Uma guerra mundial e a crise da globalização. Artigo de Giuseppe Savagone

Fonte: Pixabay

14 Mai 2022

 

A guerra na Ucrânia, para além das suas proporções geográficas, políticas e militares de “conflito local”, está se revelando como uma “guerra mundial” dadas as suas consequências. Mesmo quando acabar, o mundo não será mais o de antes.

 

O comentário é de Giuseppe Savagone, diretor do Escritório para a Pastoral da Cultura da Arquidiocese de Palermo, na Itália. O artigo foi publicado originalmente no sítio da arquidiocese e republicado por Settimana News, 11-05-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Os observadores dizem que, no mundo, quando estourou a guerra na Ucrânia, já havia nada menos do que 169 guerras em curso sobre as quais ninguém falava. E não porque fossem menos desastrosas e sangrentas do que a que está devastando a ex-república soviética: para mencionar apenas uma – a do Iêmen que, desde 2014, contrapõe o front xiita, apoiado pelo Irã, e o sunita, apoiado pela Arábia Saudita com o apoio dos Estados Unidos – o último relatório da ONU, publicado em novembro passado, fala de 150 mil pessoas que perderam a vida nos confrontos armados e pelos bombardeios aéreos, e até de 377 mil, se considerarmos as vítimas dos efeitos indiretos do conflito, como a escassez de água e de alimentos.

 

A guerra na Ucrânia, por mais violenta e desumana que seja, causou até agora um número de mortes mensurável, no máximo de poucas dezenas de milhares (incluindo também as perdas militares russas). Nada de remotamente comparável à guerra iemenita. No entanto, aos olhos de nós, ocidentais, ela está se tornando muito mais significativa e chocante do que todas as outras juntas.

 

Realidade e comunicação

 

É verdade que ela está sendo travada na Europa. Mas as guerras nascidas a partir da dissolução da ex-Iugoslávia também ocorreram em solo europeu, sem ter a ressonância do conflito ucraniano. Também é verdade que, neste último, independentemente do que digam os negacionistas, houve execuções atrozes de civis, estupros, devastações que comoveram e indignaram a opinião pública. Mas violências sem precedentes contra civis acompanharam e ainda acompanham as outras guerras do passado (pensemos nas “limpezas étnicas” na ex-Iugoslávia e no presente).

 

Para ficar no caso do Iêmen (um entre 169…), segundo a PNUD, a Agência das Nações Unidas para o Desenvolvimento, neste conflito esquecido, “em 2021, a cada nove minutos morreu uma criança com menos de cinco anos”. No entanto, nenhum primeiro-ministro, muito menos o presidente estadunidense, denunciou com tanta indignação os crimes e as atrocidades perpetrados contra os inocentes durante o conflito iemenita ou das outras guerras. Nenhum parlamento se colocou à disposição para ouvir a voz das vítimas, nenhuma frente comum foi criada pelos governos dos países democráticos para exigir sanções contra os agressores ou para fornecer armas aos agredidos. A opinião pública também não percebeu nem mesmo um eco distante dos dramas humanos que estavam se consumando e que continuam se desdobrando todos os dias diante dos nossos olhos indiferentes.

 

 

A única reação do mundo ocidental, em particular da Europa, foi o alerta pela chegada dos refugiados dessas guerras, considerados um fardo insustentável para a nossa economia e uma ameaça para a nossa civilização, a ponto de serem comparados a bárbaros invasores a serem detidos nas fronteiras, com todos os meios.

 

Mais uma vez, não pode deixar de surpreender a diversidade de atitudes em relação aos refugiados ucranianos, que os mesmos personagens políticos que estão na linha de frente há anos no fechamento aos migrantes acolheram de braços abertos e definiram como “refugiados de verdade”, contrapondo-os aos “falsos”, provenientes de todas as outras guerras. E aqui se tratava de mais de cinco milhões de pessoas, e não de algumas dezenas de milhares!

 

São dados que talvez devam nos fazer refletir sobre o peso que os meios de comunicação têm na nossa percepção da realidade. Nesse sentido, a espetacularização do conflito por obra do presidente ucraniano Zelensky, que percorreu os parlamentos dos países democráticos para apoiar a sua causa, certamente teve um peso determinante no envolvimento do mundo ocidental.

 

Fonte: Pixabay

 

Uma virada epocal

 

Mas a imagem não é apenas uma projeção externa à realidade: ela contribui para constituí-la. Assim, justamente devido à repercussão política e midiática que está tendo, essa guerra é efetivamente diferente das outras. A tal ponto que se pode razoavelmente afirmar que, ao contrário de todas as outras que eclodiram depois de 1945, ela já assumiu agora as características de um conflito mundial.

 

O relançamento da Otan desempenha um papel decisivo nisso. O encontro em Bruxelas no dia 24 de março, liderado por Biden, marca uma virada para os equilíbrios na Europa. A Otan, originalmente uma aliança militar com o objetivo de enfrentar a União Soviética – e, por isso, considerada por muitos como já supérflua após o fim desta última (em 2017, Donald Trump já havia a definido como “inútil”) –, à luz dos novos desdobramentos relacionados com a crise ucraniana, “torna-se de repente o modelo de uma nova construção ocidental” (Giuseppe Sarcina, Corriere della Sera, 24 de março).

 

Trata-se, como diz o título do artigo da Sarcina, de “uma virada epocal”, da qual o presidente dos Estados Unidos, Biden, parece perfeitamente ciente. Ainda durante a viagem à Europa, ele havia dito: “Haverá uma nova ordem mundial lá fora e devemos guiá-lo. E devemos unir o resto do mundo livre ao fazer isso”.

 

Com efeito, à subsequente cúpula da Otan, realizada no fim de abril na Alemanha, em Ramstein (significativamente, uma base militar estadunidenses), foram convidados 14 países que não são membros da Otan. Além da Ucrânia, Suécia e Finlândia, o convite foi estendido aos parceiros do PacíficoJapão, Coreia do Sul, Austrália –, a Israel e a alguns países africanos como o Quênia e a Tunísia.

 

Uma consequência imediata desse relançamento da Aliança Atlântica – ligada ao seu caráter militar – é o aumento das despesas que os países membros terão que destinar aos armamentos. Esse tipo de ideias já estava circulando há algum tempo, mas agora a corrida para fortalecer os respectivos exércitos se tornou muito mais premente.

 

Mas essa não é a novidade mais decisiva para o futuro. As dimensões planetárias assumidas pelo conflito na Ucrânia parecem destinadas a dividir o mundo de uma forma comparável apenas à Guerra Fria. De um lado, a Otan; de outro, não só a Rússia, mas também países como a China, a Índia, o Irã, o Brasil, muitos Estados africanos...

 

A globalização entre luzes e sombras

 

A contraposição destrói a unidade do planeta não só em nível político, mas também em nível econômico. As sanções estão desencadeando um efeito cascata, cuja extensão está começando a ser percebida. Desde o início deste século, sob a égide da Organização Mundial do Comércio, o mundo conheceu uma crescente interdependência entre as economias dos diversos países do continente, sem barreiras divisórias.

 

A contraposição destrói a unidade do planeta não só em nível político, mas também em nível econômico - Giuseppe Savagone

 

Isso trouxe vantagens, sem dúvida, das quais talvez seja supérfluo falar, porque estão diante dos olhos de todos, mas também problemas, aos quais a opinião pública muitas vezes deu menos atenção. O mais evidente, do qual se fala muito nestes dias a respeito das fontes de energia, é a dependência que se criou em relação a outros países. Precisamente porque a globalização colocava em segundo plano as divisões políticas e exaltava as vantagens econômicas da interdependência, ela criou situações paradoxais – como a do condicionamento da Alemanha e da Itália pela Rússia em relação ao fornecimento de gás – que eram impensáveis no século passado.

 

Mas há outras sombras não menos relevantes. Pensemos no fenômeno da deslocalização das empresas, que permitiu que os produtores dos países economicamente mais evoluídos transferissem as suas cadeias produtivas para os mais pobres, aproveitando assim a menor proteção que eles garantiam aos trabalhadores, em termos de salários e de direitos, e, consequentemente, menores custos. Daí os lucros elevados e os preços de mercado relativamente baixos.

 

Um fenômeno que, como contragolpe, contou com o enfraquecimento da força de barganha da classe operária nos próprios países ricos e a contenção dos salários. A concorrência de mão de obra a baixíssimo custo beneficiou os produtores, mas desfavoreceu os trabalhadores e tornou muito menos eficazes as reivindicações dos sindicatos.

 

Isso sem falar da transferência da produção e de materiais poluentes que os países do primeiro mundo conseguiram realizar para fora de suas fronteiras, descarregando as desvantagens sobre os do terceiro mundo e, assim, desfrutando das vantagens sem pagar o preço por isso.

 

O que está acontecendo

 

Como Federico Rampini observou no Corriere della Sera de 29 de abril passado, todo esse quadro, com as suas luzes e as suas sombras, está hoje em crise. Na última cúpula do G20, os aliados ocidentais desertaram o discurso do representante russo. E a distância entre a Otan e os seus rivais políticos já está tendo gravíssimas consequências sobre as suas relações econômicas.

 

Como consequência disso, todos tentam recuperar ao máximo uma relativa autossuficiência. Isso também significa que muitas produções terão que ser trazidas de volta para as fronteiras dos seus respectivos países de origem ou pelo menos para as de aliados fiéis. Mas isso reforçará as reivindicações dos operários e dos seus sindicatos. Com o evidente valor positivo de tudo isso, mas também com a criação de novos cenários problemáticos a serem enfrentados.

 

Rampini observa: “Assim como nos anos 1970 – quando o Ocidente ainda produzia em casa uma boa parte dos bens industriais – corre-se o risco de reiniciar uma espiral preços-salários-lucros, alimentada por uma luta implícita entre capital e trabalho pela repartição da renda nacional”. Um papel maior nesse processo de redefinição das respectivas economias certamente será desempenhado pelos Estados.

 

Superados pela globalização no passado recente, eles agora – em um mundo em que as alianças políticas e militares voltam a ser decisivas, substituindo ou pelo menos condicionando as interdependências econômicas – parecem destinados a reconquistar um poder determinante. Eles já o estão tendo ao impor sanções e ao enfrentar as suas consequências.

 

Em suma, a guerra na Ucrânia, para além das suas proporções geográficas, políticas e militares de “conflito local”, está se revelando como uma “guerra mundial” dadas as suas consequências. Mesmo quando acabar, o mundo não será mais o de antes.

 

Não podemos influenciar diretamente no curso desses eventos. Mas podemos pelo menos proteger a nossa dignidade de seres pensantes, tentando entender o que está acontecendo. Porque – devemos nos dar conta disso – isso está acontecendo com todos nós, e não apenas com os ucranianos e os russos. É preciso estarmos ciente disso.

 

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