Agrossuicídio: desmatamento no Cerrado pode inviabilizar agronegócio

Foto: Marcio Francisco Martins | ClimaInfo

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10 Dezembro 2024

Nenhuma outra savana do mundo tem sido tão destruída quanto o Cerrado, e a devastação já altera as chuvas e as temperaturas, afetando as safras.

A informação é publicada por ClimaInfo, 10-12-2024.

A bancada ruralista do Congresso é a mais raivosa contra a legislação ambiental. Governos de estados com grande produção agropecuária também costumam fazer vista grossa para crimes ambientais de parte do agronegócio. Que, por sua vez, articula-se em lobbies poderosos para “passar a boiada” e conseguir autorização para destruir ainda mais a vegetação nativa.

Entretanto, a “lei do retorno climático” não poupa ninguém, nem mesmo os poderosos do campo, mostra um estudo da UFMG e do Woodwell Climate Research Center publicado na Nature Sustainability. A pesquisa indica que, no Cerrado, com a redução da cobertura vegetal nativa do bioma, quebras de safra estão se tornando constantes e podem piorar. “É agrossuicídio”, adverte o professor da UFMG Argemiro Teixeira Leite-Filho, um dos autores do estudo.

Os pesquisadores analisaram os efeitos das mudanças climáticas induzidas pelo desmatamento na prática de cultivo duplo de soja e milho no Cerrado. Com a tabulação de dados históricos e imagens de satélites, os cientistas contaram com a ajuda da inteligência artificial para excluir da métrica todas as causas que não fossem a destruição da vegetação. Ou seja, o impacto de fenômenos como El Niño e La Niña foi desconsiderado.

A conclusão é que o desmate está intensificando as mudanças climáticas no bioma, informam IstoÉ, IstoÉ Dinheiro, Dinheiro Rural e Revista Fórum. Desde a década de 1980 houve, em média, um atraso de 36 dias no início da estação chuvosa agrícola; uma redução de 36,7% no total de chuvas durante o período; e um aumento de 1,5°C na temperatura do bioma.

Dos 8,1 milhões de hectares de cultivo duplo de soja e milho no bioma, 99% enfrentaram atrasos na estação chuvosa agrícola e 61% sofreram redução nas chuvas. Essas mudanças contribuíram para falhas nas colheitas desses grãos, falhas que se tornam mais frequentes e severas. Assim, os cientistas apontam que para sustentar a produtividade agrícola no Cerrado é crucial conservar e restaurar sua vegetação nativa.

Nenhuma outra savana do mundo tem sido tão destruída quanto o Cerrado. Nos últimos 20 anos, o bioma teve sua cobertura vegetal nativa reduzida de 127 milhões de hectares para 95 milhões de hectares, ao mesmo tempo em que a região viu as áreas agrícolas dobrarem – de 38 milhões de hectares para 77 milhões de hectares.

Somente entre 2022 e 2023 o Cerrado perdeu 6 milhões de hectares de vegetação nativa, uma área equivalente ao estado da Paraíba, destaca ((o))eco. Além disso, foi o bioma brasileiro onde a soja mais avançou no ano passado, com 19,3 milhões de hectares, ou quase um estado do Paraná, relata o Poder 360.

“A relação causa-consequência é praticamente direta. Enquanto as mudanças climáticas são fruto de um efeito cumulativo de emissão de gases de efeito estufa ao longo dos anos, o clima regional e local é alterado instantaneamente quando se tira a vegetação. Passou o trator, retirou a vegetação, imediatamente estão sendo alteradas características físicas e (no caso do Cerrado) retirando essa bomba de umidade para a atmosfera”, explicou Leite-Filho.

O agro, porém, não vê isso. Mas já sente. E vai sentir ainda mais no bolso.

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