As beguinas estão de volta?

(Foto: Reprodução | Nombres de Mujeres)

12 Outubro 2022

 

É curioso que, no fim de julho, um jornal como o Le Monde tenha dedicado seis artigos às beguinas, uma figura eclesial desaparecida há muito tempo. O último texto (31 de julho) é uma reportagem de uma nova beguinaria em Saint-Martin-du-Lac (Saôn-et-Loire, França).

 

 

A reportagem é de Lorenzo Prezzi, publicada em Settimana News, 14-08-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Sete pessoas (duas religiosas, quatro leigos, incluindo um casal) reconheceram que a sua forma de vida comunitária poderia remeter à tradição beguina: em parte sozinhos, em parte em vida comum, sem vínculos institucionais canonicamente precisos, mas com uma forte dimensão espiritual.

 

As Beguinas. (Foto: reprodução | Gomeres)

 

Eles se encontram todos os dias para a oração e a meditação, o cuidado dos respectivos alojamentos e o próprio trabalho, a participação na refeição comunitária em determinados dias da semana: uma terceira via entre o matrimônio e a vida consagrada, com uma espiritualidade cultivada, sem vínculos particulares com o bispo (mas nem contra ele).



Cerca de 30 amigos de diversas proveniências e pertencimentos (incluindo budistas) estão envolvidos em alguns momentos de oração e de formação.

 

A volta das beguinarias caminha de mãos dadas com outras identidades religiosas consideradas desaparecidas e, hoje, novamente presentes, como os eremitas, a ordem das virgens, a ordem das viúvas.

 

 

O interesse da cultura secular responde à curiosidade de sublinhar o frágil vínculo com a instituição – enquanto muitas e necessárias intervenções corretivas estão em andamento em relação às novas fundações eclesiais –, uma espiritualidade permeável em relação às confusas demandas interiores do presente e a atenção à vivência e ao pensamento crítico contra a cultura hoje hegemônica. Os frágeis fragmentos contemporâneos remontam a uma rica história de centenas de anos.

 

Um milhão na Europa no século XIII

 

O fenômeno das beguinas (e dos begardos) remonta aos séculos XII e XIII. “Sabemos que eles se moviam em ‘bandos’, verdadeiros vilarejos encravados no tecido urbano, alimentavam os pobres, cuidavam dos doentes, recolhiam as crianças abandonadas, assistiam os moribundos, enterravam os condenados à morte. Ganhavam a vida com o próprio trabalho e administravam o próprio dinheiro com plena autonomia, mas faziam um uso mínimo dele, limitado àquilo que era estritamente indispensável. Acima de tudo, marcaram as suas existências com a oração contínua, com uma devoção profunda, com um amor a Deus que era pleno e livre” (R. Salvarani).

 

 

“Sem votos solenes, as beguinas conservam o seu patrimônio e podem abandoná-lo a qualquer momento. Escolhem livremente viver em comunidade, trabalhar ensinando, cuidando dos outros, exercendo o trabalho de tecelagem ou de bordado, com a promessa de castidade e de oração. Provenientes de ambientes muito diferentes, em parte são ricas em herança familiar e em parte têm origens modestas” (Le Monde, 26 de julho).

 

Em um contexto social de relativo bem-estar, elas levantam o tema do desapego do dinheiro e de um caminho de fé e de experiência mística, paralelamente a fundações como a cisterciense, franciscana e dominicana, e a fenômenos sociais como os maniqueus, os cátaros, os observantes, os albigenses, os pizzoccheri, os flagelantes etc.

 

Nascidas nas últimas décadas do século XII no contexto flamengo (Liège, Bruges) e holandesa, as beguinarias se espalharam rapidamente pelo norte da Europa. Depois de um século, em Estrasburgo, contavam-se 85 na cidade; em Bruxelas a grande beguinaria reunia 1.200 beguinas; em Paris, havia 400 beguinas; na Europa, estimava-se cerca de um milhão, depois de um começo não desprovido de suspeitas e tensões.

 

Aprovadas em 1233 por Gregório IX, o Sínodo de Viena (Clemente V) as condenou como hereges (1312). Seis anos depois, João XXII reintegrou-as.

 

Foram três as épocas mais criativas: a das origens, a Contrarreforma e o período posterior à Revolução Francesa. Ainda nos anos 1960, elas estavam ativas nos Flandres. Em 2013, morreu aquela que foi considerada a última beguina, Marcella Pattijin.

 

“Fim da aventura beguinária? Não necessariamente. Há alguns anos, locais de vida comunitária, uma espécie de cenáculos espirituais, têm sido reabertos aqui e acolá na Europa. Beguinarias dos novos tempos, eles retomam em parte as intuições das fundadoras da Idade Média, decididamente modernas demais para a sua época” (Le Monde, 25 de julho).

 

Místicas e suspeitas

 

Pequenas cidades dentro das cidades, as beguinarias contam com casas individuais ou comunitárias, com a habitação da “grande dama” (uma espécie de superiora) em torno dos territórios destinados ao cultivo das hortaliças e ao trabalho de tecelagem (canais de água), com uma igreja muito simples e austera no centro. O conjunto é de propriedade da administração da cidade, enquanto o bispo tem o controle das diretrizes espirituais. Um eco do modelo pode ser encontrado no planejamento urbano contemporâneo das cidades-jardim.

 

Alguns nomes dessas mulheres se elevam como verdadeiras referências na história da Igreja e da mística cristã: de Hadewijch de Antuérpia a Mechtild de Magdeburgo, de Maria d’Oignies a Cristina, a admirável, de Dolcelina a Ludgarda de Trèves, de Ida de Nivelles a Aleydis de Cambrai, até Marguerite Porete. Esta última, queimada como herege em Paris em 1310, deixou-nos um texto de referência, “O espelho das almas simples”.

 

 

Beguina atípica, talvez itinerante ou mendicante, ela condensa nos 140 capítulos do livro uma refinada reflexão espiritual que está nos antípodas da teologia acadêmica da época. Na sua linguagem, fundem-se prosa, poesia, didática e elementos de literatura contemporânea.

 

No conjunto das obras das beguinas, a contribuição mais característica delas é ter tentado a fusão entre a mística do amor e a mística do ser. A anulação do eu abre-se à acolhida de Deus, à divinização do ser humano. As pessoas de fé não precisam de um “estado de vida” (clerical ou religioso) para alcançar a divinização. A experiência espiritual e erótica do Cântico dos Cânticos acompanha as suas reflexões e experiências místicas. Não se trata de uma simples imitação de Cristo, mas de uma plena identificação com a humanidade física e concreta do Deus encarnado.

 

Dois grandes teólogos da época, o Mestre Eckhart e Ruysbroeck, alimentaram as suas extraordinárias reflexões recorrendo ao húmus beguinal. Os dois caracterizaram os dois grandes caminhos para Deus com base nas obras das beguinas e da sua vivência: “Por um lado, a ‘mística nupcial’ que se desenvolve no Ocidente no século XII sob a influência cisterciense baseia-se na leitura que São Bernardo faz do Cântico dos Cânticos. Ela enfatiza um acesso a Deus pela via dos afetos. A outra, a ‘mística da essência’, elaborada no mesmo período, reconhece as suas fontes em Santo Agostinho e nos Padres gregos. Essa mística do ser, que busca alcançar um conhecimento intuitivo de Deus por uma via mais especulativa e intelectual, corresponde àquela que o Mestre Eckhart obteria a partir das grandes beguinas” (Le Monde, 29 de julho).

 

Romana Guarnieri

 

Mas houve uma beguina extraordinária em terras italianas, Romana Guarnieri (1913-2003). Filha de pai italiano e mãe holandesa, graças ao encontro com um padre da mais alta cultura como Giuseppe De Luca, ela iniciou as “Edições de história e literatura”, descobriu na Biblioteca Vaticana o texto de Porete e cuidou da sua tradução e divulgação, alimentando, de forma discreta, o debate teológico e espiritual mais atento.

 

Fez o voto de castidade e tornou a pesquisa intelectual o instrumento de santificação pessoal. “Ser beguina, para mim, significa continuar a escolha das figuras femininas que estudei. Estar no mundo sem ser do mundo. Ser de todos e de ninguém. Ou melhor, de Um só: mas ele é a liberdade absoluta.”

 

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