13 Janeiro 2026
O Brasil retirou a proteção à embaixada argentina em Caracas. Essa decisão faz parte do cenário político em transformação após a prisão de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos e a posse de Delcy Rodríguez como presidente interina da Venezuela, e ocorre em um contexto de posições opostas entre Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei.
A reportagem é de Mercedes López San Miguel, publicada por El Diario, 14-01-2026.
O líder brasileiro condenou a ação militar ilegal do governo Trump contra a Venezuela, enquanto o presidente argentino a apoiou. Soma-se a isso as postagens provocativas de Milei em plataformas de mídia social como X e Instagram. O presidente de extrema-direita compartilhou um mapa da América do Sul retratando Argentina, Equador e Bolívia como nações futuristas, e Brasil e Colômbia, entre outros países de esquerda, como favelas.
O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, respondeu. “Este mapa publicado pelo presidente Milei precisa de atualização urgente”, disse ele, elaborando com dados econômicos favoráveis ao Brasil e lembrando a todos que seu país “tem uma moeda estável há 30 anos” e não deve “um centavo sequer ao FMI”. Outra publicação do presidente argentino de extrema-direita provocou desconforto: um vídeo recente de um discurso no qual ele apoia “a pressão dos EUA para libertar o povo venezuelano” e termina com uma foto de Lula abraçando Maduro.
“A ofensa finalmente esgotou a paciência estratégica do presidente Lula. Como acontece com a maioria das coisas que nosso presidente produz, uma foto de Lula com Maduro, reproduzida nas redes sociais a pedido de Milei, foi a gota d'água, e o Brasil parou de fazer favores à missão diplomática argentina”, disse o ex-ministro das Relações Exteriores da Argentina, Rafael Bielsa (2003-2005), ao elDiario.es.
Desde agosto de 2024, diplomatas brasileiros ocupavam o prédio da embaixada argentina a pedido do presidente de extrema-direita. Milei havia rompido informalmente relações com Maduro após as eleições presidenciais daquele ano, e o governo venezuelano exigiu a retirada do pessoal diplomático argentino.
Após as eleições, seis membros da oposição venezuelana buscaram refúgio na embaixada argentina em Caracas e, graças aos esforços brasileiros, conseguiram exilar-se nos Estados Unidos em maio de 2025. Enquanto o governo argentino falava de um resgate realizado pelo governo Trump, outras fontes revelaram que foi uma negociação com o Brasil que lhes garantiu salvo-conduto para deixar a Venezuela pelo Aeroporto Internacional Simón Bolívar, em Maiquetía.
O presidente da Argentina, Javier Milei, compartilhou nesta segunda-feira (15) um post que mostra o mapa do Brasil e de outros países da América do Sul governados pela esquerda composto por favelas. Já os territórios argentino e de países com administrações de direita aparecem… pic.twitter.com/DtUHIbXLkf
— GloboNews (@GloboNews) December 16, 2025
“O Brasil já fez a sua parte”
“O Brasil já fez a sua parte”, garantindo a segurança dos solicitantes de asilo e a inviolabilidade da embaixada, informou o jornal O Globo, citando fontes diplomáticas. Relembraram também os esforços feitos em Caracas para garantir a libertação de Nahuel Gallo, o oficial militar argentino preso em dezembro de 2024, acusado de ligações com atividades desestabilizadoras por meio de “atos terroristas”.
Em Buenos Aires, crescem as expectativas em relação à libertação de Gallo, em meio às solturas de presos promovidas pelo governo de Delcy Rodríguez. Segundo fontes diplomáticas, a situação muda com a posse de Rodríguez, que substituirá Maduro. Durante um ano e meio, Lula solicitou que o presidente venezuelano apresentasse os resultados das eleições como prova de sua vitória, o que nunca aconteceu.
Agora, diante do ataque dos Estados Unidos à Venezuela, o presidente brasileiro se manifestou contra as ações americanas que levaram ao sequestro de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, e à subsequente prisão de ambos em Nova York.
Ao contrário do governo brasileiro, Milei apoiou integralmente as ações militares ordenadas por Trump. O intelectual Emir Sader destaca o contraste de posições ao elDiario.es: “Lula, juntamente com diversos presidentes latino-americanos, como os do México, Colômbia, Chile e Uruguai, condenou veementemente o sequestro de Maduro. Milei, como uma voz isolada, saudou o sequestro como um passo adiante para a liberdade na América Latina.”
A decisão do Brasil de deixar de proteger a sede diplomática argentina em Caracas também é vista como um gesto que aproxima Lula da Silva do governo Rodríguez, com o qual ele já mantém contato e para o qual enviou 40 toneladas de medicamentos para pacientes renais que foram destruídos no ataque dos EUA.
Especula-se que a missão diplomática argentina ficará sob a proteção do governo da italiana Giorgia Meloni, com quem Milei compartilha afinidades ideológicas. Lula também mantém uma boa relação com Meloni. Especialistas sugerem que Lula usou de sua influência para garantir o voto da Itália a favor do acordo União Europeia-Mercosul.
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