Qual Igreja para o futuro? Artigo de Ettore Marangi

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17 Mai 2024

Mesmo que seja uma palavra que não agrade nos altos salões do magistério, será preciso recomeçar a falar de “eclesiogênese” (L. Boff), ou seja, serão os excluídos de todas as sociedades que realmente tentarão viver o evangelho junto com aquela parte do clero que quiser caminhar humildemente com elas.

A reflexão é do teólogo italiano e frei franciscano menor Ettore Marangi, professor do Tangaza University College, no Quênia, e missionário nas favelas de Nairóbi.

O comentário foi publicado na página do autor no Facebook, 12-05-2024. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Ao longo dos estudos, os estudantes italianos leem o livro “Os noivos”, que conta a anedota de quatro frangos que o jovem Renzo quis presentear ao advogado Azzeccagarbugli. Durante o caminho, os quatro frangos se bicam na esperança de se posicionarem melhor, sem saber que todos os quatro vão parar na panela.

Para mim, esses quatro frangos representam a Igreja contemporânea. Por exemplo, discute-se calorosamente sobre uma simples bênção para os casais homossexuais, enquanto não nos damos conta de que o cristianismo como religião institucionalizada, embora conservando um peso no nível do poder temporal, está se tornando completamente irrelevante justamente no nível espiritual.

Enquanto a Igreja estava ocupada rezando a Deus para que desse mais pastores para o rebanho, quase todas as ovelhas desapareceram do redil.

O evangelho, porém, continuará exercendo seu fascínio, porque o ser humano não pode viver sem amor. Então, como os discípulos de Jesus sobreviverão no futuro?

Para lhes falar da minha profecia, vou me servir da imagem da Igreja como “corpo de Cristo”, que tem sua origem no famoso apólogo do século V a.C., com o qual Menênio Agripa, comparando a sociedade romana a um corpo vivo, conseguia convencer os plebeus, que haviam se rebelado (os braços), a se deixarem explorar pelos patrícios (o estômago).

Paulo reutiliza essa imagem para falar da Igreja. Ele afirma que a comunidade cristã é o corpo de Cristo no qual todos os membros desempenham uma função específica e têm a mesma dignidade, da cabeça (os líderes) aos pés.

Posteriormente, o autor das cartas aos Efésios e aos Colossenses aplica o conceito de corpo de Cristo não à comunidade local, mas sim à Igreja universal. Ao fazer isso, a cabeça do corpo acaba sendo o próprio Cristo, algo que Paulo nunca havia afirmado.

(Desse modo, porém, seria fácil para Pio XII criar na Mystici Corporis quase uma identificação entre Jesus Cristo e a hierarquia, em particular o papa, com a consequência de que agora quem age verdadeiramente na pessoa de Cristoin persona Christi – só poderá ser o clero e não, por exemplo, um médico ou uma freira.)

No século IV, quando teólogos como Eusébio de Cesareia olhavam para o Império Romano como uma bênção divina, o corpo de Cristo era identificado com o próprio império, agora chamado de “sacro”, e o clero tornava-se, por assim dizer, a alma desse corpo, poderíamos dizer o órgão que o governa espiritualmente: o cérebro.

Com um pouco de exemplificação, a partir desse momento, a história do cristianismo torna-se a história desse cérebro que não se dá conta das doenças de seu corpo, a tal ponto que, devido ao irrefreável processo de secularização, corre o risco de permanecer como o único órgão mantido artificialmente vivo.

Hoje, de fato, a Igreja Católica continua se identificando com o clero (os leigos, que, embora tenham recebido o carisma da profecia, não podem tomar a palavra livremente durante uma assembleia litúrgica) e se ocupando quase exclusivamente da pregação e dos sacramentos (a Igreja, embora trovejando contra as guerras, serve-se tranquilamente de bancos armados para sua economia).

Isto é, estamos diante de um cérebro que não quer escutar seu corpo já desesperadamente anoréxico e continua insistindo em impor uma dieta prejudicial.

Se esse diagnóstico for exato, a terapia só pode ser uma: é preciso salvar todos os membros e restaurar suas funções.

No coração da mensagem de Jesus, está o anúncio do Reino de Deus. Jesus não veio para formar um grupo de especialistas em espiritualidade que ensinassem ao resto da humanidade o que fazer; não veio para transplantar um “cérebro” nos Estados nacionais.

Jesus veio para criar “novas comunidades”, veio para dar vida a organismos inteiros (as comunidades locais chamadas por Paulo de “corpo de Cristo”), nos quais os aparelhos cardiovascular, respiratório, locomotor, digestivo, urogenital, e os sistemas nervoso, linfático, imunológico etc... funcionam tão bem que os outros seres vivos (os outros corpos sociais) copiam esse estilo de vida.

As primeiras comunidades cristãs anunciavam Jesus, mas, justamente por isso, tentavam viver a mensagem do Reino:

“Eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos (e das apóstolas), na comunhão fraterna, no partir do pão e nas orações. Em todos eles havia temor, por causa dos numerosos prodígios e sinais que os apóstolos (e as apóstolas) realizavam. Todos os que abraçaram a fé eram unidos e colocavam em comum todas as coisas; vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um. Diariamente, todos juntos frequentavam o Templo e nas casas partiam o pão, tomando alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo” (At 2,42-47 [trad. Bíblia Pastoral, com acréscimos do autor no original]).

Na Igreja do futuro, o anúncio da Palavra (martyria) e a celebração dos sacramentos (leitourghia) também continuarão sendo centrais, mas todos os cristãos, como irmãos e irmãs, sem superiores nem súbditos (cf. Direito Canônico), deverão, acima de tudo, mostrar ao mundo, juntos, um modo de vida alternativo (koinonia e diakonia).

Quem será o protagonista dessa grande regeneração? Quais serão as células-tronco? Aquelas pessoas que se estabeleceram tão bem neste mundo dificilmente quererão se converter. Por isso, por exemplo, é inútil esperar essa mudança daquela parte do clero gangrenado em seus privilégios.

Pelo contrário, será preciso começar mais uma vez pelos excluídos de todas as sociedades, isto é, os pobres, os desempregados, os loucos, os discriminados por motivos raciais, as mulheres, a comunidade LGBTQ+, as pessoas com deficiência, os doentes.

Mesmo que seja uma palavra que não agrade nos altos salões do magistério, será preciso recomeçar a falar de “eclesiogênese” (L. Boff), ou seja, serão essas pessoas que realmente tentarão viver o evangelho junto com aquela parte do clero que quiser caminhar humildemente com elas.

Quando virdes desaparecer todos os núncios (Nuncios!), levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima.

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