Código aberto e inteligência artificial. Artigo de Manuel Castells

Fonte: Pexels

Mais Lidos

  • Jesuíta da comunidade da Terra Santa testemunha o significado da celebração da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo em uma região que se tornou símbolo contemporâneo da barbárie e do esquecimento humano

    “Toda guerra militar é uma guerra contra Deus”. Entrevista especial com David Neuhaus

    LER MAIS
  • Cemaden alerta para risco de “desastre térmico” no Brasil com El Niño

    LER MAIS
  • A ressurreição no meio da uma Sexta-feira Santa prolongada. Artigo de Leonardo Boff

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

13 Fevereiro 2025

“Conforme a indústria foi se tornando um oligopólio, o código aberto foi sendo limitado, com o consequente prejuízo à inovação por meio da cooperação”, constata Manuel Castells, sociólogo espanhol, em artigo publicado por La Vanguardia, 08-02-2025. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

A prática do código aberto é a fundação da revolução em tecnologias da informação ao longo de sua história. Quer dizer que o código-fonte que define um programa é publicado de tal forma que pode ser usado por qualquer usuário para melhorar o programa sem pagar direitos. Foi assim com os protocolos TCP/IP sobre os quais a internet funciona, desenvolvidos por Cerf e Kahn, em 1975-1977. Foi assim também com a world wide web, que Tim Berners-Lee criou e disseminou pela internet, em 1990.

No entanto, conforme a indústria foi se tornando um oligopólio, o código aberto foi sendo limitado, com o consequente prejuízo à inovação por meio da cooperação. Da mesma forma, a OpenAI ocultou a maioria de sua programação e dos resultados do treinamento em bases de dados sobre os quais a inteligência artificial é fundada. O secretismo aumentou quando a geopolítica impôs uma reserva ainda maior às empresas estadunidenses.

Há cinco anos, quando tive uma longa conversa com Ren Zhengfei, o fundador da Huawei, disse-me que se os Estados Unidos continuassem proibindo a venda de chips, os chineses fabricariam seus próprios chips (o que foi feito pela Huawei e a Alibaba) e encontrariam novas formas de combinar chips mais poderosos. É o que aconteceu com a irrupção da DeepSeek, a empresa chinesa que lançou seu chat R1 no mesmo dia da posse de Trump, comparável ou superior ao ChatGPT, Gemini e LLaMA 1, desenvolvido com um orçamento de seis milhões de dólares. A Nvidia, empresa da Califórnia que produz os chips mais avançados, perdeu 589 bilhões em seu valor de mercado.

A DeepSeek surgiu em 2023 a partir do fundo financeiro High-Flyer, formado em 2015 por Liang Wenfeng, um engenheiro de 30 anos formado na Universidade de Zhejiang, em Hangzhou. Com um grupo de jovens, criaram um programa de IA para investimentos na bolsa e arrecadaram 7 bilhões de dólares. Com isto, antes que as exportações fossem encerradas, compraram chips da Nvidia, de nível médio, e desenvolveram um LLM (modelo de linguagem de grande escala) que treinaram em vários ciclos, com suas bases de dados, sem adicionar dados novos, algo crucial para baratear o desenvolvimento do modelo. Para torná-lo confiável e que fosse difundido, publicaram o modelo com código aberto e o acompanharam com documentos técnicos explicativos. Divulgado desta forma, o aplicativo foi o mais baixado do iPhone no mundo. Como tal inovação foi possível?

Estou associado àquela universidade e passei algum tempo lá no verão passado. Não conheci Wenfeng, mas, sim, alguns jovens engenheiros de seu círculo. Disseram-me que, como não tinham acesso a chips avançados, compensavam o fato com novos métodos de desenvolvimento. E que divulgariam os seus resultados porque o objetivo era criar modelos que fossem mais eficientes em custos financeiros e em economia de energia, em benefício do mundo e deles próprios.

As suspeitas de que copiaram modelos pré-existentes não parecem bem fundadas, na avaliação da maioria dos especialistas. De fato, sugerem uma arrogância racial, como se os chineses fossem menos capazes, quando um terço das pessoas no Vale do Silício são chineses. É verdade que há vieses ideológicos em algumas das respostas do DeepSeek, porque dependem de bases de dados chinesas, mas não acredito que os usuários do mundo estejam preocupados em perguntar sobre Tiananmen.

A verdade é que a China, partindo agora de universidades e não apenas de empresas, também está inovando em inteligência artificial, aproximando-se dos Estados Unidos. Aprendamos a lição na Europa. Vamos apoiar nossas universidades, que não são piores que as chinesas. Mas temos que acreditar nisto.

Leia mais