Aqueles refugiados que amamos apenas nas pinturas. Artigo de Tomaso Montanari

Foto: Wikimedia Commons

Mais Lidos

  • Contra a guerra injusta e injustificada com o Irã. Editorial da revista jesuíta America

    LER MAIS
  • RS registra 80 feminicídios em 2025; maioria das vítimas foi morta dentro de casa

    LER MAIS
  • Os resultados da guerra com o Irã "podem ser piores" do que os do Iraque, afirma Mary Ellen O'Connell, professora da Faculdade de Direito de Notre Dame - EUA

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

07 Janeiro 2025

"E esse talvez seja o caso mais extremo do novo sentido da paisagem, entendida como o ambiente da ação humana, que emergiu da revolução naturalista. Mas diante desse quadro sem graça, todo tecido com verdade, como podemos nos esconder? 'O que abominam vivo, amam pintado': esse verso deslumbrante de Salvator Rosa fulmina a nossa monstruosa hipocrisia. Ficamos comovidos diante de JesusJosé e Maria migrantes, refugiados se os vemos pintados. Mas nos recusamos a ver que os migrantes e refugiados reais e vivos de hoje são exatamente pobres cristos. Jesus e seus pais são ótimos pintados, mas reais e vivos?", escreve o historiador da arte Tomaso Montanari, professor da Universidade Federico II de Nápoles, em artigo publicado por Il Venerdì, 27-12-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Aproximadamente vinte e cinco anos depois de Caravaggio, o tema da fuga para o Egito (um dos temas que garantiam aos artistas a maior liberdade em termos de representação da natureza) foi abordado por Orazio Gentileschi, um dos maiores seguidores do mestre lombardo. O resultado foi uma pintura memorável, que o artista replicou com variações pelo menos cinco vezes, mas talvez nunca tenha alcançado a força desta versão.

Foto: Wikimedia Commons

José, vencido pelo cansaço, está deitado sobre sua bagagem, afundado em um sono sem graça ou decoro. A Virgem Maria, também deitada no chão - totalmente fora do costume -, está amamentando um Jesus já maiorzinho, que, todo nu, olha fixamente para a câmara, em nossa direção: como se tivesse nos flagrado perturbando sua intimidade familiar. E há também o muro: o verdadeiro protagonista da pintura. Um muro derrocado, perdendo o reboco: uma ruína sem nenhuma nobreza, certamente não uma ruína clássica. Um muro no qual toda a paisagem se resolve, pois apenas a cabeça lanosa do jumento da casa e um belíssimo céu cheio de nuvens fofas sugerem que o mundo não termina ali. E esse talvez seja o caso mais extremo do novo sentido da paisagem, entendida como o ambiente da ação humana, que emergiu da revolução naturalista. Mas diante desse quadro sem graça, todo tecido com verdade, como podemos nos esconder? “O que abominam vivo, amam pintado": esse verso deslumbrante de Salvator Rosa fulmina a nossa monstruosa hipocrisia. Ficamos comovidos diante de Jesus, José e Maria migrantes, refugiados se os vemos pintados. Mas nos recusamos a ver que os migrantes e refugiados reais e vivos de hoje são exatamente pobres cristos. Jesus e seus pais são ótimos pintados, mas reais e vivos?

Se tivéssemos sentido o cheiro dos corpos cansados da Sagrada Família, o que teríamos dito? Se tivéssemos visto sua pele azeitonada e seus traços médio-orientais, se tivéssemos ouvido seu incompreensível aramaico?

Quem sabe, se em vez do presépio, com a manjedoura do nascimento, os cristãos tivessem montado pequenas mise-en-scènes da fuga para o Egito em suas casas, talvez as coisas fossem diferentes hoje.

Talvez os políticos que amaldiçoam refugiados e migrantes se contorcendo em rosários e montando presépios por toda parte tivessem tido um pouco mais de dificuldade para serem votados. Ou talvez não, porque aquele muro em torno do qual Orazio constrói seu admirável quadro está marcado nas nossas cabeças e no nosso coração. Mesmo no Natal, com certeza.

Leia mais