Papa Francisco e a Igreja sinodal

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03 Mai 2022

 

Na semana passada, foi realizada em Roma uma reunião das comissões do Sínodo sobre a Sinodalidade, que o Papa Francisco convocou para 2023. Foi um encontro para traçar um caminho comum, conversar e começar a concretizar aquele que deve ser um sínodo que dará um novo rosto à Igreja. Um rosto sinodal. Pelo menos, essas seriam as intenções do Papa Francisco.

 

A reportagem é de Andrea Gagliarducci, publicada em Monday Vatican, 02-05-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

De fato, o sínodo mudou relativamente de rosto. Na Praedicate Evangelium, a nova constituição que regula as tarefas e funções da Cúria Romana, o sínodo não é mais definido como Sínodo dos Bispos, mas simplesmente como Sínodo.

 

Portanto, abre-se a noção de que uma reunião sinodal pode ser considerada mais uma assembleia dos fiéis do que um corpo de governo real. Uma ideia alinhada com outro tema central da nova constituição apostólica: a autoridade não é mais dada pela ordenação episcopal, mas pela missão canônica.

 

Portanto, todos podem liderar dicastérios da Cúria e todos podem participar do sínodo. Ele deve ser um encontro o mais aberto possível, uma troca que permita, acima de tudo, levantar ideias sem nunca deixar ninguém de lado.

 

O esforço de quem trabalha na organização do sínodo é considerável. Mas, na prática, trata-se de recolher as diversas contribuições dos cinco continentes, sintetizá-las, enviá-las de volta às Conferências Episcopais e voltar a escutar, para verificar se a síntese é adequada.

 

O Papa Francisco implementa assim aquele que sempre foi um “estado de sínodo permanente”.

 

Desde que o Papa Francisco lidera a Igreja, ele convocou dois sínodos extraordinários, além dos celebrados a cada três anos, e tentou ampliar a base do sínodo convocando reuniões pré-sinodais. Ele queria aprofundar ainda mais a discussão ao lançar esta grande assembleia sinodal por dois anos, que terminará em 2023.

 

Há, no entanto, algumas questões que surgem naturalmente. Será que o Papa Francisco conseguirá ter uma Igreja genuinamente sinodal e da escuta, ou as suas intenções colidirão com uma realidade que ele ajudou a construir?

 

A pergunta não cai do céu. O Papa Francisco não tinha gostado muito, em suas experiências sinodais, das intervenções de Roma sobre os textos, os ajustes necessários, as revisões contínuas. Portanto, talvez em reação a isso, ele fez com que todos os documentos finais publicados em todos os pontos (modi, em latim) desenvolvidos pela sua comissão de redação. Antes, apenas os modi que alcançavam o chamado “consenso sinodal”, 2/3 dos votos, eram publicados.

 

O Papa Francisco queria que todos os pontos fossem publicados e que os votos a favor e contra cada um deles também fossem publicados. O resultado foi uma polarização e o oposto da comunhão que se deveria buscar em um sínodo.

 

Essa polarização levou então ao debate sobre o Sínodo Especial para a Região Pan-Amazônica. O sínodo carregou desde o seu nascimento teorias e ideias opostas. Não houve nenhuma tentativa de síntese nem um desejo genuíno de resolver problemas, mas sim de promover uma agenda.

 

O Papa Francisco foi forçado, na exortação pós-sinodal, a colocar as coisas no seu devido lugar, evitando disputas como a referente aos padres casados, decepcionando muitos.

 

O papa aparentemente usa o sínodo e a discussão mais como seu laboratório do que como um lugar de colegialidade. Com o sínodo, o papa coleta ideias, entende em que direção está indo o senso comum e depois toma decisões que podem ser impopulares, mas que, mesmo assim, garantem que ele não vá longe demais e que não esteja dizendo nada que possa prejudicá-lo.

 

Portanto, uma Igreja sinodal faz parte de uma discussão constante da qual o papa deveria se beneficiar?

 

Se assim for, isso trairia o verdadeiro propósito do sínodo. Seria antes o desenvolvimento de um caminho de um Papa-rei, como o Papa Francisco se comportou em várias ocasiões.

 

Depois, há a questão do Sínodo sobre a Sinodalidade, um nome que parece uma tautologia. No entanto, as comissões do sínodo apontam para uma interpretação diferente. Ou seja: se a Igreja é sinodal, então o sínodo é a vida da Igreja. Portanto, o sínodo não fala de sinodalidade de uma forma autorreferencial; em vez disso, ele diz como a Igreja vive e enfrenta os seus desafios e o modo como ela pode fazer isso envolvendo todo o povo de Deus.

 

Partindo dessa filosofia, compreende-se por que o cardeal Mario Grech, secretário geral do sínodo, propôs na abertura desse caminho sinodal que se avaliasse uma forma diferente de redigir o documento final, talvez sem votações sobre os modi e devolvendo-o às Igrejas particulares, esperando pelas suas emendas antes de publicá-lo.

 

Essas propostas visam a resolver algumas das questões que surgiram, pretendendo fazer do sínodo, senão um órgão de governo real, uma parte essencial da Igreja e um elo entre Roma e a periferia.

 

Será suficiente? É difícil dizer. A abertura sinodal do papa levou a Igreja da Alemanha a iniciar um Caminho Sinodal que visa até mesmo a mudar a doutrina católica, e outros sínodos locais (como na Irlanda e na Austrália) correm o risco de colocar em perigo toda a estrutura da Igreja.

 

O Papa Francisco finalmente abriu a caixa de Pandora intervindo pouco, esperando a opinião de todos sem se expor demais. Como resultado, quem não entende a estrutura da Igreja a ataca, destaca a sua amnésia e os seus erros, e a expõe publicamente.

 

Portanto, toda a diplomacia do papa será necessária para controlar as tentações cismáticas e para construir algo completamente católico.

 

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