Uma reflexão aos 70 anos (Adeus ao irmão Sérgio Görgen)

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09 Fevereiro 2026

Perdemos o Irmão Sérgio Görgen, um dos líderes mais proeminentes na causa dos pobres e oprimidos, e na defesa da vida e da Mãe Terra. Seu legado ao longo de 70 anos representa uma verdadeira contribuição espiritual, humana e social.

O artigo é de Leonardo Boff, escritor, teólogo e autor de importantes livros como Cuidar da casa comum: Pistas para protelar o fim do mundo, Editora Vozes, 2024.

Eis o artigo.

Poucos dias após completar 70 anos, nosso querido amigo e colega, Frei Sérgio Görgen, faleceu em 3 de fevereiro, vítima de um ataque cardíaco. Ele dedicou toda a sua vida à causa da justiça, da solidariedade e da convivência concreta com os mais desfavorecidos, especialmente os pequenos agricultores rurais. Combinava uma fé profunda com um compromisso direto, chegando a arriscar a própria vida, com os direitos individuais e sociais, a reforma agrária e o empoderamento dos pequenos produtores rurais. Curiosamente, era também um intelectual refinado, tendo publicado excelentes livros baseados em sua experiência prática. Era versado em ecologia e se mantinha atualizado com a literatura recente. Tivemos longas conversas. Creio que ele foi um dos primeiros ecologistas brasileiros a dialogar com o grande físico russo Igor Vernsky. Vernsky, antes de James Lovelock, propôs pensar a Terra como um todo e não apenas seus ecossistemas. Foi um dos pioneiros a estabelecer o termo Biosfera (1936, título de seu livro) como parte essencial do planeta vivo, a Terra.

Irmão Sérgio logo percebeu que preservar sementes nativas era essencial para o futuro da humanidade. Ele incentivou os agricultores a criarem seus próprios bancos de sementes e a trocarem sementes com outros. Mas o que mais me impressionou nele foi sua bondade, seu imenso coração e sua ternura para com os humildes. Ele era profundamente humano, um seguidor do Jesus histórico, nosso Deus humanizado.

Perdemos um dos líderes mais íntegros na luta pelos pobres e oprimidos, na defesa da vida e da Mãe Terra. Seu legado ao longo de 70 anos representa uma verdadeira contribuição espiritual, humana e social.

Agora ele estará com seu pai, São Francisco. Seu imenso coração baterá em uníssono com o coração do Universo e com o coração de Deus Pai e Mãe de infinita bondade, junto com seu filho e nosso irmão Jesus Cristo e com o Espírito que permeia toda a criação e suscita líderes humildes e unidos ao destino daqueles que sofrem neste mundo. Que ele agora descanse da longa obra que realizou ao longo de sua vida, sempre ao lado dos mais necessitados e amados por Deus.
De seu irmão L. Boff

Texto de Frei Sérgio, escrito poucos dias depois de celebrar setenta anos de vida.

Ao completar setenta anos, roda um filme na cabeça da gente. Nunca imaginei chegar a esta idade. Mas se os anos se cumpriram, não resta dúvida, foi por Graça, pura Graça.

Então, só resta agradecer ao Senhor da Vida, em seu Filho e em sua Mãe. Com certeza, me ampararam e me seguraram. Muitas e muitas vezes, através das amizades, do companheirismo, da fortaleza comum, no suporte das duas famílias (a de sangue e a de hábito), das tantas e tantas orações, dos pedidos de “se cuide” (quase nunca obedecidos). É nos gestos que a Graça se faz prática e o Amor se faz vivo.

Chegar aos setenta tendo sofrido 6 acidentes de carro, passado por cinco greves de fome, inúmeros conflitos sociais e fundiários, saindo ferido em dois, como diz o ditado popular, “só por Deus”.

Vivi em situações de muita dor (até hoje ecoam nos meus ouvidos o choro de crianças com fome nos barracos de acampamento e até me dói no mais fundo de mim a dor de enterrar crianças que morriam de fome) e muita tensão em tantos e tantos conflitos vividos, mas os tempos de alegria e confraternização foram infinitamente maiores. Algumas decepções, mas os testemunhos edificantes foram e são infinitamente maiores.

Lembro, neste filme da vida, dos direitos que não tive.

Não tive o direito de ter medo, mesmo carregado de temor, porque em tantos conflitos, uma covardia minha seria a derrocada para muita gente.

Não tive o direito de vacilar, embora inseguro e cheio de dúvidas, por este vacilo comprometeria a firmeza na luta de tanta gente.

Não tive o direito ao desânimo, embora tantas vezes sem enxergar caminhos seguros, porque estavam tantos olhando em minha direção e uma pequena demonstração de desânimo de minha parte, contaminaria o coração de muita gente e desistiriam de lutar pela dignidade de suas vidas.

Não tive direito ao cansaço, embora tantas e tantas vezes, o espírito arrastou meu corpo exausto.

Não tive o direito de ter crise, nem vocacional, nem espiritual, nem de confiança no futuro, embora em meu interior, tenha passado por várias e tantas, porque sentia a responsabilidade e o peso do hábito de São Francisco sobre os ombros na vocação que abracei.

E desde aquele dia em que, num conflito de terra na ocupação da Fazenda Anonni, em que a Brigada Militar avançava em direção ao povo e uma mulher puxou minha camisa e me disse “Frei, o senhor não vai fazer nada?” e eu, cheio de vergonha, avancei do meio do povo e fui para frente dos policiais, incapaz de dizer uma única palavra, abri os braços e parei bem próximo a eles – e as crianças com flores na mão, me seguiram e os policiais pararam – desde aquele dia, perdi também o direito à omissão.

Por isto cheguei aos setenta meio assim, bruto, sincero demais, teimoso, xucro, irreverente, fora dos prumos estabelecidos, mas disposto e esperançoso na força do amor e da vida, pedindo sempre a Jesus e aqueles com quem caminho nas empreitadas da vida, que me fraquejem e corrijam, para que meus muitos defeitos não sejam mais salientes que a Graça de Deus.

Continuo acreditando na força do povo organizado, uma das expressões mais vigorosas da Graça e das Bênçãos divinas.

Um direito, porém, sempre me assistiu: a proteção de Maria e a presença amorosa e incômoda de Jesus.

Talvez, só por isto, tenha chegado aos setenta.

Gratidão enorme, a Deus e a tanta gente com quem os caminhos da existência propiciou encontrar.

Frei Sérgio Antônio Görgen ofm

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