15 Março 2024
O Papa Francisco reafirmou seu apoio às uniões civis do mesmo sexo, escrevendo que “é certo” que tais casais “que vivem o dom do amor possam ter cobertura jurídica como todos os outros”. Ele fez outras observações positivas para a comunidade LGBTQ ao marcar onze anos como papa na semana passada.
A reportagem é de Robert Shine, publicada por New Ways Ministry, 15-03-2024.
Uma autobiografia do Papa Francisco, intitulada Vida: minha história através História, será publicada na próxima semana. Antes de seu lançamento, o jornal italiano Corriere della Sera publicou trechos do livro de memórias que foi escrito em parceria com um jornalista amigo do papa, Fabio Marchese Ragona. A autobiografia é abrangente e liga a vida de Francisco aos eventos mundiais, explorando temas tão diversos quanto a migração de seus avós para a Argentina, uma professora comunista que ele teve, lutas durante a “Terceira Guerra” na Argentina, provações na vida jesuíta e o amor do papa pelo futebol.
Vida: a minha história através da História, de Papa Francisco, editora Harpercollins Brasil, 2024 (Foto: Divulgação)
Francisco também usou as memórias para opinar sobre temas contemporâneos, muitas vezes polêmicos. Segundo trechos do Corriere della Sera, o papa falou da inclusão LGBTQ em geral e, mais estreitamente, defendeu seu apoio tanto para as uniões civis quanto para a Fiducia Supplicans, a declaração vaticana que permite que casais queer sejam abençoados. Francisco escreveu em vários pontos:
“[Sobre as uniões civis:] É justo que essas pessoas que vivem o dom do amor possam ter cobertura legal como todos os outros. Jesus muitas vezes saiu ao encontro de pessoas que viviam à margem, e é isso que a Igreja deve fazer hoje com pessoas da comunidade LGBTQ+, que muitas vezes são marginalizadas dentro da Igreja: fazê-las sentir-se em casa, especialmente aquelas que receberam o batismo e são para todos os efeitos parte do povo de Deus. E quem não recebeu o batismo e deseja recebê-lo, ou quem deseja ser padrinho ou madrinha, por favor, seja bem-vindo.”
“[Sobre Fiduciia Supplicans]: Eu só quero dizer que Deus ama a todos, especialmente aos pecadores. E se os irmãos bispos decidem não seguir este caminho, isso não significa que esta seja a antecâmara de um cisma, porque a doutrina da Igreja não é posta em questão.”
“[Sobre a inclusão:] Eu imagino uma mãe Igreja, que abraça e acolhe todos, mesmo aqueles que se sentem errados e aqueles que foram julgados por nós no passado. Eu penso em pessoas homossexuais ou transgêneros que buscam o Senhor e que, em vez disso, foram rejeitadas ou expulsas.”
Há mais boas notícias para os católicos LGBTQ e aliados no livro. O Papa Francisco está convencido de que não vai renunciar porque atualmente não existem “razões sérias, apesar de momentos de dificuldade”.
Todos os anos, o aniversário da instalação de Francisco provoca inúmeros comentários sobre seu impacto e legado. Nos últimos anos o Bondings 2.0 também o fez para explorar seu histórico em questões LGBTQ. E, de fato, seu histórico é complexo e nem sempre positivo, particularmente na identidade de gênero. Mas uma simples evolução não deve ser negligenciada ou subestimada: seus dois predecessores mais recentes se referem ao amor entre duas pessoas do mesmo gênero como “intrinsecamente desordenado”; Francisco vê em tais casais “o dom do amor” digno de cuidado e proteção.
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