Os minutos finais de Bruno e Dom em São Rafael

Comunidade São Rafael em Atalaia do Norte, Amazonas (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

14 Junho 2022

 

Uma semana já se passou desde que Bruno Pereira e Dom Phillips desapareceram no rio Itacoaí, região do Vale do Javari, extremo oeste do Amazonas, na fronteira com o Peru. Uma semana em que perguntas se acumulam e poucas respostas foram dadas pelas autoridades, que demoraram a agir. Um pescador está preso – “Pelado” -, investigado por envolvimento no sumiço. Neste domingo (12), a Polícia Federal informou que foram encontrados objetos pessoais do indigenista (um cartão de saúde e uma calça preta) e do jornalista britânico (botas e uma mochila) em uma área de igapó, amarrados em uma árvore. Nos últimos dias, a Amazônia Real refez a trajetória da dupla para reconstituir os minutos finais antes que fossem dados como desaparecidos, quando iam levar provas flagrantes de crimes ambientais para a PF. Na comunidade São Rafael, último lugar no qual Bruno e Dom foram vistos em 5 de junho, as contradições nos relatos ouvidos pela reportagem confirmam que a hipótese de emboscada a mando do narcotráfico é a mais forte até agora.

 

A reportagem é de Cicero Pedrosa Neto, publicada por Amazônia Real, 12-06-2022. 

 

“Ele encostou o barco ali no porto da escola e perguntou se tinha café. ‘Café não tem, mas tem Nescau’, eu disse. Aí ele disse: ‘esse que é bom mesmo’”, relata Alzenira Gomes, 54 anos, a esposa de Manoel Vitor Sabino da Costa, conhecido como “Churrasco”. Foram com essas palavras que Alzenira, por volta das 7 horas do domingo 5 de junho, convidou o servidor licenciado da Fundação Nacional do Índio (Funai) e consultor da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), Bruno Araújo Pereira, 41 anos, e o jornalista britânico Dom Phillips, 57 anos, a aportarem na comunidade ribeirinha de São Rafael. A localidade fica às margens do rio Itacoaí, no município de Atalaia do Norte, na fronteira do Amazonas com o Peru, fora dos limites da Terra Indígena Vale do Javari. Minutos depois dessa conversa, eles desapareceram. Há uma semana o mundo procura pistas para o paradeiro da dupla.

 

“Como o meu marido não estava, ele pediu um pedaço de papel para botar o número dele. Depois disso ele saiu e foi atrás daquele ali”, testemunha Alzenira, apontando para Jânio Freitas de Souza, 45 anos, a última pessoa conhecida com quem Bruno falou antes de seu sumiço. Jânio e “Churrasco” chegaram a ser detidos pela polícia como suspeitos do desaparecimento de Bruno na noite de segunda-feira (6), mas foram liberados no dia seguinte após abertura de inquérito.

 

Líder da comunidade São Rafael, Manoel Vitor Sabino da Costa, o “Churrasco”, é tio de Amarildo da Costa de Oliveira, 41 anos, o “Pelado”, pessoa que é a peça-chave das investigações sobre o desaparecimento de Bruno e Dom e que está preso temporariamente no presídio de Tabatinga, cidade vizinha de Atalaia do Norte, na região do Alto Solimões (AM). “Pelado” foi apontado por uma testemunha ouvida pela Amazônia Real como a pessoa que ameaçou Bruno, Dom e mais nove indígenas da vigilância da Univaja no dia 4 de junho, após ser flagrado tentando invadir a terra indígena. Dois homens não identificados que estavam com “Pelado”, também apontaram as espingardas. Dom teria filmado a ação. Bruno levaria a denúncia no dia 6 à Polícia Federal (PF). Até o momento, esses dois homens não foram citados pela PF se eles estão entre as seis pessoas ouvidas pelas investigações, que são divulgadas em notas oficiais à imprensa.

 

Neste domingo à noite (12), em outra nota oficial, a PF informou que pertences de Bruno Pereira e Dom Phillips foram encontrados próximos à casa de Amarildo, na comunidade São Gabriel. Nessa mesma área, foi encontrada uma outra embarcação que “aparentemente” pertence a “Pelado”. Antes, no período da tarde, o Corpo de Bombeiros havia informado que uma mochila havia sido encontrada, contendo um notebook e um par de sandálias, mas sem a confirmação de quem pertenceriam.

 

Segundo a Univaja, a última informação de avistamento do indigenista e do jornalista é deles visitando as comunidades São Gabriel e Cachoeira, que ficam rio abaixo a cerca de 40 minutos de Atalaia do Norte na voadeira rápida. Conforme a testemunha ouvida pela Amazônia Real, no domingo (5), Bruno e Dom deixaram a base da equipe no Lago Jaburu, distante da comunidade São Rafael cerca de 15 minutos pelo rio Itacoaí. Bruno pilotava a lancha com motor 40 HP e dispensou a segurança dos indígenas.

 

Na quinta-feira (9), ao avistar o barco com a equipe da reportagem chegando no trapiche da comunidade São Rafael, Jânio já esperava em uma maloca. Sabia do que se tratava e pareceu disposto a falar sobre a última vez que viu o indigenista e o jornalista. Disse que Bruno chegou alegre e fazendo piada. “Ele passou uns oito minutos lá na casa do ‘Churrasco’. Passou aí na frente e não me viu. Eu até brinquei com ele, dizendo que ele não me viu porque eu sou pequeno”, narra Jânio, dizendo que o indigenista e o jornalista estiveram na comunidade por volta das 7h20 de domingo.

 

Jânio, que se identificou como presidente da Associação dos Produtores Rurais da Comunidade São Rafael, conta que foi apresentado ao jornalista britânico naquele dia. “O Bruno me disse que o repórter estava fazendo um livro e aí queria saber se o manejo dava resultado aqui”.

 

Dom Phillips, colaborador assíduo do jornal The Guardian e que realizava pesquisas para um livro com o objetivo de ajudar a salvar a maior floresta tropical do mundo, perguntou sobre o manejo do pirarucu, o peixe-gigante da Amazônia. Jânio lembra de ter falado abertamente sobre o tema: “A gente mata peixe ilegal, não vou mentir, a gente pesca aí na frente. Mas tem gente que passa também para a área indígena e quem pega a culpa somos nós aqui da comunidade. Foi o que eu disse pra ele”.

 

O patrão peruano

 

O “aí na frente” de Jânio se refere à Terra Indígena Vale do Javari, a segunda maior do país (atrás apenas da TI Yanomami) com 8,5 milhões de hectares, e que tem sido alvo frequente de narcotraficantes, pescadores e caçadores ilegais, garimpeiros e madeireiros. É a cobiça por essa imensa floresta ainda intacta da Amazônia e onde vivem mais de 6.317 indígenas de sete povos contatados (Kanamari, Kulina, Marubo, Matís, Matsés e Tsohom-Dyapá, este de recente contato, e um grupo de Korubo) e ao menos 16 referências a grupos isolados e não contatados, que formam o pano de fundo desse caso ainda sem explicação. Outro grupo de indígenas Korubo permanece em isolamento voluntário.

 

“O Pelado é um dos caras mais perigosos da região do rio Ituí. Já deu vários tiros na base e já trocamos tiros com ele. O Pelado é peça fundamental nesse quebra-cabeça, não pode ser solto”, afirmou uma fonte à reportagem, que citou outros nomes: Nei e “Colômbia”; que também estão envolvidos com a pesca ilegal e o tráfico de drogas.

 

Colômbia” é o peruano Rubens Villar Coelho, que teria se contrariado com as ações de fiscalização coordenadas por Bruno Pereira, segundo o jornal O Globo.

 

Na tríplice fronteira do Brasil, sabemos que “Colômbia” (Rubens Coelho) coordena o envio de peixe de Letícia para Bogotá, capital colombiana, a partir de uma balsa que opera na Islândia, no Peru. Ele seria também suspeito de ter mandado assassinar Maxciel”, diz outra fonte à Amazônia Real. Mas o peruano não foi ouvido pelas autoridades policiais. “A Funai nunca teve acesso ao inquérito”, disse um amigo de Maxciel.

 

Em 6 de setembro de 2019, o indigenista Maxciel Pereira dos Santos foi morto com tiros em frente à sua família em Tabatinga. Dias antes, ele tinha recebido ameaças de morte de caçadores por sua atuação em defesa da Terra Indígena Vale do Javari.

 

Desde o início do desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Pereira, circulam nomes como “Churrasco”, “Pelado”, “Caboclo”, Jânio e Nei, todos apontados como tendo alguma ligação com o caso. Mas “Colômbia” pode ser a peça que falta nesse quebra-cabeça. Ele possui propriedades no município de Benjamin Constant, também vizinha de Atalaia de Norte, e controla o fluxo de drogas no rio Itacoaí, ua das calhas da TI Vale do Javari mais invadidas por caçadores e pescadores ilegais. “Colômbia” é um traficante peruano que usa da pesca e caça ilegais para retroalimentar o tráfico de drogas e as práticas ilegais que afetam tanto os indígenas quanto os projetos de manejo desempenhados na região.

 

Colômbia” seria o “patrão”, apontado por mais de uma fonte ouvida nos últimos dias pela reportagem, que estaria insatisfeito com a atuação do indigenista, por conta de sua atuação no Vale do Javari. É ele quem banca o comércio de tracajás (uma das espécies de quelônios de água doce mais consumidas na região, embora seja ilegal), por exemplo, pagando 70 reais por unidade – os pescadores chegam a descer o rio com cerca de 800 tracajás por pescaria.

 

Conflitos se intensificam

 

Para se proteger das invasões, e sem apoio da Fundação Nacional do Índio (Funai), a Univaja decidiu agir por conta própria. Formou uma Equipe de Vigilância, a EVU (sigla de Equipe de Vigilância da Univaja), munindo os indígenas de armas de caça, todas de baixo calibre, e equipamentos de monitoramento. Bruno Pereira, licenciado da Funai, foi convidado a atuar com a EVU, ajudando-os a flagrar os crimes que ocorriam dentro da TI Vale do Javari com aparelhos de drones. Os indígenas são dos povos Marubo, Matís e Kanamary.

 

Buscas pelos desaparecidos (Foto: Cícero Pedrosa Neto | Amazônia Real)

 

Imagem de buscas por Dom Phillips e Bruno Pereira em instalações em terra da base da EVU (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

 

Na mesma região a Funai tem uma base nos rios Ituí e Itacoaí, onde a Força Nacional de Segurança participa das ações dos servidores para combater as invasões à Terra Indígena Vale do Javari. A equipe conta com o apoio no rio Jutaí de uma casa de madeira para quarentena antes do ingresso ao território. A base da Funai fica distante a 2 horas de viagem de barco veloz da sede do município de Atalaia do Norte e ela faz parte das ações de monitoramento e proteção dos indígenas isolados e de recente contato. Desde 2018, o local, cujo nome oficial é Base de Proteção Etnoambiental (Bape) do rio Ituí-Itacoaí, sofre ataques, muitos deles a tiros, de invasores.

 

Os embates entre a equipe de vigilância da EVU e os invasores do território se intensificaram em 2021, durante a pandemia de Covid-19. Fora da terra indígenas, as comunidades que estão em seu entorno são de pescadores e caçadores com históricos de invasões e suposto envolvimento com o narcotráfico. Essas famílias já viveram dentro dos limites na terra indígena e foram retirada com a homologação, em 2001, após 20 anos de conflitos, inclusive mortes de brancos por indígenas isolados Korubo.

 

No sábado, o pescador Jânio contou à Amazônia Real que Bruno havia mencionado, no domingo do seu desaparecimento, que teria levantado um drone e pelas imagens flagraram pescadores ilegais de pirarucu e tracajás no rio Itacoaí. Segundo Bruno relatou a Jânio, ele levaria o material para ser apresentado às autoridades no município vizinho, em Tabatinga, onde está localizada a sede da Polícia Federal e outros órgãos federais, como Ministério Público Federal.

 

“Ele disse que queria ajudar nós e que estava avexado (apressado) porque tinha uma reunião em Tabatinga com a Polícia Federal, e que ia me ligar lá pra uma hora da tarde. Eu esperei e nada. Como não tinha almoço aqui em casa, eu fui pro rio pescar”, relembra Jânio. Segundo ele, aquele foi o maior contato que teve com o indigenista até hoje. “A primeira vez foi essa, só tinha visto ele em umas reuniões por aí.”

 

Perguntado sobre um possível envolvimento de Amarildo da Costa de Oliveira, o “Pelado”, na emboscada contra Bruno e Dom, o pescador Jânio desconversou. Diz não ter relações com o acusado que teve sua prisão temporária decretada na noite do dia 9. Mas, ao final, não hesitou em defendê-lo: “Eu não acredito que tenha feito isso com ele [Bruno], porque o cara pra fazer um negócio desses com um cara conhecido como ele tem que ter peito”.

 

Jânio, que acompanha as notícias do caso pelo celular, aconselhou à reportagem a não seguir viagem até São Gabriel, a comunidade vizinha, por ser “perigosa”. É lá onde “Pelado” mora e foi preso pela Polícia Militar por porte de arma de uso restrito das Forças Armadas, no dia 7 de junho.

 

Durante a audiência de custódia, dia 9, a Polícia Federal revelou que a perícia técnica encontrou sangue na lancha de “Pelado” e numa lona de plástico azul. O pescador nega seu envolvimento no sumiço de Bruno Pereira e Dom Phillips. Diz que foi torturado pela PM do Amazonas, como publicou a Agência Pública.

 

Na sexta-feira (10), a Polícia Federal informou as equipes localizaram no rio Itacoaí, próximo ao porto de Atalaia do Norte, material orgânico aparentemente humano. O material genético foi encaminhado para análise pericial ao Instituto Nacional de Criminalística da PF.

 

Em coletiva na sede da Polícia Federal, em Manaus, o superintendente Eduardo Alexandre levantou a hipótese de o narcotráfico estar relacionado ao desaparecimento de Bruno Pereira e Dom Phillips. “As investigações apuram o envolvimento de quadrilhas de tráfico de drogas na região. Estamos buscando saber se houve algum crime nesse desaparecimento”, disse.

 

Sobre sua detenção, Jânio preferiu não dar declarações e disse que estava “tentando ajudar o Bruno, mas é difícil, né?”. Ele não quis indicar de que maneira estava se empenhando para colaborar com as buscas ou com a elucidação do caso, tampouco apontou as dificuldades as quais se refere. Ele também não quis dar declarações sobre o depoimento à polícia.

 

Já no final da entrevista para a Amazônia Real, em local mais reservado, Jânio fez questão de mostrar uma possível rivalidade ao mencionar que Bruno Pereira tinha práticas enérgicas contra os pescadores ilegais. “Se ele pegasse alguém pescando ilegalmente, ele tocava fogo em tudo mesmo, não tinha conversa. Era barco, malhadeira, o que tivesse! Ele estava na razão dele. Só que esse pessoal que pesca aí é pobre também”, justificou Jânio Freitas de Souza.

 

A contradição de “Churrasco”

 

Manoel Vitor Sabino da Costa, 58 anos, o “Churrasco”, pessoa que Bruno procurava na comunidade São Rafael – e com quem havia marcado uma reunião prévia – recebeu a Amazônia Real em frente à casa da filha, que vive em uma área vizinha à escola onde Bruno e Dom aportaram no domingo. De forma intempestiva e dizendo não ter nada a esconder, falando alto e sem pausas, “Churrasco” afirmou que não sabia que o conhecido consultor da Univaja iria visitá-lo naquele dia, e que também não sabia o que Bruno tanto queria falar com ele. Mas disse que seu irmão, Raimundinho, era quem o abrigava quando Bruno “ia lá pro lado do Jaburu”, se referindo justamente ao lago de onde partiu a dupla no dia da possível emboscada. “O Raimundinho sempre me dizia pra falar com ele, que ele poderia ajudar a comunidade”, disse “Churrasco”, afirmando conhecer Bruno apenas “de vista”.

 

Manoel Vitor Sabino da Costa, o Churrasco, com o bilhete deixado (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

 

Sobre a passagem de Bruno e Dom pela comunidade São Rafael, “Churrasco” afirmou: “Eu não estava em casa, tinha saído seis horas da manhã pra ir pescar, aí disseram que ele chegou aqui atrás de mim pra marcar uma reunião comigo. Só quem estava em casa era a minha esposa e ele (Bruno) disse pra ela: ‘Poxa, eu queria muito conversar com o seu ‘Churrasco’.’ Aí foi quando ele deixou o número dele lá com ela anotado num pedaço de papel, a federal até já viu esse papel”, declarou Manoel, indicando que a Polícia Federal já tinha periciado o papel – fato que se deu no dia 6.

 

“Pra estar esse tempo todo sumido desse jeito, ou está morto ou está amarrado por aí por dentro do mato, só pode”, afirmou “Churrasco” à Amazônia Real, quando perguntado sobre o que poderia ter acontecido com a dupla desaparecida.

 

Ao longo da entrevista, que durou cerca de oito minutos – o mesmo tempo que durou a passagem de Bruno e Dom na casa de “Churrasco” na companhia de sua esposa, Alzenira –, o pescador Manoel fez questão de frisar que só poderia testemunhar sobre o que viu, e que “depois que eles dobraram pro rumo dali [em direção à Comunidade São Gabriel, onde foi preso “Pelado”, o acusado], não me pergunte que eu não sei”.

 

Essa versão de Manoel da Costa contraria a declaração dada pelo advogado e indígena Eliesio Marubo, assessor jurídico da Univaja. O advogado, procurado pela Amazônia Real, reafirmou que Bruno Pereira foi à São Rafael porque havia uma reunião pré-agendada na comunidade. “O ‘Churrasco’ sabia, sim, da reunião. Ele me falou isso quando fui lá na comunidade ainda no domingo [dia cinco]”, disse Eliésio Marubo.

 

“Eu não tenho nada contra ninguém, nunca tive. Esse velho, todo aleijado, e não é por tá roubando ninguém e nem vendendo droga, isso foi um acidente que eu sofri… esse velho aqui bate no peito, pra dizer que nunca fez nada de ruim pra ninguém. Já fui preso sim, porque andava metido em confusão, mas não por tá fazendo mal pros outros…”, explicou-se Manoel. No Tribunal de Justiça, constam três processo contra “Churrasco” de baixa monta, como indenizações e perdas e danos.

 

Churrasco”, assim como Jânio, faz parte do inquérito aberto pelas Polícias Civil e Federal, que investigam os envolvidos no desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Pereira. Em nenhum momento da reportagem, Manoel informou que é tio de Amarildo, o principal suspeito pelo desaparecimento da dupla, conforme apurou a Amazônia Real. Perguntado sobre o acusado, ele preferiu não manifestar opiniões.

 

O apoio dos indígenas

 

Um mundo com todas as suas especificidades, sistemas e crenças, cercado de água doce, mata preservada e farturas de pescados. Mergulhado em conflitos, muitos interesses econômicos ilegais, e com vasto histórico de violações humanas, originárias e ao meio ambiente. É como pode ser definido o santuário indígena onde Dom Phillips e Bruno Pereira desapareceram no último dia 5, na tríplice fronteira amazônica do Brasil com o Peru e Colômbia.

 

 

Instalações em terra da base da Evu (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real) 

 

Desde o sumiço da dupla, dezenas de indígenas dos cinco povos que habitam a região, Matis, Marubo, Kanamary, Korubo e Kulina, com apoio das forças policiais, se revezam em busca do “amigo” indigenista e do jornalista “gente boa” – como o definiram em entrevistas à reportagem.

 

“Pessoal, nós temos que ajudar a encontrar o nosso irmão. A gente tem que lembrar do apoio que ele deu sempre nós. E ainda tem o jornalista que a gente conheceu esses dias. A família dos dois merecem a nossa ajuda. Vamos ajudar com toda força”, clamava a liderança Higson Kanamary aos seus parentes, sentado no escritório da Akavaja (Associação dos Kanamary do Vale do Javari), na Univaja, quando a Amazônia Real o encontrou na tarde do dia 9 de junho, no quarto dia de buscas a Dom e Bruno.

 

Higson foi uma das últimas pessoas a ver os dois antes que eles embarcarem rumo à Atalaia do Norte levando consigo o material contendo imagens de crimes ambientais que seria entregue na sede da PF, no município de Tabatinga. “O Bruno disse que eles iam baixar sozinhos. A gente sabia que era perigoso, mas ele reuniu nós indígenas lá na base, tomou a decisão e nós aceitamos”, diz o líder indígena Kanamary sem esconder a tristeza e o desespero, expresso nas lágrimas incontidas e nas mãos nervosas que juntas escorregaram sobre sua cabeça até a testa.

 

 

(Mapa: Giovanny Vera | Amazônia Real)

 

Bruno e Dom partiram sozinhos no dia 4 de junho do porto de Atalaia do Norte em direção ao posto móvel da EVU, que àquela altura se encontrava nas imediações do lago Jaburu, próximo à TI Vale do Javari, que concentra o maior número de indígenas isolados do mundo. Portanto, no percurso não haveria necessidade de ter a autorização da Funai, uma vez que não é área indígena.

 

O indigenista Bruno Pereira, que conhecia como poucos a enormidade do rio Itacoaí (um dos afuentes do rio Javari) e suas dezenas de furos, foi pilotando a embarcação “possante da Univaja”, como narra Higson, equipada com um motor 40 HP, até chegar no fim da tarde ao posto onde estavam estacionados os guardiões indígenas – trajeto estimado em duas horas e meia, a considerar a potência do barco em que estavam.

 

Bruno estava em uma missão de fiscalização, desempenhada junto aos indígenas e outros membros da Univaja, como Orlando Possuelo, filho do sertanista Sydney Possuelo, o fundador do então Departamento de Indígenas Isolados e responsável pelo primeiro contato com os indígenas Korubo, em 1996.

 

Entrevistado pela Amazônia Real no local onde hoje se encontra o posto móvel da EVU, nas imediações da Comunidade Cachoeira, Orlando Possuelo estava visivelmente abatido e trabalhava no erguimento dos barracos construídos com os indígenas Matis, Marubo e Kanamary, que lá estavam de vigília havia dias. Segundo ele, os indígenas preferem se fixar em solo do que ficar nas estruturas da embarcação que serve de base à equipe de indígenas que trabalha no monitoramento e fiscalização da TI Vale do Javari.

 

“Eu estava esperando pela chegada do Bruno às 8 horas da manhã. Ele iria me pegar lá para seguirmos viagem até Tabatinga. Ele me mandou mensagem às 6 da manhã, por meio do SPOT que estava com os indígenas – ele estava com eles lá, próximo à entrada da terra indígena. Oito horas da manhã eu fui pro porto para aguardá-lo, e como ele não chegou nós preparamos um barco e começamos as buscas”, relembra Possuelo.

 

O relato de Possuelo indica que do horário em que Bruno e Dom aportaram até a comunidade de São Rafael e o início das buscas pela equipe EVU não ultrapassam as duas horas e meia. Significa que foi neste intervalo de tempo que o jornalista e o indigenista sumiram sem deixar rastro algum.

 

“Na noite de sábado (4), nós conversamos em grupo e praticamente tava alinhado vir dois ou três parentes com ele. Na madrugada de domingo (5), umas quatro da manhã, ele disse que baixaria só ele e o Dom. Iam baixar cedo por uma estratégia de sair às seis da manhã e não ter tantos perigos, para estar em Atalaia às 8 da manhã e seguir pra PF”, lembra Higson Kanamary. “Antes de vir pra cá ele já tinha alinhavado uma conversa com o delegado da PF. Ele tinha todas as provas das intimidações dos pescadores contra os indígenas.”

 

Dom acompanhava a missão de Bruno porque estava escrevendo um livro sobre as dinâmicas socioambientais da Amazônia e os conflitos sobre as comunidades tradicionais e originárias. Ele já havia estado no Pará em 2021, onde visitou Barcarena, no nordeste paraense, e esteve com comunidades quilombolas e ribeirinhas afetadas pelas indústrias transnacionais de transformação mineral que atuam na cidade. Além dela, Dom também esteve recentemente no Acre. Ele estava empenhado em confeccionar um acervo de reportagens divididas em capítulos, que contasse um pouco da situação de emergência em que vivem as populações amazônicas.

 

“Não havia apenas um interesse literário, jornalístico, quando Dom me procurou em Belém, no início de agosto do ano passado. Nos poucos contatos que tivemos, foi possível perceber que ele se angustiava e, mesmo por trás de sua fleuma britânica, percebia-se genuína preocupação com o meio ambiente”, narrou à reportagem o advogado socioambiental Ismael Moraes.

 

Em meio aos desassossegos causados pela pandemia de Covid-19, que acabaram também por atrasar a escrita de sua obra, Moraes explica que Dom estava interessado nas múltiplas formas de violências causadas pela mineração no estado do Pará e gostaria de conhecer Barcarena, cidade do nordeste paraense que sofre com a contaminação por metais pesados causada por indústrias transnacionais de transformação mineral, como a norueguesa Norsk Hydro. “É pavoroso saber que não temos notícias suas”, lamentou o advogado paraense.

 

João e Alex Kanamary, jovens guerreiros aos 18 anos, contaram à reportagem que trabalharam incansavelmente desde domingo do desaparecimento de Bruno e Dom e que tiveram momentos de companheirismo e aprendizado com a dupla nos dias anteriores. Aldeados, falando pouco o português e retornando da base da EVU para descansar, os jovens indígenas contaram dos momentos angustiantes que viveram desde a notícia da emboscada.

 

“Eles estavam aqui com a gente bonzinho uma hora, depois desapareceram e a gente não consegue encontrar. Já batemos essa beira de rio todinha aí e nada. É muito triste pra nós”, contou João Kanamary.

 

Rio Itacoai, nas imediações em que Dom e Bruno desapareceram (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

 

Barco apreendido

 

Mesmo após a notícia trágica que se abateu sobre o Vale do Javari, as atividades ilegais não cessaram. A equipe da EVU durante as buscas a Bruno Pereira e Dom Phillips acabou encontrando uma embarcação lotada de pirarucus, distribuídos em seis caixas de isopor com gelo. Em algumas caixas, uma camada superficial de pescados, cuja pesca é permitida, disfarçava o carregamento ilegal. Delcimar Kanamary, presidente da Associação dos Kanamary do Vale do Javari (Akavaja), disse à reportagem que o barco em questão pertence ao acusado pela emboscada da dupla desaparecida, Amarildo da Costa, o “Pelado”, e que tinha sido apreendido no fim da tarde do dia 9.

 

Segundo ele, o barco estava escondido por folhagens quando foi descoberto. “Eles [pescadores ilegais] deixam esses barcos em locais estratégicos e saem em outros barcos menores para fazer a pesca. Conforme eles vão pegando, vão trazendo para esse barco de apoio para cortar as mantas e guardar no gelo. Quando não, eles salgam, por isso que tem sal aí dentro também”, explica o líder indígena Kanamary, indicando a saca de sal refinado que repousava num canto do assoalho da embarcação apreendida pela EVU e rebocada por uma guarnição da Marinha para ser periciada.

 

A reportagem, até o momento, não conseguiu confirmar com a Polícia Federal e com a Polícia Civil a procedência da embarcação, para onde ela foi levada e qual destino foi dado à carga ilegal que nela estava.

 

Sobre a tática dos pescadores para disfarçar a carga ilegal, Delcimar explica que “eles colocam outros peixes por cima pra disfarçar o crime. Eles colocam pacu, branquinha, tucunaré, piau, o curimatã, tudo por cima pra disfarçar as mantas de pirarucu que estão por baixo”.

 

(Colaboraram Kátia Brasil e Eduardo Nunomura)

 

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