“Muitas vezes a Igreja é sentida como distante. É preciso recuperar o aspecto alegre da fé”. Entrevista com Derio Olivero

Foto: Pixabay

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29 Julho 2023

No livro "Il pane, il vino, la bellezza" o bispo de Pinerolo, presidente da Comissão episcopal da CEI para o ecumenismo e o diálogo, destaca a importância das relações: nós somos o que encontramos.

A entrevista é de Riccardo Maccioni, publicada por Avvenire, 27-07-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

O começo é uma pergunta: você quer percorrer parte do caminho comigo? Não é preciso nenhuma bagagem especial, partimos do mais normal, de certa forma banal, dos gestos cotidianos: comer. Que quer dizer compartilhar a mesa e, portanto, aprender a doar um pouco do próprio tempo. Em seu último livro: "Il pane, il, vino, la bellezza" (O pão, o vinho, a beleza, em tradução livre, Edizioni San Paolo, 254 páginas, 18 euros) D. Derio Olivero convida o leitor a resgatar a importância, a centralidade das relações humanas. Se for verdade de fato que somos (também) quem nos encontramos, cuidar das relações com os outros, e com Deus no caso de crentes, torna-se uma necessidade, além de uma escolha. Aplica-se tanto à pessoa individual como à comunidade eclesial que, ressalta o bispo de Pinerolo e presidente da Comissão Episcopal da CEI para o ecumenismo e o diálogo, parece estar em crescente dificuldade diante das questões postas pelos homens e pelas mulheres de hoje. “Como está aparecendo também neste tempo sinodal – observa monsenhor Olivero – a Igreja é muitas vezes percebida como distante, pouco concreta, separada. Acho que entre as grandes tarefas de hoje está aquela de superar essa distância. O cristianismo não está ao lado, mas dentro da vida real".

Il pane, il vino, la bellezza, de Derio Olivero (Foto: Divulgação)

Eis a entrevista.

O livro faz parte de um percurso que já começou. Você vem trabalhando há anos no tema do convívio, nas relações. Estou pensando nas cartas pastorais, nos estudos sobre a arte.

Junto com a distância, é o outro grande tema. Nossa sociedade reduziu o sujeito a indivíduo, pensável independentemente de suas relações. Quando falamos de identidade descrevemos o nosso trabalho, os títulos de estudo, as habilidades, ninguém leva em conta as relações. Na realidade nós somos o que encontramos. As relações não são um embelezamento da vida, são essenciais.

Uma dimensão a recuperar. Ainda mais depois da pandemia.

Além do individualismo exasperado, hoje se respira um clima de raiva alastrante. E aqui retorna em jogo a Igreja que deveria ser sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de toda a humanidade, conforme a Lumen gentium. Os cristãos deveriam ser aqueles que animam, despertam, sustentam as relações.

Nas relações humanas, a dimensão da mesa é central, à qual o livro dedica muito espaço.

Ao comer descrevemos a essencialidade de estar no mundo, ou seja, a capacidade de estar em relação. E, além disso, à mesa aprendemos a partilha e a dinâmica da festa, que muitas vezes se faz comendo juntos, e que também é essencial. Porque a festa serve para perceber que esta vida tem um sentido, tem um sabor, merece.

No livro, você escreve que o cristianismo é uma boa notícia sobre a vida, que hoje arrisca ser irrelevante porque esquecemos sua força vital, sua profunda esperança. O que devemos fazer para reencontrá-la?

Acredito que há algumas atenções importantes. A primeira é recuperar o aspecto alegre do cristianismo e possivelmente testemunhá-lo. A segunda é a dimensão de abertura de horizonte: os filósofos dizem que vivemos em um mundo onde o teto ficou mais baixo. O cristianismo o eleva, dando uma perspectiva muito ampla, até mesmo além da morte, para que se possa olhar para o futuro com menos medo. A terceira, acredito, é restaurar a força aos nossos ritos que às vezes são percebidos como um dever ou um fardo. Em vez disso, deveriam ser fontes regeneradoras.

Outro aspecto sobre o qual você convida a refletir é a importância da educação para a beleza. Faz isso a partir de uma pintura de Caravaggio.

Acredito que a arte é antes de tudo educadora do olhar. No sentido de que uma pintura fala. Quem a realizou dedicou à obra horas, meses, às vezes anos, porque tinha algo a dizer. A questão então é ficar diante de uma pintura com atenção e perguntar-lhe: o que você quer dizer? O que você quer me dizer? Assim nos acostumamos a olhar as coisas não apenas como objetos para possuir, mas para deixar com que venham até nós. Se alguém olha para o mundo assim, aprende a ver a sua beleza e não apenas as dificuldades, o mal, as tragédias. A arte, diz Recalcati, é uma ponte para o mistério das coisas. Não é um hobby para desocupados, mas uma linguagem que pretende captar o mistério das coisas, sua densidade, dimensão que por vezes escapa ao raciocínio, à dinâmica apenas lógico-matemática e científica do nosso estar no mundo.

O subtítulo do livro fala de “um bispo em busca de cúmplices”. O que isso significa?

Cumplicidade é repassar algo um ao outro, jogar em equipe, sem necessariamente ser super-heróis. Se pegarmos o desporto, por exemplo o futebol, não é garantido que ganha o campeonato quem tem o grande craque. É mais importante, de fato, fazer equipe, cada um no seu papel e por isso jogando melhor. Acho que ter essa consciência dentro da Igreja poderia tornar-se a nossa grande força. Não é necessário que todos tenham que se tornar bispos, ou padres, ou replicar o que fazem os sacerdotes. Cada um deve viver a sua dimensão, mas ligando-a a um projeto comum.

Resumindo, estar juntos, fazer equipe, deveria caracterizar a vida cotidiana do cristão. Começando, em minha opinião, pela família.

Nossas casas tornaram-se tendencialmente neutras, muitas vezes sem nenhuma diferença de onde mora um não crente. Em vez disso, deveria haver algum símbolo, algo que lembre a em geral, mas também o caminho que talvez se esteja fazendo com outros. Por exemplo, a reprodução de um quadro que foi comentado naquele período, ou um objeto, como uma vela. Eu sugiro sempre aquela da família, para acender em momentos especiais sabendo que os outros farão o mesmo. São formas que no cotidiano nos remetem a um caminho comum.

Voltando ao livro, parece-me que uma das chaves interpretativas é a importância de cuidar da espiritualidade.

Espero que o livro possa ajudar na busca espiritual de qualquer pessoa, crentes mas também não crentes. O que significa cuidar da nossa forma de estar no mundo. O homem é o único animal obrigado a querer para ser. Não deve apenas viver, mas escolher como fazê-lo. Gatos são gatos, cachorros são cachorros, mas nós temos que decidir como ser humanos.

Em várias partes do volume você propõe "palavras para caminhar", isto é, capazes de despertar a reflexão sobre a direção a seguir. Mas se fosse para indicar uma palavra que o cristão deveria viver de forma diferente do que se faz hoje, qual você sugeriria?

Se me permite, gostaria de dizer duas. Uma é o rito que muitas vezes, como dizia antes, tornou-se um pouco formal ou vazio quando deveria ser regenerador ou, se quisermos dizer de outra forma, um treino para crer. A segunda palavra é espiritualidade.

Um conceito complexo de definir.

Nós, cristãos, tornamos essa palavra evanescente, significando as orações, os atos de devoção, enquanto o mundo moderno às vezes corre o risco de torná-la um pouco genérica. Talvez devêssemos resgatar o conceito de espiritualidade entendida como o modo certo de redescobrir a verdade em nós mesmos. Uma longa busca, sobretudo numa mudança de época como a que estamos vivendo.

Além de longo, um percurso nada fácil.

É um caminho que devemos a nós mesmos e aos que virão depois. Precisa ser reescrito o abc da civilização e dos humanos de amanhã. Esse é o sentido de nossa busca que eu, como cristão, vivo recuperando o que o Espírito Santo sugere, tentando seguir o que ele indica.

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