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08 Novembro 2023

Um livro da jornalista Swarns documenta como em 1838 para financiar a universidade católica estadunidense foram vendidos 272 afro-americanos como escravos para as plantações de algodão da Louisiana. O sacrifício da família Mahoney ocorreu em um dia sombrio do outono de 1838. No cais da cidade de Alexandria, Virgínia, centenas de pessoas foram embarcadas à força no enorme navio negreiro Katherine Jackson com destino a Nova Orleans, no extremo sul. Homens e mulheres de todas as idades tirados de seus familiares e vendidos como objetos, entre os gritos das crianças arrancadas dos braços das mães. Anny Mahoney viu seu mundo desmoronar para sempre, sua irmã e dois filhos, Arnold Jr. e Louisa, destinados às distantes plantações de algodão da Louisiana. Durante anos, ela e o marido serviram fielmente um dos homens mais ricos de Maryland, Charles Calvert, e em troca receberam a promessa de que sua família nunca seria dividida. Mas então a situação econômica impôs outras escolhas e o seu destino foi selado. Naquele dia, há dois séculos, a tragédia familiar de Anny Mahoney teria cruzado a grande história dos Estados Unidos, como é informado no The 272: The Families Who Were Enslaved and Sold to Build the American Catholic Church, livro em que a jornalista do “New York Times” Rachel L. Swarns alimenta o debate que vem acontecendo há anos sobre o envolvimento da Igreja Católica estadunidense naquela época sombria e dolorosa.

A reportagem é de Riccardo Michelucci, publicada por Avvenire, 07-11-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

O trabalho de Swarns investiga minuciosamente a história do clã Mahoney e reconstrói o terrível destino dos duzentos e setenta e dois escravos vendidos aos novos senhores da Louisiana em 1838 para financiar a Universidade de Georgetown de Washington. Famílias inteiras que foram desenraizadas e divididas recebendo em troca 115 mil dólares (equivalente a aproximadamente quatro milhões de dólares atuais). “Cerca de 422 dólares por pessoa, a serem pagos em parcelas”, comenta Swarns. A história, conhecida já há alguns anos, levou a universidade católica mais antiga e prestigiada dos Estados Unidos a fazer um mea culpa empenhando-se a instituir um fundo para os descendentes daqueles homens, mulheres e crianças mantidos em escravidão no início do século XIX.

SWARNS, Rachel L. The 272: The Families Who Were Enslaved and Sold to Build the American Catholic Church. Random House, 2023 (Foto: divulgação)

Os historiadores têm investigado o papel da Igreja Católica no comércio de escravos há décadas. Mas até agora, raramente esses estudos ultrapassaram as fronteiras do mundo acadêmico. Essa história datada de 1838 surgiu pela primeira vez em janeiro de 2015 nas páginas do “Hoya”, o jornal estudantil de Georgetown. Isso despertou profunda indignação e levou a direção da universidade a instituir um grupo de trabalho para estudar os vínculos da universidade com a escravidão. Mas quem abriu definitivamente a caixa de Pandora foi sobretudo uma investigação publicada no ano seguinte no “New York Times”, escrita pela própria Rachel L. Swarns. Um trabalho apurado em que a autora – uma afro-americana católica com outros livros sobre escravidão no seu currículo – demonstrou como em 1838 a Universidade de Georgetown conseguiu salvar-se do colapso financeiro com a venda de seres humanos aos proprietários de terras da Louisiana, na época considerados os piores exploradores de mão-de-obra de escravos negros.

Para transformar aquela investigação num livro poderoso e comovente, Swarns revirou os arquivos dos Jesuítas na Europa e nos Estados Unidos, os arquivos do Estado de Maryland e o Georgetown Slavery Archive. Sem se preocupar com os historiadores que desacreditaram as histórias orais dos negras considerando-as pouco confiáveis, ela então foi procurar os descendentes daqueles escravos para coletar suas dolorosas memórias familiares. “O meu trabalho não pretende ser uma acusação indiscriminada – explica – mas sim a tentativa de alimentar uma tomada de consciência coletiva, destacando também as numerosas vozes contrárias que surgiram na época e fizeram todo o possível para tentar proteger as pessoas escravizadas. No século XIX, a prática da escravidão era amplamente aceita em boa parte dos Estados Unidos e envolveu muitas instituições, inclusive as Igrejas protestantes, porque era considerada fundamental para a economia”. No entanto, houve muitos padres católicos que se opuseram abertamente a ela, reconhecendo que a escravidão era completamente contrária à missão da Igreja e eles lutaram para melhorar a condições de vida dos escravos. Patrick Smyth, um padre irlandês que viveu durante muito tempo em Maryland, brigou muito com seus coirmãos que administravam as plantações pela exploração dos escravos. “Seus próprios ministros se tornaram feitores? – escreveu num panfleto ao regressar à Europa – Justamente eles que deveriam amar de todo o coração os infelizes africanos e partilhar o triste fardo das suas aflições?”. De acordo com a reconstrução detalhada de Swarns, um dos mais fervorosos oponentes da escravidão foi o padre Joseph Carbery, que em diversas ocasiões desafiou abertamente seus superiores e tentou salvar os membros da família Mahoney, tendo sucesso com a pequena Louisa. O papel dos vilões nessa história é desempenhado por Thomas Mulledy e William McSherry, os dois diretores da Universidade de Georgetown que quiseram concluir aquela venda a todo custo, independentemente até mesmo das ordens contrárias vindas das hierarquias romanas.

Ao cruzar a narrativa histórica e o jornalismo investigativo, o livro de Swarns também revela uma consequência surpreendente daquela história. “O que aconteceu em 1838 não foi suficiente para abalar a fé dos descendentes daqueles escravos que, apesar de tudo, não se sentiram traídos pela Igreja porque perceberam que homens como Mulledy e McSherry não a representavam. Alguns deles até se tornariam líderes religiosos após a guerra civil americana.”

O debate sobre o passado escravista das instituições universitárias estadunidenses já envolveu em anos recentes muitas universidades de prestígio, incluindo Harvard, Brown, Yale e Virgínia, que depois de abrirem os seus arquivos descobriram que tinham desempenhado um papel nada secundário no comércio de escravos e depois tentaram fazer reparações públicas. Swarns, no entanto, sublinha que foram os jesuítas da Universidade de Georgetown que até agora fizeram o esforço mais consistente para acertar as contas com aquele passado doloroso. “O trabalho do Projeto Memória de Georgetown permitiu identificar mais de seis mil descendentes ainda vivos daqueles 272 escravos e a universidade de Washington instituiu um fundo de 400 mil dólares por ano para pagar a assistência de saúde dos mais necessitados. Eles também fundaram um novo instituto para os estudos sobre escravidão e prontamente removeram os nomes de Mulledy e McSherry dos edifícios universitários dedicados a eles.” A assunção de responsabilidades envolveu também pessoalmente os dirigentes da Companhia de Jesus dos Estados Unidos e do Canadá, que dois anos atrás se comprometeu a angariar cem milhões de dólares para financiar bolsas de estudo e programas culturais para desmantelar o legado escravagista e combater o racismo que ainda permeia a sociedade norte-americana hoje.

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