Por isso, a suspeita ressurge: não são justamente as "questões" sobre as quais a ciência se cala que constituem o sentido da vida? Não é um grave erro esquecer a resposta para o mistério da existência? Não é uma tragédia ignorar Deus com tanta ingenuidade? Enquanto isso, as palavras de Jesus permanecem: "Arrependam-se, porque o Reino de Deus está próximo".
O comentário é de José Antonio Pagola, teólogo espanhol, ao Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 4:12-23, que corresponde ao 3º Domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico, publicado por Religión Digital, 19-01-2026.
Vivemos tempos de crise religiosa. Parece que a fé está sendo sufocada na consciência de muitos, reprimida pela cultura moderna e pelo estilo de vida do homem contemporâneo. Mas, ao mesmo tempo, é fácil observar que a busca por sentido, o anseio por uma vida diferente, a necessidade de um Deus que seja Amigo, está despertando novamente em muitos.
É verdade que um ceticismo generalizado em relação a grandes projetos e grandes declarações se enraizou entre nós. Discursos religiosos que oferecem "salvação" ou "redenção" já não encontram eco. A própria esperança de que as Boas Novas para a humanidade possam ser ouvidas em algum lugar diminuiu, quase desapareceu.
Ao mesmo tempo, muitos de nós sentimos que perdemos o rumo. Algo está afundando sob nossos pés. Estamos ficando sem objetivos e pontos de referência. Percebemos que podemos resolver "problemas", mas estamos nos tornando cada vez menos capazes de resolver "o problema" da vida. Não precisamos de salvação mais do que nunca?
Vivemos também em tempos de "fragmentação". A vida tornou-se atomizada. Cada um vive em seu próprio mundinho. O humanismo que buscava a verdade e um senso de plenitude é uma lembrança distante. Hoje, as pessoas não ouvem aqueles que realmente entendem a vida, mas sim especialistas que sabem muito sobre uma área, porém nada sabem sobre o sentido da existência.
Ao mesmo tempo, muitas pessoas começam a se sentir sobrecarregadas neste mundo vertiginoso de dados, informações e números. Não podemos escapar das questões eternas da humanidade: De onde viemos? Para onde vamos? Não existe um sentido último para a vida?
Esta também é uma época de pragmatismo científico. O homem moderno decidiu (por razões desconhecidas) que só existe aquilo que a ciência pode provar. Nada mais. O que escapa à ciência simplesmente não existe. Naturalmente, nesta abordagem simplista, porém anticientífica, Deus não tem lugar, e a fé religiosa é relegada ao mundo ultrapassado dos não progressistas.
No entanto, muitos estão percebendo que essa abordagem está longe de ser adequada, pois não reflete a realidade. A vida não é um "grande conjunto de Meccano", nem a humanidade é meramente "uma peça" em um mundo que pode ser desvendado pela ciência . O mistério está presente em todos os lugares: dentro do ser humano, na vastidão do cosmos, na história da humanidade.
Por isso, a suspeita ressurge: não são justamente as "questões" sobre as quais a ciência se cala que constituem o sentido da vida? Não é um grave erro esquecer a resposta para o mistério da existência? Não é uma tragédia ignorar Deus com tanta ingenuidade? Enquanto isso, as palavras de Jesus permanecem: "Arrependam-se, porque o Reino de Deus está próximo".