Inteligência artificial e pregação cristã: ferramenta, não solução

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14 Julho 2023

Uma conversa com um pastor e uma pastora a partir do culto presidido por um “avatar” na Alemanha: quais são os riscos para a pregação? Um debate que vale a pena continuar.

A reportagem é de Claudio Geymonat, publicada em Riforma, 12-07-2023. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A notícia do primeiro culto, na Alemanha, gerido por inteligência artificial provocou um grande debate entre o nosso público, e por isso voltamos a falar sobre isso. Dois avatares, dois pastores virtuais, um homem e uma mulher, conduziram as orações e a pregação a partir de um telão.

Fazemos isso após ter questionado na semana passada a própria inteligência artificial sobre o assunto, em um artigo-experimento [disponível em italiano] que visava a nos mostrar como a tecnologia já faz parte das nossas vidas. Cabe a nós, seres humanos, a tarefa de estabelecer regras e aplicações.

Pedimos a ajuda de quem é chamado em questão por tal novidade em primeiro lugar, dois pastores de carne e osso, a valdense Ilenya Goss e o batista Nicola Laricchio.

“Quando li a notícia, pensei que a inteligência artificial é um instrumento e deve ser pensada como tal”, começa Goss. “Ela já é utilizada em muitos campos. Nós a usufruímos na vida cotidiana, embora talvez nem sempre tenhamos plena consciência disso. Usamos softwares de correção de texto no computador e outros instrumentos até para redigir um sermão em forma escrita. Aplicações da inteligência artificial no trabalho sobre uma passagem bíblica não me escandalizam. Certamente, a condução integral de um culto levanta outras interrogações, mas cabe aos seres humanos estabelecerem os fins e os modos de utilização de um instrumento. É claro que essas novidades abrem espaço para considerações éticas relevantes, e, por isso, a comissão para os problemas éticos levantados pela ciência das nossas Igrejas [comissão conjunta valdense-metodista-batista, coordenada precisamente pela pastora Goss] está se preparando para iniciar algumas reflexões sobre o assunto.”

“A ideia de um culto cristão escrito 98% pela inteligência artificial levanta várias questões em mim”, diz-nos Laricchio, que podem ser resumidas da seguinte forma: “Em primeiro lugar, o cristianismo, assim como outras religiões, tem uma base de crenças, valores e práticas que provêm de ensinamentos, tradições e interpretações relacionadas à experiência humana do divino. Isso poderia levar alguém a perguntar como é possível para uma entidade não humana compreender plenamente o significado e a experiência espiritual subjacentes ao cristianismo. A inteligência artificial é programada e baseada em dados de treinamento fornecidos pelos humanos, o que significa que poderia refletir as convicções, os preconceitos ou as limitações daqueles que a criaram. Acho esse aspecto extremamente perigoso, pois pode influenciar a interpretação das Escrituras e a transmissão das mensagens.”

Entre os vários comentários na internet, muitos se referiram a uma certa sacralidade do momento do culto que parece desaparecer diante da novidade tecnológica. Outros enfatizaram o suposto rebaixamento da figura do pastor, reduzido de alguma forma a apenas um bom (ou mau) comunicador.

Para o pastor Laricchio, “a fé religiosa muitas vezes envolve uma conexão pessoal e espiritual entre os indivíduos e a divindade. Se grande parte de um culto cristão for escrito pela inteligência artificial, poderia haver falta de autenticidade ou de experiência humana no próprio culto. A fé e a espiritualidade são muitas vezes consideradas experiências pessoais e íntimas, e a introdução de uma entidade não humana poderia influenciar a natureza dessa conexão.”

Sobre esse ponto, Goss sublinha que, “na nossa teologia reformada, precisamente porque não se divide a realidade em sagrada e profana, mas tudo está sob o senhorio de Deus, o trabalho de um pastor que estuda e escreve um sermão não é mais sagrado do que outra tarefa, e não é pela ‘sacralidade’ da área que o uso da inteligência artificial deve ser proibido. Além disso, aquelas pessoas que reagiram ao culto conduzido por inteligência artificial dizendo que a validade da pregação repousa na fé do pregador, que evidentemente não é prerrogativa de uma máquina, não estão pondo no centro aquilo que deveria estar aí: a Palavra de Deus”.

Trata-se de visões parcialmente diferentes que, contudo, convergem em um “não” de ambos os pastores a um culto conduzido inteiramente por uma máquina. “O meu ‘não’ não se deve ao fato de que a Palavra repousa sobre o pastor – esclarece Goss – mas ao fato de que a Palavra reúne a Igreja e a constitui como comunidade, isto é, seres humanos em relação. Mesmo que não se conheçam, se forem reunidos pela Palavra, ali se constitui a Igreja. Quem sobe ao púlpito e prega não é alguém externo nem o fiador da Palavra: é um membro da comunidade que tem uma função para a qual se preparou e para a qual é reconhecido pelos demais presentes. É essa circularidade da relação comunitária que, a meu ver, é rompida pelo avatar, uma figura virtual, não humana. A inteligência artificial não pode substituir um ser humano, porque é um instrumento nas mãos dos humanos, que pode substituí-los validamente em algumas tarefas e funções, mas não na constituição de uma relação. Além disso, o fiador da Palavra é o Senhor, e certamente não o pastor, e talvez, a se julgar pelos comentários das mídias sociais, valeria a pena repetir e esclarecer isso.”

Para Laricchio, “o cristianismo tem uma história rica de tradições que nascem na própria vivência da comunidade dos fiéis. O anúncio evangélico não é simplesmente uma transmissão acurada de dados bíblicos e teológicos, mas vida vivida. A partir do Evangelho de João (1,35-51) podemos notar que a revelação de Cristo se evidencia na interação direta entre os indivíduos e Jesus, da qual brota consequentemente o testemunho de fé. Justamente por isso, um culto cristão escrito principalmente por inteligência artificial pode levantar, a meu ver, fortes dúvidas sobre sua legitimidade e aceitação dentro da comunidade. Não nego que se trata de um assunto complexo, que certamente requer uma análise mais aprofundada com o envolvimento das nossas comunidades para verificar as possibilidades para uma utilização desses meios mais condizente com as nossas realidades e experiências de fé”.

A comissão para os problemas éticos levantados pela ciência poderia nos ajudar nesse sentido.

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