Será que a “sabedoria chinesa” pode consertar o mundo? Artigo de Xulio Ríos

Foto: Christian Lue/Unsplash

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30 Dezembro 2025

A China pretende exibir seu capital cultural e histórico para convencer outros países de que pode contribuir com ideias mais eficazes. Alguns países ocidentais temem que isso erode os padrões democráticos.

O artigo é de Xulio Ríos, diretor do Observatório de Política Chinesa, publicado por Ctxt, 18-02-2025.

Eis o artigo.

Num contexto de crescente competição estratégica e tensões globais resultantes da ruptura dos equilíbrios tradicionais e das ansiedades hegemônicas, a China tem gradualmente acrescentado ao seu desenvolvimento de novas associações internacionais (OCX, BRICS, etc.) um catálogo de propostas para responder à mudança da ordem global. E tem conquistado tanto apoiadores quanto críticos.

De um modo geral, ideologicamente, Xi Jinping transformou o pensamento clássico chinês em uma poderosa ferramenta para salvaguardar a estabilidade política interna. O que ele chama de "segunda combinação" evoca a primeira, a do marxismo com a realidade chinesa, defendida por Mao, mas, diferentemente desta última, que se concentra fortemente na gestão da política interna, a combinação clássica, firmemente denunciada por Mao, também oferece uma dimensão externa de longo alcance.

Quando o PCC fala em “soluções chinesas” para a governança internacional em sentido amplo, transcende as fórmulas mais tradicionais relacionadas à defesa da coexistência pacífica, um tema comum durante a Guerra Fria. Sem contradizer isso, quando Xi Jinping apela à “sabedoria chinesa” no âmbito das “soluções chinesas” para a gestão de problemas globais, ele se refere à projeção de um capital cultural e histórico que legitima a ideia de que a China pode contribuir para o mundo com princípios diferentes dos ocidentais e mais eficazes do que eles.

Assim, a “sabedoria chinesa” é o fundamento cultural e filosófico que permitiria “soluções alternativas” para os problemas do mundo. É uma mistura de tradição — essencialmente confucionista, embora não exclusivamente — pragmatismo político e o sucesso do modelo de desenvolvimento chinês, apresentado como um catálogo de ideias em contraste com as do Ocidente.

Essa abordagem se baseia na longa tradição civilizatória da China (Confúcio, Mencius, Laozi, Han Fei, etc.), com valores como harmonia, ordem, equilíbrio e moralidade na governança. Ela contrasta implicitamente com o pensamento ocidental associado ao confronto, à competição e aos jogos de soma zero. A ideia central é: "A China, como uma civilização milenar, possui uma sabedoria única que pode ajudar a resolver os problemas globais contemporâneos."

No discurso de Xi, a sabedoria chinesa é resumida em três premissas principais. Primeiro, a soberania e a não interferência como a chave para a paz internacional. Segundo, o desenvolvimento como um direito universal (a prioridade não é a democracia liberal, mas sim a erradicação da pobreza). Terceiro, a governança pragmática: testar políticas graduais e experimentais em vez de impor um modelo único, e a " eficiência ".

Essa invocação da sabedoria chinesa sugere uma fonte de legitimidade moral para a China liderar, ou pelo menos orientar, debates em fóruns globais. Relaciona-se a expressões como “construir uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade”, que atualmente é o principal slogan da política externa de Xi Jinping. E busca transmitir que a China não possui apenas poder econômico, científico e militar, mas também autoridade intelectual e cultural.

Soluções chinesas para a governança global no século XXI

De fato, quando Xi Jinping fala de “soluções chinesas” para problemas globais, ele está se referindo a uma narrativa político-estratégica que busca projetar a China não apenas como uma grande potência econômica, mas também como um ator normativo e ideológico na governança internacional.

Em termos gerais, o objetivo é oferecer alternativas ao modelo ocidental. Em contraste com as políticas liberais promovidas pelos Estados Unidos e pela Europa, a China se apresenta como um país capaz de fornecer um caminho alternativo para a modernização, baseado no planejamento estatal, na soberania nacional, no respeito às diferenças culturais e em uma forte ênfase no desenvolvimento econômico como motor da estabilidade política. Mais uma vez, a mensagem é: “Não existe um único caminho válido; a China tem o seu, e ele pode ser útil para outros países”.

Até o momento, foram delineados quatro pilares fundamentais para essas “soluções”, levando em consideração diversas variáveis-chave. Primeiro, segurança: por meio da Iniciativa de Segurança Global (GSI), propõe-se a resolução de conflitos através do diálogo e a rejeição de “mentalidades da Guerra Fria”. Segundo, desenvolvimento: com a Iniciativa de Desenvolvimento Global (GDI), enfatiza-se a Agenda 2030 da ONU e a redução da divisão Norte-Sul. Terceiro, diversidade: com a Iniciativa de Civilização Global (GCI), defende-se o respeito ao pluralismo cultural e político, em oposição à universalização de valores liberais. Quarto, governança: a Iniciativa de Governança Global (GGI), para mitigar turbulências durante essa transição para uma nova ordem global.

Esta proposta mais recente, apresentada na cúpula da Organização de Comércio de Xangai (OCX) em Tianjin, é concebida como uma forma de corrigir o que considera três deficiências fundamentais das instituições internacionais: a grave sub-representação do Sul Global, a crescente erosão da autoridade da ONU e a necessidade urgente de maior eficácia. Formalmente, a proposta chinesa inclui igualdade soberana, respeito ao direito internacional sem dois pesos e duas medidas e multilateralismo.

Pequim associa as “soluções chinesas” a uma ordem mundial multipolar mais equilibrada, onde os países em desenvolvimento tenham maior representatividade. Busca fortalecer alianças no Sul Global, especialmente na África, América Latina e Ásia, apresentando-se como parceira e não como potência colonial. Essa resposta, que define como de alcance histórico, visa pôr fim a séculos de dominação externa e afirmar a soberania — a pedra angular dessa nova ordem global.

Internamente, essas propostas reforçam a ideia de que o “modelo chinês” é bem-sucedido e que, apesar das diferenças culturais, seus princípios e experiências podem ser considerados globalmente. Externamente, buscam desafiar o fundamento normativo da liderança ocidental e posicionar a China como garantidora de estabilidade em tempos de crise (mudanças climáticas, desenvolvimento, segurança), capaz não apenas de criticar, mas também de propor alternativas que apontem para uma direção diferente. Além disso, enfatizam sua categorização como “bens públicos globais”, distante de qualquer pretensão imperativa.

Essas propostas, portanto, sugerem uma ênfase na própria contribuição da China para o sistema internacional e são o inverso complementar de sua transição interna; mas também representam uma resposta àqueles que argumentam, como um obstáculo ou impedimento, a diversidade e a heterogeneidade do magma alternativo que ela tenta construir em torno do Sul Global, oferecendo um discurso comum que opera como uma força coesiva.

O eco internacional

A recepção internacional da ideia de “soluções chinesas” e “sabedoria chinesa” é desigual e depende muito do tipo de país e do seu nível de envolvimento com a China. Sem dúvida, no Sul Global e nos países em desenvolvimento como um todo, o discurso é geralmente recebido positivamente: muitos governos consideram atraente o fato de a China se apresentar como um ator que não condiciona a ajuda ou o investimento a reformas políticas. Essa narrativa é interpretada como respeito à soberania e uma alternativa às prescrições do FMI ou ao intervencionismo ocidental. No entanto, também existe alguma cautela em relação à assimetria: há receios de que “a solução chinesa” possa se transformar em dependência financeira ou tecnológica.

Nos países do Sudeste Asiático, que são culturalmente mais próximos, a reação é mista e complexa: por um lado, observam com certo interesse os elementos práticos (infraestrutura, comércio, cooperação); no entanto, devido às disputas no Mar da China Meridional ou mesmo em Taiwan, alguns reagem com desconfiança, argumentando sobre a discrepância entre a retórica da harmonia e a prática da pressão geopolítica.

Por outro lado, o Japão, a Coreia do Sul e a Austrália são extremamente críticos e alinham seu discurso ao dos Estados Unidos. Washington vê a abordagem chinesa como parte de uma competição estratégica, classificando-a como soft power com intenções hegemônicas e uma tentativa de reescrever as regras da governança internacional de forma autoritária. O termo “sabedoria chinesa” é percebido mais como propaganda do que como uma alternativa real.

Por sua vez, a Europa pode ser descrita como bastante cética ou mesmo crítica. Dentro da UE, é frequentemente vista como uma tentativa de desafiar o quadro normativo e diluir a universalidade dos valores democráticos e dos direitos humanos. Apesar disso, alguns países (Hungria, Sérvia, etc.) demonstram simpatia pragmática, especialmente em questões econômicas. Nas instituições da UE, a narrativa da “sabedoria chinesa” gera suspeitas por ser percebida como um desafio ideológico.

Por fim, nas instituições internacionais, as Nações Unidas e outras agências multilaterais geralmente acolheram termos como “Iniciativa Global de Desenvolvimento” e “Comunidade de Futuro Compartilhado”, em parte porque a China os incorporou à linguagem do multilateralismo e à agenda global. No entanto, diversas capitais ocidentais alertam para o risco de que a “sabedoria chinesa” possa se tornar um substituto semântico que erode os padrões estabelecidos em direitos humanos, democracia e transparência.

Não devemos ignorar o fato de que uma preocupação fundamental com essas iniciativas é que elas não se tornem mera retórica, mas sim se traduzam em ações concretas. Nesse sentido, a China pode demonstrar uma gama completa de novos instrumentos que nada mais são do que laboratórios pedagógicos para seus compromissos, suavizando arestas e contradições para que possam funcionar como verdadeiras alavancas estratégicas.

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