Coreia do Sul: igrejas divididas pela política

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07 Março 2025

Milhares de apoiadores do presidente Yoon Suk-yeol, detido e sob investigação por declarar ilegalmente lei marcial, se reúnem sob a estátua do almirante Yi Sun-sin na Praça Gwanghwamun para exigir sua libertação em Seul, Coreia do Sul, em 25-01-2025.

A reportagem é de Celio Fioretti, publicada por La Croix, e reproduzida por Settimana News, 27-02-2025.

“Devemos defender o presidente Yoon Suk-yeol dos comunistas, é a vontade de Deus”, exclama o pastor no palco. “Amém”, responde a multidão.

Na Coreia do Sul, religião e política estão interligadas durante manifestações em apoio ao presidente Yoon Suk-yeol, suspenso do cargo após tentar impor lei marcial em 03-12-2024. O país, que é quase 30% cristão, está vendo muitas igrejas marcharem na vanguarda de vários movimentos sociais.

A Igreja Presbiteriana

No entanto, durante as manifestações em apoio ao presidente que foi afastado do cargo pelo Parlamento, alguns discursos religiosos se radicalizaram. Liderando esse movimento está o pastor Jeon Kwang-hoon, de 68 anos, representante da Igreja Presbiteriana Sarang Jeil. Este pastor de extrema direita, como a mídia local o descreve, é um fervoroso anticomunista que não hesita em recorrer aos discursos mais violentos contra a oposição do presidente.

Denunciando um sistema judiciário e alguns partidos políticos corrompidos pelas "forças do mal", o pastor é alvo de uma investigação policial por ter incitado uma revolta em frente a um tribunal.

Jeon é a figura mais influente em uma galáxia de igrejas presbiterianas muito conservadoras e sedentas por poder. “Historicamente, as igrejas protestantes de inspiração americana na Coreia têm sido bastante conservadoras, mas algumas se tornaram extremamente radicalizadas”, diz Ba Deok-man, pesquisador de história da igreja no Instituto Nehemiah de Estudos Cristãos. Quando a Coreia era governada por regimes militares, os mais anticomunistas se aproximavam do regime, apoiando uns aos outros, algo que continua até hoje dentro da direita.

As igrejas presbiterianas radicais, presentes em todas as manifestações da direita coreana, têm uma influência importante, mas não representam a linha oficial das igrejas protestantes no país.

O Conselho Nacional de Igrejas da Coreia reúne as congregações protestantes do país, com exceção das mais radicais, que não são membros. Para pedir calma nestes tempos difíceis, a organização quis reiterar seu apego aos valores democráticos, distanciando-se de tendências extremistas.

“Não podemos tolerar as ações antidemocráticas do presidente Yoon Suk-yeol (…), faremos tudo ao nosso alcance para restaurar a democracia”, escreveu o pastor Kim Jeong-saeng, secretário-geral do Conselho Nacional de Igrejas da Coreia.

E a Igreja Católica?

Por sua vez, a Igreja Católica está menos dividida sobre a crise política. “Os católicos coreanos têm uma tradição de ativismo pró-democracia que remonta aos dias dos regimes militares, quando o clero estava na vanguarda dos protestos pró-democracia”, diz Bae Deok-man. O golpe militar do presidente Yoon é rejeitado pelos católicos que mantêm essa tradição.

Hoje, porém, o papel da Igreja na política está sendo questionado. Embora a Igreja Católica coreana tenha dado carta branca aos padres para participarem das manifestações, uma parte do clero quer se afastar da situação e deixar as instituições fazerem seu trabalho. "É hora de abandonar o conflito entre facções (...), a Igreja Católica espera que o Tribunal Constitucional estabilize a situação o mais rápido possível", escreve dom Lee Yong-hoon, bispo de Suwon, presidente da Conferência Episcopal Coreana.

A retirada do clero da linha de frente é uma escolha compreensível, segundo o Pe. Christophe Bérard, das Missões Estrangeiras de Paris (MEP), em Seul: "Agora que a Coreia é uma democracia, é importante dar espaço aos leigos, enquanto os padres se concentram no compromisso espiritual e fraterno dos envolvidos na vida política e social, de modo a manter uma Igreja aberta a todos".

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