21 Mai 2025
Pela primeira vez, desde a invenção dos tipos móveis, a prática do jornalismo tornou-se “difícil” em escala global. Em 160 países dos 180 analisados pelo Índice Mundial de Liberdade de Imprensa da organização Repórteres Sem Fronteira (RSF) a mídia não consegue alcançar estabilidade financeira. “A mídia hoje está presa entre a garantia de sua independência e sua sobrevivência econômica”, conclui o documento.
A reportagem é de Edelberto Behs.
O enfraquecimento econômico da mídia e abusos físicos contra jornalistas são duas das principais ameaças à liberdade de imprensa. A concentração de propriedade, pressão de anunciantes ou financiadores, restrição de ajudas públicas, veículos “chapa branca” (atrelados ao poder) empobrecem o exercício profissional ético e isento. O documento indica que 34 países tiveram meios de comunicação de massa fechados no ano passado, o que levou ao exílio de jornalistas, como foi o caso da Nicarágua na região das Américas, onde as pressões econômicas se somam às pressões políticas.
Até mesmo nos Estados Unidos, vastas regiões estão se transformando em desertos de informação. O jornalismo local, informa o documento da RSF, está pagando um preço alto pela recessão econômica. O segundo mandato do presidente Donald Trump amplifica o problema, “com a exploração de motivos econômicos falaciosos como forma de colocar a imprensa sob controle”, como a interrupção de financiamentos de diversas redações da Agência dos Estados Unidos para a Mídia Global, incluindo aí a Voz da América e a Rádio Europa Livre.
Afora isso, as empresas de comunicação e comunicadores enfrentam o domínio das plataformas virtuais, como a Gafam (Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft), na distribuição de informações. O gasto total com publicidade em plataformas sociais, informa a RSF, atingiu 247,3 bilhões de dólares (em torno de 1,4 trilhão de reais) em 2024, um aumento de 14% comparado ao ano de 2023.
Esse panorama fica expresso num quadro em que as condições para o exercício do jornalismo se tornam difíceis e complicados “ou mesmo muito graves em metade dos países do mundo e satisfatórias em menos de um em cada quatro países”, como é a situação de 22 dos 28 países das Américas, que registram declínio em seus indicadores econômico. Até mesmo na Europa, a situação deteriora-se em Portugal, na Croácia e no Kosovo.
No levantamento do Índice Mundial, a Noruega é o único país a ter uma boa situação em todos os cinco indicadores do ranking, aparecendo em primeiro lugar pelo nono ano consecutivo na listagem da RSF, seguido, em 2025, pela Estônia, Holanda e Suécia. Depois do governo Bolsonaro, o Brasil subiu no ranking alcançando, agora, a 63ª posição.
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