Conhecimento é direito: por que precisamos modernizar a Lei de Direitos Autorais no Brasil. Artigo de Chico Venâncio

Foto: Umberto | Unsplash

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

17 Março 2025

"Se o Brasil deseja acompanhar a revolução digital e estar alinhado com o futuro da governança da internet, precisamos de uma LDA que reflita essa nova realidade."

O artigo é de Chico Venâncio, vice-presidente da Wikimedia Brasil, publicado por Brasil de Fato, 16-03-2025.

Eis o artigo.

Nossa legislação sobre o tema reflete uma era pré-digital, criando barreiras desnecessárias ao acesso à informação

O conhecimento é um direito fundamental. Em uma sociedade cada vez mais conectada, a circulação livre da informação não deve ser vista como uma ameaça, mas como um motor para o desenvolvimento social, científico e cultural. No entanto, no Brasil, nossa legislação de direitos autorais ainda reflete uma era pré-digital, criando barreiras desnecessárias ao acesso ao conhecimento.

A Lei de Direitos Autorais (LDA), criada em 1998, não acompanhou as transformações impostas pela internet e pela digitalização dos bens culturais. Hoje, o Brasil está entre os países mais restritivos do mundo no que diz respeito ao acesso ao conhecimento e à cultura. Enquanto muitas nações já avançam para modelos mais equilibrados, nossa legislação continua a privilegiar o bloqueio da informação em detrimento da democratização do saber.

O Brasil precisa de uma reforma da LDA para que possamos garantir a proteção dos direitos dos criadores sem comprometer o direito da sociedade de acessar conhecimento e cultura. Esse equilíbrio é essencial para que possamos nos alinhar às diretrizes internacionais, como as do Pacto Digital Global da Organização das Nações Unidas (ONU), que defende uma internet mais aberta, acessível e inclusiva. Foi por isso que nós, na Wikimedia Brasil, nos juntamos a outras organizações da Coalizão Direitos na Rede (CDR), para lançar a campanha “Conhecimento é Direito”, cujo manifesto está sendo assinado por organizações do setor.

A reforma da LDA é urgente

Hoje, a LDA brasileira não só limita a circulação do conhecimento, mas também impede que bens financiados com recursos públicos sejam amplamente compartilhados. Projetos culturais custeados por leis de incentivo, pesquisas acadêmicas produzidas em universidades públicas e conteúdos educacionais financiados pelo Estado ainda não possuem mecanismos claros que garantam seu acesso irrestrito à sociedade.

Isso significa que um estudante pode ter dificuldades para acessar materiais essenciais para sua formação, que pesquisadores encontram barreiras para compartilhar seus achados e que obras artísticas e científicas muitas vezes permanecem restritas a círculos fechados.

A solução passa por modernizar a LDA, garantindo exceções e limitações para fins educacionais, científicos e informativos. Além disso, é fundamental ampliar o uso de licenças livres e do domínio público para que produções custeadas com dinheiro público sejam acessíveis a todos.

O que está em jogo?

A falta de acesso ao conhecimento não é um problema isolado – ela impacta diretamente o desenvolvimento do Brasil. Países que promovem a livre circulação da informação colhem os frutos dessa política em termos de inovação, educação e crescimento econômico.

Se o Brasil deseja acompanhar a revolução digital e estar alinhado com o futuro da governança da internet, precisamos de uma LDA que reflita essa nova realidade. A reforma da lei não significa abrir mão dos direitos dos criadores – pelo contrário, trata-se de garantir que suas obras possam ser mais amplamente difundidas e aproveitadas, gerando impacto positivo para toda a sociedade.

O debate está posto. O conhecimento é um direito e deve ser tratado como tal. O Brasil não pode mais adiar essa discussão.

Leia mais