“Quanto mais humanos somos, mais o divino dentro de nós se manifesta”. Entrevista com Alberto Maggi

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23 Novembro 2022

Encontrar-se com Alberto Maggi é como respirar uma lufada de ar renovado que sai de sua leitura fresca e profunda da página bíblica. Sentir a proximidade de Jesus mesmo em tempos e acontecimentos difíceis e dolorosos. É como encontrar uma base sólida para a esperança de que todos precisam.

A entrevista é de Mariano Borgognoni, publicada por Rocca, 01-12-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

Para nós desta revista e da editora Cittadella, trata-se também de encontrar sempre um amigo com quem se compartilham paixões, expectativas e empenhos.

Eis a entrevista.

Caro padre Alberto, não podemos esconder a surpresa por esse cativante livro sobre Bernadette. Mas como! Maggi nos oferecendo um livro sobre a religiosidade mais devocional que existe? Ou não seria este o viés e o sentido do texto? E qual seria?

Há muitos anos (1995) publiquei justamente com a Cittadella Editrice "Padre dei Poveri", uma tradução e comentário sobre as bem-aventuranças de Mateus, e sempre tive o desejo de conhecer pessoas ou comunidades que tivessem vivido plenamente as bem-aventuranças. Em Bernadette Soubirous encontrei o que procurava. Não estou interessado nas aparições. A própria Igreja as considera um opcional: quem acredita nelas não por isso aumenta sua fé e quem as nega não a diminui, mas fiquei fascinado com o que aconteceu naquela gruta de Lourdes a uma menina, filha da família mais pobre da cidade, com um pai indolente e uma mãe sempre bêbada. Bernadette tem 14 anos, mas não cresceu e parece ter apenas dez anos. Ela é adoentada, analfabeta, ignorante, lenta de compreensão.

O que aconteceu de tão desconcertante para transformá-la numa mulher tão forte que a tornou capaz de suportar milhares de interrogatórios e de enfrentar padres que a consideravam possuída pelo demônio, bispos e cardeais que a acusavam de mentir, médicos que queriam interná-la como louca e até o procurador imperial, representante de Napoleão III? De onde veio essa força? E aquelas suas respostas que assombravam, confundiam e silenciavam seus doutos interlocutores? Bernadette é a mulher das bem-aventuranças e, portanto, mulher do Espírito que liberta as pessoas. Ela é a pura de coração que é bem-aventurada porque viu a Deus (Mt 5,8). De muitas maneiras, a vida de Bernadette é semelhante à da outra grande adolescente francesa, Joana d'Arc. Só que a Donzela de Orléans foi queimada viva, Bernadette, por outro lado, em fogo lento, aceso e alimentado pelo piedoso e devoto sadismo das freiras do convento de Nevers, onde entrara iludindo-se de que encontraria paz e tranquilidade.

Você tem sido um grande nome para nossa revista e nossa editora. Dê-nos um conselho: como é possível hoje escrever sobre fé e Deus em um jornal como o nosso, secular, de inspiração cristã?

Seria presunçoso da minha parte pensar que poderia dar conselhos a quem, como vocês, leva adiante há muitos anos com tenacidade e coragem e tantas dificuldades este precioso compromisso. Ao escrever sobre fé e Deus, evito quaisquer termos clericais, técnicos ou de difícil compreensão. Quero que as boas novas de Jesus e seus efeitos vivificantes cheguem a cada pessoa. Não devo exibir minha cultura, mas transmitir a força do evangelho. E se ao fazer isso uso termos que o outro não entende... é uma falha na comunicação, então é melhor evitá-los e usar outras palavras para expressar o mesmo conceito. As realidades sublimes podem ser transmitidas com linguagem simples, na convicção de que quanto mais humanos somos, mais se manifesta o divino que há em nós.

De modo mais geral, o próprio conceito de Deus assumiu ou sempre teve uma certa dose de ambiguidade. Todos projetaram nele algo de seus desejos ou medos ou o transformaram em uma imagem de si mesmos, talvez para encontrar uma identidade distinta e exclusiva. Do que se livrar para fazer teologia, para falar de Deus de maneira autêntica?

A sabedoria bíblica já havia advertido os homens a não “tomar o nome do Senhor em vão” (Ex 20,7), percebendo o perigo de dobrar e usar a divindade para os próprios interesses. Não houve mandamento mais desrespeitado tanto pelas instituições religiosas quanto pelos detentores do poder, basta pensar naqueles que ocasionalmente ressuscitam a tríade Deus-Pátria-Família. A mensagem dos Evangelhos é muito clara; "Deus nunca foi visto por alguém" escreve João no final do Prólogo do seu Evangelho (Jo 1,18).

Portanto, toda imagem que foi apresentada de Deus é limitada, se não falsa. O único que plenamente revelou Deus é seu Filho Jesus: "Quem me vê, vê o Pai" (Jo 14,9). Em Jesus, Deus se fez homem, aliás, carne (Jo 1,14). Todas as atenções são, portanto, dirigidas a Jesus, ao seu ensinamento e às suas ações que visam a plenitude da vida do homem. Para Jesus não há outro valor absoluto senão aquele que coincide com o bem da humanidade. Se uma verdade, uma doutrina, um dogma se sobrepõe a este bem, mais cedo ou mais tarde, inevitavelmente, se causará sofrimento ao homem em nome do dogma, da doutrina e da verdade. Jesus, quando se viu obrigado a escolher entre a observância da lei divina e o bem concreto da pessoa, não hesitou, escolhendo este último. Ao fazer o bem dos homens, tem-se a certeza de que se faz o bem também de Deus. Muitas vezes, pelo bem de Deus, pelo seu nome, fizeram-se sofrer pessoas.

Que espaço na reflexão de um biblista e de um teólogo como você tem a dimensão escatológica. Há espaço para a espera do Reino? Como devemos pensar essa espera? Ou tudo aconteceu em Cristo e não há nada a esperar?

Jesus veio propor o reino de Deus, uma sociedade alternativa que exige conversão, mudança de mentalidade para que se torne realidade. Num mundo dominado pelos três verbos malditos ter-subir-comandar, que despertam rivalidade, ódio e injustiça nos homens, Jesus propõe o reino, uma sociedade onde se escolhe voluntariamente partilhar em vez de acumular, descer, colocar-se ao lado dos últimos em vez de pretender subir acima deles, e a liberdade de servir em vez do afã de comandar.

Esse reino, com a aceitação das bem-aventuranças, já existe (Mt 5,3), não deve ainda chegar, basta empenhar-se para que se estenda cada vez mais e se alargue a todos os homens (Mt 6,10), tornando-o capaz de acolher o projeto de Deus sobre ele.

Em seu pensamento, o termo religião parece assumir um significado negativo. Em que sentido fé e religião podem ser distinguidas? E tudo isso tem a ver com a virada pós-teísta sobre a qual estão trabalhando alguns teólogos cristãos?

Por religião entende-se aquele conjunto de atos e doutrinas que permitem ao homem entrar em comunhão com a divindade, ou seja, aquilo que se faz para Deus. Com Jesus acaba a religião e entra a , que consiste não naquilo que o homem faz para Deus, mas na acolhida daquilo que Deus faz pelo homem. E a fé, é importante lembrar, não é um dom de Deus, mas a resposta dos homens ao dom do amor que o Pai faz a cada uma das suas criaturas. Na religião o crente é aquele que obedece a Deus observando suas leis; na fé é aquele que se assemelha ao Pai acolhendo e praticando um amor semelhante ao dele. Enquanto a religião mantém sempre uma distância entre a divindade e os homens, a fé a encurta e a elimina. Na religião o homem vive para Deus, na fé vive de Deus, e a diferença é grande.

Graças a Deus temos um bom Papa. No entanto, não parece muito ajudado em sua tentativa de renovar a Igreja em sentido evangélico. A Igreja continua em grande parte clerical e machista.

O que fazer? E como imagina a Igreja do futuro?

Toda mudança, tanto na sociedade quanto na Igreja, vem sempre de baixo, nunca de cima. Aqueles que estão firmemente instalados nos salões do poder não veem necessidade de mudar; para eles está bem a situação como está. Aqueles que desejam a mudança são os que estão mal, que não aceitam a situação existente e querem contribuir para a sua derrubada. Esta é a mensagem que é anunciada já no início dos Evangelhos e que Lucas colocou na boca de Maria, que abençoa o Senhor que “dissipou os soberbos no pensamento de seus corações. Depôs dos tronos os poderosos, e elevou os humildes.

Encheu de bens os famintos, E despediu vazios os ricos" (Lc 1, 51-53). O Papa Francisco, com obstinada insistência, tenta converter a Igreja ao evangelho, mas encontra a tenaz resistência de uma hierarquia que desde sempre converteu o evangelho à Igreja, manipulando-o e explorando-o, para submetê-lo à doutrina do magistério.

Quando isso acontece, inclusive para as afirmações doutrinárias mais frágeis e bizarras sempre haverá algum teólogo da corte pronto para desencavar o versículo bíblico que as justifique e sustente.

Também a liturgia me parece muito desgastada, às vezes vazia, às vezes pingando palavras gastas que não chegam e gestos estereotipados que não aquecem os corações. Tudo isso muitas vezes é remediado com a criatividade. E é muito bom, mas não seria oportuno iniciar uma renovação litúrgica radical, como aconteceu em outras fases da história da Igreja?

A renovação bíblica da Igreja Católica, com a qual se recuperaram séculos de atraso e desvantagem em relação às Igrejas protestantes, sempre acostumadas a uma familiaridade com a Sagrada Escritura, não foi acompanhada pela renovação litúrgica. Sim, alguns remendos foram colocados aqui e ali, mas o arcabouço da liturgia ainda é aqueles de um desgastado teatro do tédio, dirigido de maneira cansada, principalmente por um clero deprimido, onde qualquer centelha de vivacidade é vista com desconfiança. Quando Jesus falava, as multidões nunca ficavam indiferentes: ou o aplaudiam ou o apedrejavam. Hoje a mesma passagem lida na igreja durante a Eucaristia não causa nenhuma reação, senão mesmo bocejos. Onde está o problema? Certamente não no ensinamento de Jesus, mas em quem o transmite. Até o Papa Francisco disse que os fiéis deveriam sair da missa mais felizes do que quando entraram, ao invés disso, na maioria das vezes saem pessoas entediadas e tristes. Toda a estrutura da celebração precisa ser revista, pois toda oração ainda é totalmente dirigida a Deus no alto dos céus e pouco ou nada diz respeito aos homens que suam na terra.

As palavras da liturgia são dirigidas a um homem que não existe e que provavelmente nunca existiu, um fiel com os olhos sempre voltados para o céu e cujo maior desejo parece ser o da pátria celeste, o que não parece mesmo corresponder às prioridades das pessoas.

Padre Alberto, em sua vida, você se deparou com muitos mal-entendidos e, no entanto, como outras pessoas incompreendidas, ajudou a compreender e viver a fé a muitos que a estavam perdendo. Quais podem ser as chaves para entrar no coração das sociedades secularizadas com uma mensagem radical de esperança?

Desde que descobri a beleza dos Evangelhos, dediquei minha vida ao seu estudo e sua divulgação.

A verdade de um ensinamento não se vê pela autoridade de quem o proclama, mas pelos efeitos que produz, e se cria vida, a alegra e enriquece, certamente vem do Criador da vida. Se o aplauso vem como resposta ao anúncio dessa boa nova de Jesus, dirijo-o imediatamente ao autor da mensagem, ao Pai que ama incondicionalmente as suas criaturas. Se, ao contrário, chegam pedras, eu as tomo como medalhas de mérito, uma confirmação de estar no caminho certo, conforme a afirmação de Jesus de que insultos e perseguições são uma bênção (Mt 5,11). Em quase meio século como padre, colecionei um vasto repertório de insultos, ameaças, maldições. É interessante ver como essas ofensas se ajustam aos tempos que mudam. Se há anos ainda me rotulavam de protestante, herege, comunista, maçom, agora está na moda ser “bergogliano”, o que, francamente, é mais um ponto de honra do que um insulto! O problema hoje não é tanto entrar no coração da sociedade secularizada, mas naquele do mundo religioso, hostil e refratário a qualquer mudança.

Fé e política são certamente duas dimensões diferentes, que não podem ser sobrepostas. Quando aconteceu e acontece, foi e é um problema sério. No entanto, deve haver uma maneira de garantir que a inspiração da fé, para nós a inspiração cristã, possa incidir, sem fundamentalismos, também na vida da polis.

Em que terrenos, na sua opinião, isso pode acontecer hoje para tornar a fé menos etérea e a política menos cínica?

Entre as censuras que me fazem recorrentemente está a de que, sim, sou bom em falar do evangelho, mas nem devo tentar tocar em assuntos que dizem respeito à política, porque é um setor que não me compete. Trata-se de uma tentativa de amordaçar, de trancar o padre no estreito perímetro da sacristia. Mas é justamente o evangelho que doa a capacidade de ter olhos para ver e ouvidos para ouvir e perceber, como uma sentinela, perigos sorrateiros que muitas vezes a massa não percebe, pois é seduzida e fascinada pelos mortais flautistas de plantão que hipnotizam as pessoas, apelando para os instintos mais baixos e inconfessáveis.

E então a tarefa do crente é ser o primeiro a desmascarar e denunciar todas as formas de injustiça, manipulação e abuso. Quem se cala para a sua própria paz de espírito e se coloca numa posição de neutralidade não passa de um covarde inútil: é chamado a ser o sal da terra e, ao contrário, é um mingau insípido. Merece apenas desprezo e "não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens" (Mt 5,13).

Se tivesse que escolher uma palavra irrenunciável para sussurrar aos ouvidos das mulheres e dos homens do nosso tempo, uma palavra que fale o essencial da mensagem cristã, qual escolheria? E por quê?

Tive o grande privilégio de viver alguns anos em Granada com um grande biblista, uma pessoa extraordinária, o jesuíta Juan Mateos. Sou seu devedor porque a maior parte do que aprendi sobre a interpretação dos evangelhos a aprendi com suas pesquisas. Também tive o privilégio de estar ao seu lado em Málaga nos últimos momentos de sua vida. Perguntei-lhe: “Juan, se você quisesse resumir sua fé em uma palavra, o que diria?”. E ele, com um fio de voz, sussurrou: “Um Pai que em qualquer situação, mesmo a mais difícil e dolorosa, sussurre para você: 'Não se preocupe, confie em mim!'”. Depois acrescentou: “Estou muito feliz” e faleceu. Era 23 de setembro de 2003.

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