à sua própria infraestrutura. Embora pareçam ter se preparado bem para a guerra (os emiradenses dizem que seus interceptores de mísseis podem operar durante meses e derrubaram a grande maioria dos drones e mísseis disparados contra seu espaço aéreo), não é fácil ignorar que a situação atual é um desastre total para as monarquias do Golfo, que durante muito tempo se apresentaram como ilhas de estabilidade e refúgio econômico, o que lhes permitiu construir um importante soft power global.

Dias atrás, o Secretário de Estado estadunidense, Marco Rubio, foi consultado sobre as causas da intervenção estadunidense no Irã, ao que respondeu que haviam sido alertados por Israel de que estavam preparando um ataque contra o Irã e que desta vez a resposta iraniana — ao contrário de oportunidades anteriores — seria contra os Estados Unidos. Então, decidiram se antecipar e lançar um peculiar "ataque preventivo".

Estas afirmações contradizem o Pentágono, que afirmou, em reuniões informativas no Capitólio, que o Irã não planejava iniciar uma ofensiva a menos que o atacassem primeiro. Por sua vez, o governo iraniano parece tão preocupado com a ameaça externa quanto com um virtual desmoronamento interno no caso de novos protestos. Mas se a sociedade iraniana merece libertar-se de um regime despótico, parece improvável que sua queda seja alcançada com uma campanha de bombardeios, com os Estados Unidos mais comprometidos com os objetivos regionais de Israel do que com seus próprios interesses.

Enquanto isso, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, adiantou que, em caso de necessidade, os Estados Unidos utilizarão forças terrestres. Mas a ameaça de uma invasão massiva — e não de operações terrestres específicas que já devem estar ocorrendo — parece arriscada, considerando que o Irã é um traiçoeiro território montanhoso e possui uma força de combate descentralizada.

Historicamente, as intervenções militares estrangeiras nunca conseguiram melhorar a vida do povo iraniano e suas consequências foram destruição, guerra civil, fome e um governo central dependente dos desejos externos mais do que dos interesses nacionais. Mas, ao mesmo tempo, é improvável que o Irã possa ganhar esta guerra depois de perder a maior parte de seus líderes, sua marinha e sua força aérea, mas ninguém mostra todas as suas cartas no início e um acidente, um atentado ou uma situação fora do esperado, poderia alterar os cálculos, e mesmo uma derrota por pontos será bem-vinda se seu sistema persistir.

O que está claro é que esta guerra só se explica pela decisão de Washington, e que o pior cenário é que os Estados Unidos — mas especialmente seu líder ciclotímico — não saibam o que querem para "o dia seguinte". Quando Trump anunciou um cessar-fogo no ano passado na guerra de 12 dias sentenciou: "não sei que caralho estão fazendo" Israel e o Irã. Parece que hoje nem ele mesmo, líder da maior potência militar do mundo, tem isso muito claro.

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