05 Março 2026
Israel e o seu aliado americano desencadearam no sábado uma guerra contra o Irã. Desde então o território israelense é alvo, também, de ataques tanto por parte do Irã como da milícia xiita libanesa do Hezbollah. Uma instabilidade que leva à fuga de populações a partir do Estado hebreu. É o caso do clérigo cabo-verdiano Ricardo Monteiro que equaciona deixar Israel e Jerusalém o quanto antes.
O padre Ricardo Monteiro, da diocese cabo-verdiana do Mindelo, chegou a Jerusalém há quatro meses para prosseguir os seus estudos.
Com o desencadear da guerra israelo-americana contra o Irã e consequentes retaliações de Teerã, mas também da milícia xiita libanesa Hezbollah, este clérigo católico admite que desde o fim de semana passado tudo mudou no terreno e, por ora, tenta deixar quanto antes esta região do mundo.
Até aqui tudo mudou, realmente. Estávamos em uma rotina. Não obstante o ambiente que já sabemos que é próprio desta zona de tensão. Mas sabíamos que a qualquer hora e momento poderia começar uma guerra entre esses países. Porém, tudo mudou porque com as sirenes das 08h15 do sábado, tivemos que suspender todas as atividades ordinárias. No meu caso as aulas, e nos manter em casa vigilantes por causa do início da guerra.
Porque de imediato se lançaram as informações necessárias e se decretou o tempo de emergência e, portanto, se disse que a guerra tinha começado. Portanto, temos que tomar as devidas precauções. Pessoalmente, fiquei apreensivo e não sabia bem o que fazer, se tinha que me ausentar do país, se tinha que ficar. E assim as pessoas não sabiam o que fazer no momento. Entretanto, agora, com o andar do tempo, vemos que a guerra continua. Os ataques continuam quase a toda hora. E realmente o aconselhável é que quem puder também sair dessa região, que saia. E é, portanto, suspender as coisas porque não se sabe até quando.
A entrevista é publicada por RFI, 04-03-2026.
Eis a entrevista.
Gostaria de fazer. Gostaria de sair, pelo menos por uma fase. Daí, de Jerusalém, para ficar em porto seguro?
Sim, sim. Normalmente estou tratando de tudo para que eu possa realmente me ausentar e normalmente já está tudo tratado com a embaixada. Espero somente o dia e a hora para podermos sair do país.
Porque o espaço aéreo continua encerrado. Portanto, se tiver de sair de Israel terá de ir, imagino, por via terrestre até o Egito, até um território vizinho, não é?
Exatamente. As duas possibilidades são Egito ou Jordânia, que estão abertas ainda. As fronteiras terrestres por onde não se pode entrar, mas se pode sair para poder pegar o voo a partir desses países. Mas o mais provável neste momento é o Egito. Vamos ver se tudo se orienta por este lado.
Ouve-se falar muito de alertas devido a mísseis que podem vir a ser interceptados. É suposto que as pessoas vão para abrigos. Como é o dia a dia então do refúgio? No caso destes muitos ataques e de estarem tocando as sirenes?
Exato. Normalmente, quando há a aproximação de um míssil justamente aqui em Jerusalém, as sirenes tocam. Você recebe de imediato uma mensagem de alerta no seu celular para quem tem o número de Israel. E de imediato tem que estar atento. Normalmente na aplicação também de alerta, pode-se ver mais ou menos onde irão cair os restos do míssil interceptado. Portanto, algumas regiões, algumas casas mais oficiais se presume que têm bunkers já previstos. Ou também para a população também está dividida em zonas. Os bunkers já estão preparados. Eu até agora não tive nenhuma necessidade de recorrer a esta alternativa porque em nenhum momento restos de mísseis ou mesmo mísseis caíram perto ou na zona onde estou por causa da prevenção. Eu estou em uma zona muito segura e, portanto, não tenho tido essa necessidade. Mas isto é tudo disponível, está tudo muito organizado. As autoridades municipais e nós temos todas as informações em caso de perigo; o que fazer?
Os israelenses ou as pessoas que moram em Israel assistiram ao desencadear desta guerra? O que é que eles lhe dizem? Acha que as pessoas estão apoiando de fato as autoridades que decretaram a guerra contra o vizinho Irã? Sendo que, por o terem feito, a milícia xiita do Hezbollah a partir do Líbano está atacando também Israel. Portanto, ao fim e ao cabo, Israel está sendo atacado por dois atores simultâneos.
Sim, normalmente aqui em Israel temos essas duas partes: pessoas que apoiam e que são a favor destes ataques e pessoas também que não aceitam ou que são contra esses ataques. Vamos encontrar isso mesmo entre os hebreus mais ortodoxos. Existe sempre essa divisão. Aqueles que apoiam esta guerra, que acham justa esta intervenção, outros que nem por isso. Que acham que isso é um exagero, que estamos criando conflito com outros países. Mas nesta região sempre é uma característica. Ao longo dos séculos, sempre. Esta zona foi uma zona de conflito e Israel já está habituado. E as pessoas aqui veem isso de forma natural. Como eles enfrentam essa crise, enquanto nós, que somos estrangeiros, estamos um pouco espantados e procurando meios de estar sempre alerta. Eles não levam uma vida normal. Você tem que ir à rua. Você tem que fazer alguma coisa. Fazem porque já estão habituados.
E estas fronteiras já desde o ano passado sabíamos, desde aquele conflito de fronteira com o Líbano. Eu tive a oportunidade, no mês de dezembro, de visitar estas zonas perto do Líbano e da Síria. São zonas mesmo perigosas porque mesmo antes desta guerra já existiam conflitos. O conflito nestas zonas é permanente e, portanto, são zonas de que às vezes nós não nos damos conta. Mas está lá o conflito. E agora sim, com o contexto assim favorável, aproveitam sempre para intensificar e poder também atingir um ao outro. Porque esses dois países fazem fronteiras, não são amigos, não têm relações.
Acha que é a mesma percepção para muitos israelenses, que o inimigo, mesmo existencial, é o Irã e que, portanto, seria necessário de fato visar o Irã por o Irã pretender mesmo acabar com o Estado de Israel?
Na minha humilde opinião, é aquilo que eu fui ouvindo: essa inimizade existir. Este perigo é algo que sempre é patente. Existe porque não são amigos, porém acreditamos. Muitos aqui já são mais esclarecidos. Sabem que por trás desta razão existem muitas outras razões a nível político, social, econômico mesmo.
E também agora nesta situação, porque sabemos que neste momento, daqui a pouco vamos entrar no tempo das eleições aqui em Israel. Tudo isso serve um pouco para apresentar um novo panorama e, portanto, acredito que há muita coisa por trás. Só vindo aqui e conhecendo as realidades é que se pode compreender parcialmente essa história, porque é muita coisa complicada e sabemos que o Irã, sim, é um perigo para Israel.
E sabemos também que Israel não ama o Irã porque sempre o Irã se posicionou contra o Estado hebraico. Porém, as formas e os contornos que isso vai tomando é que refletem mais a intenção do indivíduo que guia o país do que a intenção do povo que representa este país.
Porque muitos setores receiam de fato uma invasão terrestre do Líbano por parte de Israel, já que as autoridades do Líbano não conseguem de fato impedir que o Hezbollah continue a disparar mísseis contra Haifa, nomeadamente. Acha que aí em Israel as pessoas acham que enviar tropas para o Líbano poderá vir a acontecer?
Eu acredito que com o andar do tempo isso poderá acontecer, porque tem uma razão que eles alegam. Os hebreus alegam que é uma razão de base, que acho que é muito frágil, mas eles assumem essa posição porque biblicamente a Terra prometida aos hebreus realmente vai para além da fronteira que Israel tem. Vai para além, vai até ao Líbano. Portanto, acreditam que esse território é deles, que foi usurpado e, portanto, vão usar sempre esse critério para o realizar. Mas é um critério frágil, porque, mesmo biblicamente estudando, vemos que esse território nunca foi uniforme. Sempre houve conflitos aqui. Às vezes ia até um certo sítio, outras vezes não, dependendo dos líderes e, portanto, não é de todo sustentável. Porém, é o que eles querem mesmo: alargar cada vez mais esse território.
Entramos na lógica de "a galinha ou o ovo. Quem é que chegou primeiro"? Foram os palestinos, foram os judeus?
Exatamente.
É toda uma dinâmica bastante perigosa. Esteve aí quando havia ainda a questão do conflito, também na Faixa de Gaza. Nessa altura já era complicada a situação?
Sim, eu cheguei e já isto tinha acontecido, já tinha a Faixa de Gaza. Eu cheguei em outubro do ano passado. Ainda estava quente porque nunca cessaram os problemas na Faixa de Gaza até agora. Encontramos militares naquela fronteira. Nós não podíamos acessar aquela terra; aqui, por exemplo, o Patriarca de Jerusalém já lá foi, com todas as tratativas diplomáticas necessárias e sempre ele traz notícias um pouco devastadoras, porque realmente aquela zona quase que já não existe, está totalmente destruída. Continuam a lançar o que podemos dizer ofensivas àquele território. E eu quando cheguei, ainda encontrei isso. E ainda existe. Ainda é patente essa história, infelizmente. E o que tem? Porque enquanto existir o Hamas, enquanto existir esse poder, eles estarão sempre lá a defender aquelas fronteiras.
E contra o Estado de Israel. Dizia que vai tentar de fato sair. Como é que equaciona o seu futuro? O senhor estava de fato estudando. Precisaria concluir os seus estudos, portanto imagino que precise de um prazo para voltar para aí, não é?
Exatamente. Normalmente as aulas estão suspensas. A minha missão aqui é o estudo e também o contato com as zonas bíblicas. Portanto, estando tudo suspenso por um tempo indeterminado e dado o risco que existe... Nós vivemos aqui normalmente, mas acredito que a iminência do perigo sempre está. Não sabemos onde é que esta guerra vai parar. Então eu pretendo me ausentar e reavaliar se no futuro próximo devo regressar para continuar; se em um futuro mais longínquo, regressar quando estiver mais controlada a situação e ver. Porque aqui nessa zona, quem vem para aqui também tem que estar preparado para tudo isto. A instabilidade é permanente e eu acredito que terei que reavaliar e ver o que é mais importante neste momento, até para a minha caminhada como presbítero. Saber onde é que Deus quer que eu esteja para realizar a sua vontade.
Está ligado a alguma diocese cabo-verdiana?
Sou diocesano da Diocese de Mindelo, em Cabo Verde.
É quarta-feira, vai tentar sair nas próximas horas?
Talvez hoje já não dê, mas amanhã com certeza. Entre a tarde e depois de amanhã vamos ver. Eu farei de tudo. E também o pessoal diplomático aqui das embaixadas é muito suscetível a nos ajudar e com certeza terão já uma solução.
Há embaixada cabo-verdiana aí?
Há consulado cabo-verdiano. Temos o consulado, mas sempre eu tento também através da Embaixada de Portugal também.
Leia mais
- "É assim que o direito internacional deixa de vigorar". Entrevista com Anne Applebaum
- Contra a guerra injusta e injustificada com o Irã. Editorial da revista jesuíta America
- Programa atômico do Irã foi criado pelos EUA que hoje lança “Fúria Épica” sobre o país
- "Inflamar o Golfo é um bumerangue. Agora Putin e Xi terão carta branca". Entrevista com Andrea Riccardi
- EUA e Israel lançam ataque pesado contra o Irã, que reage com mísseis e promete vingança
- EUA-Irã: horas decisivas. Artigo de Riccardo Cristiano
- O Irã no olho do furacão: que tipo de acordo pode impedir um ataque dos EUA?
- Centenas de aeronaves americanas prontas para atacar. Forças russas e chinesas estão realizando exercícios com Teerã
- Leão XIV na Quarta-feira de Cinzas: "O mundo está em chamas; o direito internacional está em cinzas hoje"
- Irã, banho de sangue e risco de ataque
- O bombardeio de Trump ao Irã é perigoso e imoral. Editorial do National Catholic Reporter
- O governo Trump testou o princípio da impunidade na Palestina. Artigo de Enrique Javier Díez Gutiérrez
- Chaves do levante iraniano. Artigo de Ezequiel Kopel
- Israel coloca a região à beira do abismo
- Trump quebra o acordo do Irã. A Igreja pode ajudar a amenizar tensões?