O esvaziamento das palavras e a língua materna da Palavra. Artigo de Pierangelo Sequeri

Foto: Ioann-Mark Kuznietsov/Unsplash

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09 Fevereiro 2026

"Acostumar-se ao encanto dessa língua materna, para o qual ainda não estamos totalmente preparados porque exige uma mudança de perspectiva na implementação da recomendação conciliar sobre a centralidade das Sagradas Escrituras, destila a paz entre os seres humanos por meio da riqueza de palavras que expandem a alma", escreve Pierangelo Sequeri, em artigo publicado por Avvenire, 25-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Pierangelo Sequeri é ex-presidente do Pontifício Instituto Teológico João Paulo II para as Ciências do Matrimônio e da Família (2016-2021) e consultor do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida.

Eis o artigo.

“Só lhe falta falar”, costuma-se dizer de uma postura particularmente inteligente ou expressiva em nossos amigos de quatro patas. Em compensação, um número crescente de seres humanos, apesar de terem a capacidade de falar, está aprendendo a latir. O uso agressivo das palavras, graças à onipresença da competição midiática, que busca a frase bombástica a todo custo, infiltrou-se até mesmo na normalidade das relações sociais.

O significado não importa, o que importa é o latido.

É uma deriva que acaba acostumendo. Sua conexão com o fenômeno agora gritante do retorno do analfabetismo, que ameaça justamente os países onde o humanismo floresceu na literatura e nas artes, que também deram impulso e energia às invenções e à ciência (é um conto de fadas para idealistas curiosos secularizados, que fala de um privilégio da cultura humanista que mortifica a racionalidade científica), agora já se tornou inquestionável. Mas o costume de usar a palavra como arma e armaduras que ergue uma barreira em torno de um ego que se revela ao mesmo tempo arrogante e covarde, é também a antessala de uma agressividade que facilmente se transforma em ação.

Uma paz desarmante e desarmante, como prega o Papa Leão, é alcançada ao se costumar com a palavra que lhe é afim. O mundo que deve ser governado, apaixonado e, ao mesmo tempo, pacificado pela palavra — e não pelo grito e pelo rosnado — tornou-se mais complexo e mais grosseiro. A política parece, com muita frequência, totalmente perdida nesse aspecto (mas mesmo entre os líderes religiosos, não se brica em serviço). O habitat social da fala humana, nesse interim, encheu-se de fórmulas padronizadas (do tipo "prontas para consumo", como a junk food), obsessivamente voltadas para alimentar a competição pelo consumo, que gratifica o ego. A dança das curtidas e dos discursos de ódio, grosseiro costume binário de "gosto/não gosto" que personifica uma falta de discurso, é perfeitamente semelhante àquele do código de computador (0/1, ligado/desligado). Esse código, digno de espectador dos jogos no Coliseu, funciona mesmo sem palavras: como o gesto com o polegar do imperador romano, que sinaliza à multidão quem deve viver e quem deve morrer. A psique adolescente está diretamente ligada a essa aparente simplificação da liberdade sem inteligência, que permite uma fuga instintiva de uma complexidade que, de outra forma, seria ingovernável. E seu impacto na vida real é mortal. Digo isso de forma direta e sem rodeios: a transformação do ensino de italiano (e da língua de cada país, obviamente) no exercício espiritual e multilateral dos poderes da palavra é o ponto crucial para prevenir a fragilidade psíquica que hoje alimenta sistematicamente a agressividade (e a automutilação) na adolescência. Sua versão vagamente estetizada privou os jovens da educação necessária para tornar habitável a comunidade e feliz a geração do mundo.

A fé exige que o habitat da palavra seja hospitaleiro à "palavra de Cristo", para que ela "habite em vós abundantemente" (Col 3,16). Basta pensar no poder oculto das parábolas, que muitas vezes nos contentamos em reduzir a historinhas da carochinha, com sua moral de boas ações e bons pensamentos. A parábola de Jesus é fácil de entender, e ao mesmo tempo fácil de não entender, como Jesus anuncia em seu comentário paradoxal sobre a parábola do semeador ("Para que ouçam, e não entendam", Mc 4,12). Porque as parábolas são cheias de artifícios, como aquelas histórias que tanto agradam às crianças, mas que só os adultos conseguem entender de verdade.

Por que o semeador "desperdiça" tanta semente em solo impróprio? Por que não exige nenhuma "penitência" do filho pródigo? Por que elogia o administrador generoso com os bens que "não lhe pertencem"? As parábolas de Jesus são um excelente exemplo de iniciação à "palavra bíblica" de Deus como "língua materna" que nos gera e regenera incessantemente à sabedoria de Deus. As parábolas não visam uma interpretação que resolve o Evangelho: o Evangelho é um paradoxo que não vai ser ereslvido na Terra, até o último dia. A língua materna da relação com Deus, semelhante àquela que junto com o leite nos introduz à humanidade, não se identifica propriamente com nenhuma das línguas do mundo, nem mesmo com o hebraico. Ao contrário, em cada língua — a começar pelo hebraico — ela torna habitável, tangível e inteligível a convivência com Deus em todo o mundo. Acostumar-se ao encanto dessa língua materna, para o qual ainda não estamos totalmente preparados porque exige uma mudança de perspectiva na implementação da recomendação conciliar sobre a centralidade das Sagradas Escrituras, destila a paz entre os seres humanos por meio da riqueza de palavras que expandem a alma. E barra o caminho ao impulso analfabeto da luta pelo desfrute exclusivo, abrindo caminho para a sabedoria que torna prazerosa a aventura comum.

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