Uma igreja debaixo da cruz. Artigo de Ivano De Gasperis

Foto: Anadolu Agency

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27 Junho 2024

"Infelizmente, chegar a Gaza resulta impossível, mas com os outros cento e sessenta companheiros e companheiras de viagem, mesmo assim conseguimos levar a nossa mensagem e as nossas ajudas a quem mais sofre com a praga da guerra", escreve Ivano De Gasperis, em artigo publicado por Riforma, 27-06-2024.

Eis o artigo.

Há poucas horas, terminou mais uma manifestação pela paz, na qual um punhado de representantes das nossas igrejas tomou parte. Passeio com meu cachorro perto da igreja Batista de Milão-Pinamonte.

Outro cachorro se aproxima do meu para cheirá-lo. Ambos abanam o rabo. Eu aceno um sorriso para o tutor, que responde timidamente; parece querer seguir em frente, mas depois para e me diz com raiva: “Você está com o Hamas? Você sabe que aquela coisa no seu pescoço significa que você apoia o assassinato das crianças judias?".

Coloco a mão no pescoço e lembro que estou usando um velho keffiyeh. Apertando-o entre os dedos, digo: “Não, não estou com o Hamas. Estou com as crianças do nosso hospital em Gaza, com qualquer um, em Israel ou na Palestina, que é oprimido." O homem muda de tom, me conta que seu melhor amigo ainda está nas mãos dos sequestradores. Nós nos abraçamos e conversamos um pouco. Por acaso no dia seguinte nos encontrar novamente. Ele me apresenta sua esposa e sua filha. Na aparência parecem calmos, mas no fundo estão assustados. Seus corações estão cheios de dor, em breve partirão para Israel, convidando-me para ir para lá.

Prometo a eles que, se Deus quiser, eu o farei. Ir para a Terra Santa, mas como, quando e para fazer o quê? Essas perguntas encontraram um ouvido atento no presidente da União Batista e no grupo dos embaixadores e das embaixadoras da paz da Ucebi. A resposta surpreendentemente, veio da Diocese de Bolonha, que organizou uma peregrinação de paz à Terra Santa. Aqui está "o trem" que eu estava esperando! Alguns telefonemas, alguns e-mails e ao pedido de um evangelista batista que deseja entrar no grupo de peregrinos católicos, o cardeal Matteo Zuppi responde: “Muito bem!”.

E partimos!

Já líder de muitas missões com a Santo Egídio, agora presidente da CEI e arcebispo de Bolonha, Zuppi, incentiva toda a comitiva a realizar esta viagem com o espírito de quem vai “visitar um amigo que está doente".

Em poucos dias temos 25 reuniões, ouvimos muitas pessoas, dormimos muito pouco. Deslocamo-nos entre Israel e a Cisjordânia, mas mais do que visitar os locais da fé, os antigos edifícios feitos de pedra, encontramos "pedras vivas", testemunhas de fé, que nos falam da dor, da desorientação, da raiva, do medo.

A impotência e a derrota. As pessoas que encontramos, “pequenas” e “grandes”, são pedras que gritam!

Entre as impressões mais profundas, do momento, a da Sra. Rachel Goldberg-Polin: “Fazem com que nos sintamos como peões cuja dor é instrumentalizada por políticos inescrupulosos para alcançar seus objetivos." Essa mulher judia ainda aguarda o retorno de seu filho sequestrado, Hersh, a quem amputaram o braço esquerdo. Mulher de paz que se recusa a distinguir a sua dor daquela das outras mães palestinas cujos filhos foram arrancados e apela por uma virada para todos e para todas.

Não menos poderoso é o testemunho daqueles que reconhecem que a guerra não serve a ninguém e que, pelo contrário, piora as coisas para todos, exceto para políticos, negociantes e mercadores de armas. A violência da ocupação, do terrorismo e da guerra, está piorando a vida de todos.

Um arrepio congela nossos corações ao ouvir a voz engasgada de uma professora universitária judia que nos conta dos jovens universitários de Jerusalém envenenados pela retórica nacionalista. Algo me revira o estômago quando ouço falar de jovens pacifistas deprimidos, um dos quais tirou a própria vida.

Os próprios jovens que estão comigo choram, impotentes. A fé em Deus, nos homens e em nós mesmos, vacila. O que podemos fazer?

É um tempo sombrio. É o tempo da angústia do Getsêmani. É uma hora muito escura na qual estar debaixo da cruz não é inútil. Acolhemos impotentes os lamentos do crucifixo que de Gaza nos fala da sua dor pelo desespero dos pescadores pregados às suas pranchas de surf por terem sido privados dos próprios barcos. O prefeito de Belém, os líderes religiosos, os pastores do rebanho, o responsável da ONU pelos fornecimentos a Gaza, todos se descobrem impotentes.

Quem vem aqui não encontra paz e esperança, me diz um homem que me encontra perdido pelas ruas de Belém, mas traz paz e esperança.

Infelizmente, chegar a Gaza resulta impossível, mas com os outros cento e sessenta companheiros e companheiras de viagem, mesmo assim conseguimos levar a nossa mensagem e as nossas ajudas a quem mais sofre com a praga da guerra.

O telefonema de Dom Gabriel Romanelli de Gaza fala-nos do árduo empenho da Igreja, lugar de esperança e de refúgio sob as bombas, que reúne e apoia tantos jovens e crianças, na maioria muçulmanos. Recebemos o seu agradecimento, como o de todos os palestinos e os israelenses que encontramos, gratos pela nossa proximidade, por ter estado ali, por tê-los ouvido. "Não vamos esquecer”, nos disseram.

Nem mesmo nós poderemos esquecer o nosso Deus, os nossos irmãos e as nossas irmãs, as nossas mães e os nossos filhos debaixo da cruz. A missão não foi cumprida, no entanto, mas apenas começou.

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