Kast e Schoenstatt: O movimento de extrema-direita que moldou a fé do novo presidente do Chile

José Antonio Kast | Foto: Mediabanco Agencia/Wikimedia Commons

Mais Lidos

  • Contra a guerra injusta e injustificada com o Irã. Editorial da revista jesuíta America

    LER MAIS
  • RS registra 80 feminicídios em 2025; maioria das vítimas foi morta dentro de casa

    LER MAIS
  • Os resultados da guerra com o Irã "podem ser piores" do que os do Iraque, afirma Mary Ellen O'Connell, professora da Faculdade de Direito de Notre Dame - EUA

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

12 Janeiro 2026

Fundado por um padre alemão que foi afastado de suas funções por Pio XII devido a alegações de abuso, o grupo Kast participa com sua família das missas dominicais na capela emblemática da colônia de Buin.

A reportagem é de José Lorenzo, publicada por Religión Digital, 11-01-2026.

A cerca de 35 quilômetros de Santiago, no Chile, fica a comuna de Buin, um território agrícola e rural, onde José Antonio Kast nasceu há 59 anos. No dia 11 de março, ele tomará posse como o novo presidente do país latino-americano, o que, segundo analistas, representa o retorno ao poder da extrema direita desde os tempos da ditadura de Augusto Pinochet, de quem, aliás, este advogado já se declarou admirador em diversas ocasiões.

Neste local, também conhecido pelos seus vinhedos, ergue-se uma pequena capela, idêntica àquela que, desde o seu modelo original na Alemanha, foi replicada em mais de uma centena de lugares em todo o mundo pelo movimento de Schoenstatt, e onde o novo presidente chileno e a sua família assistem às missas dominicais. Pelo menos até agora.

“Ele e sua família vêm regularmente ao Vale de Maria. Participam das missas de domingo e seus filhos faziam parte dos núcleos juvenis do movimento de Schoenstatt a Juventude Feminina e a Juventude Masculina”, disse um membro da comunidade ao jornal argentino La Nación algumas semanas atrás.

"Nada é possível sem Deus"

Uma devoção que Kast não esconde, como demonstrou em seu primeiro discurso após a divulgação dos resultados que lhe garantiram a vitória no segundo turno das eleições, em 15 de dezembro. “Nada é possível sem Deus.” “Nada acontece na vida, para nós que temos fé, que não esteja diretamente relacionado a Deus”, enfatizou o político ultraconservador, que se alinha à onda reacionária liderada por Donald Trump na América do Norte e Javier Milei na América do Sul.

Segundo a BBC, essas convicções remontam à sua filiação e à de sua família ao Schoenstatt, um movimento ultracatólico fundado em outubro de 1914 na Alemanha, poucos meses após o início da Primeira Guerra Mundial, pelo padre Joseph Kentenich (1885-1968), e que está presente hoje em mais de 100 países, incluindo toda a América Latina.

Aparentemente, essa ligação vem dos pais do presidente eleito, Michael Kast – acusado de ter se filiado ao partido nazista em 1942 – e Olga Rist, profundamente religiosos e devotos da Virgem Maria, uma prática comum na Baviera, Alemanha, de onde eles vieram, embora outros atribuam essa ligação de José Antonio Kast com Schoenstatt ao seu irmão mais velho, Miguel, que foi ministro durante a ditadura de Pinochet.

Kentenich, que era membro da Sociedade do Apostolado Católico, restaurou com um grupo de estudantes uma pequena capela localizada nos jardins do seminário e iniciou a expansão do movimento, composto por ramos masculinos, femininos e seculares, cujos membros, sem serem religiosos, se comprometem a viver na pobreza, castidade e obediência.

Alegações de abuso

No entanto, durante a sua implementação, algo parece ter dado errado, seguindo os caminhos de outras organizações profundamente hierárquicas onde todo tipo de abuso pode facilmente criar raízes e prosperar. E as primeiras denúncias surgiram, chegando até ao Vaticano.

Em 1951, o Papa Pio XII afastou o fundador de suas responsabilidades em Schoenstatt e o enviou para os Estados Unidos, onde permaneceu por 14 anos, retornando apenas para falecer na Alemanha em 1965. Os seguidores de Kentenich não negaram esses eventos, embora atribuíssem seu exílio forçado a ciúmes e inveja entre os membros da Igreja, segundo fontes consultadas pela BBC.

No entanto, em 2020, a historiadora italiana Alexandra Von Teuffenbach publicou o primeiro de seus dois livros sobre Schoenstatt e seu fundador, no qual afirmou que o padre abusou sexualmente de uma integrante do movimento de Schoenstatt no Chile em 1947, com base em informações contidas nos diários de um dos pesquisadores enviados pelo Vaticano na década de 1950 para investigá-lo e ao seu movimento, bem como em arquivos do pontificado de Pio XII (1939-1958).

Essa investigação parece ter contribuído significativamente para a interrupção do processo de beatificação do padre alemão, iniciado em 1975, deixando o movimento ao qual pertence o presidente eleito do Chile sem uma pessoa beatificada para rezar na capela da comuna de Buin, onde se forjou a fé demonstrada por José Antonio Kast.

Leia mais