24 Setembro 2025
"Embora Donald Trump acelere o declínio estadunidense, ele não é a causa, mas antes sintoma, de uma sociedade adoecida e cindida por ódios e rancores intestinos, como as irrupções de fúria e a escalada da violência política ilustram".
O artigo é de Eduardo Giannetti, economista, escritor, membro da Academia Brasileira de Letras e autor de "Imortalidades" (Companhia das Letras), publicado por Folha de S.Paulo, 21-09-2025
Eis o artigo.
Embora coetânea da cultura ianque, a expressão "sonho americano" demorou a nascer. Foi só em 1931 — no início da Grande Depressão — que ela ingressou no mundo letrado pelas mãos do historiador James Truslow Adams no epílogo do livro "O Épico da América".
Grande Giannetti. Para mim está dizendo óbvio, mas o óbvio precisa ser repetido várias vezes, quanto mais hoje, quanto mais dessa maneira excelente, cristalina, lúcida. pic.twitter.com/NyYX5ClNP2
— Christian Lynch (@CECLynch) September 13, 2025
Ao cunhar a expressão, Adams definiu-a como "o sonho de uma ordem social na qual cada homem e cada mulher estejam aptos a alcançar a mais plena estatura da qual são congenitamente capazes, e de serem reconhecidos pelos demais por aquilo que são, independentemente das circunstâncias fortuitas de berço ou posição social". Nos Estados Unidos, emendou, este sonho "tem se realizado de forma mais plena do que em qualquer outro lugar, embora muito imperfeitamente mesmo entre nós".
Palavras edificantes, porém ocas. A omissão de Adams ao elencar o que via como entraves à plena realização do "sonho americano" é gritante.
Pois ele critica o sistema educacional, a disparidade de renda, a idolatria do dinheiro, mas é absolutamente omisso diante da mais grave injustiça da sociedade em que vivia: o apartheid racial que condenava 12 milhões de negros e mestiços (10% da população) a uma existência oprimida e humilhada pela segregação formal e informal.
Diante do silêncio do pai de batismo do "sonho americano", não há como evitar a suspeita de um sinistro subtexto racialista — embutido na expressão "congenitamente capazes" — atrelado à noção que ele consagrou.
Quase um século depois, como anda o "sonho americano"? Começo por alguns fatos, antes de sugerir um esboço de interpretação:
1 - Para um jovem do sexo masculino de 18 anos, a probabilidade de morrer antes de chegar aos 50 é hoje maior nos EUA do que em Bangladesh. A causa são as "mortes por desespero", provocadas por opioides, alcoolismo, abuso de drogas e suicídio (os opioides matam mais que os crimes violentos no Brasil);
2 - O número de presos nos EUA cresceu 700% desde 1970, atingindo cerca de 2 milhões de pessoas; nenhum outro país tem uma parcela maior da população encarcerada (a taxa é quatro vezes maior que na União Europeia). A chance de um afrodescendente ser preso nos EUA é seis vezes maior que a de um branco;
3 - O "transtorno do déficit de atenção" afeta cerca de 15% dos meninos americanos entre 3 e 17 anos, ao passo que na UE a cifra é um terço menor. O consumo per capita de antidepressivos e de ansiolíticos nos EUA é o dobro do verificado na União Europeia;
4 - Um cidadão americano com a renda mediana (US$ 83,7 mil/ano) pertence à elite dos 5% mais ricos do planeta; aos seus próprios olhos, porém, e aos olhos da sociedade onde vive, ele não passa de um "loser" fracassado na corrida por status e "sucesso". Estima-se que um americano comum seja bombardeado por cerca de 3 mil mensagens publicitárias por dia;
5 - Os 400 americanos mais ricos possuem um patrimônio líquido (US$ 16,5 bilhões em ativos per capita) maior que toda a riqueza detida pelas 150 milhões de pessoas que estão entre os 60% mais pobres (US$ 21 mil per capita).
As peças se coadunam. Postiço na origem, o "sonho americano" dá sinais de falência múltipla.
Embora Donald Trump acelere o declínio estadunidense, ele não é a causa, mas antes sintoma, de uma sociedade adoecida e cindida por ódios e rancores intestinos, como as irrupções de fúria e a escalada da violência política ilustram.
O tecnoconsumismo americano promoveu uma aceleração do trabalho e do afã por riqueza como jamais o mundo conheceu. E tudo em nome do quê?
Tudo em nome de um mundo em que as pessoas esperam cada vez mais dos seus gadgets e pílulas miraculosas, mas cada vez menos umas das outras em suas relações pessoais e afetivas. Em que a ansiedade financeira, conjugada ao temor de colapso ambiental, só faz crescer.
E o Brasil com isso? Será desvairadamente utópico imaginar que temos tudo para não capitularmos à opressiva industriosidade ianque geradora de objetos demais, alegria de menos?
Que o Brasil, embora modesto nos meios, mantém viva sua aptidão para a arte da vida? Que podemos ousar modelos de economia e de convivência mais humanos e adequados ao que somos e sonhamos?
Leia mais
- Núcleo ‘familiar astrológico’ do governo Bolsonaro pode prejudicar economia, diz Eduardo Giannetti
- 'Reputação do liberalismo no Brasil pode ser arruinada'. Entrevista com Eduardo Giannetti
- “O ritmo de retomada desaponta, mas não sei onde estaríamos com Dilma”. Entrevista com Eduardo Giannetti
- EUA e Trump. 'O sonho americano acabou. Dali, não vem mais nenhuma veleidade civilizatória, nem como farsa'
- Burnout: do sonho americano para a realidade da exaustão
- O sonho americano criou “descartados”. O mérito às vezes mata
- Protestos antirracistas e o desmonte do sonho americano
- O sonho americano morreu. Se você nasce pobre, continuará pobre
- Pesquisa nos EUA relaciona automação ao aumento da mortalidade por suicídios e overdoses de drogas
- Overdoses matam 1 americano a cada 7 minutos, em geral com opioides
- Voracidade dos lucros e a “epidemia dos opioides” nas Américas
- O terremoto de Trump abala as instituições da ordem mundial e da “globalização feliz”
- “Não há resistência intelectual real ao governo Trump”. Entrevista com James K. Galbraith
- “Para superimperialismo americano precisa existir soberania esvaziada da periferia”. Entrevista com Plínio de Arruda Sampaio Jr.