Radicalidade da fé e radicalismo do pensamento. Artigo de Giuseppe Lorizio

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21 Mai 2022

 

Terminou na sexta-feira, 28 de janeiro, na Lateranense, o 11º Fórum Internacional promovido pela Pontifícia Academia de Teologia dedicado ao tema “Novos itinerários na teologia: o legado do século XX”. Publicamos o resumo da palestra de Mons. Giuseppe Lorizio sobre “Instância querigmático-kairológica. Radicalidade da fé e radicalidade do pensamento”.

 

Giuseppe Lorizio é professor de Teologia Fundamental da Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma. O texto é publicado por Osservatore Romano e reproduzido por Settimana News, 01-02-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o texto.

 

A teologia ocorre somente após o kairós (tempo favorável) ter acontecido e o kérygma (primeiro anúncio) ter sido proclamado. Se não pretendemos assistir impotentes ao declínio constante da teologia acadêmica que está à vista de todos (talvez o conhecimento teológico possa sobreviver em outras formas), então somos chamados a tomar consciência da necessidade de uma conexão sempre renovada e radical de nosso “teologar” com o momento kairológico e com a atitude querigmática.

Nessa perspectiva, mais do que numa instância, tratar-se-á de pensar um "modelo" teológico elíptico, com os dois focos do kérygma e do kairós, na consciência de que originalmente havia a coincidência das duas palavras no único evento salvífico, em analogia com a coincidência ao nível comunicativo entre medium e mensagem (cf. Marshall McLuhan e Derrick de Kerckhove) - Deus revelans = Deus revelatus (o Deus que revela é o mesmo Deus que se revela). E a Igreja? Ela "em sua doutrina, em sua vida e em seu culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo o que ela é, tudo o que ela acredita" (Dei Verbum, 8).

O kérygma pode ser entendido como “desafio” e como “conforto”, entre o “dialético” (contraposição ao mundo) e o “transcendental” (continuidade com a condição humana). É o legado do século XX, mas também da tentação de sempre e em particular de hoje. Podemos encontrar essas duas sugestivas instâncias em duas representações fílmicas, como Deus não está morto e Não olhe para cima.

 

 

No primeiro filme acolhemos o desafio do jovem estudante crente, evangélico, ao professor ateu sobre a origem do universo, no segundo o conforto do jovem crente em torno da mesa antes da catástrofe, expresso numa sugestiva oração: "Caro Pai e Todo-Poderoso Criador, esta noite pedimos sua graça, apesar de nosso orgulho, o seu perdão, apesar de nossas dúvidas, principalmente, Senhor, pedimos que seu amor nos dê conforto nestes tempos sombrios para enfrentar o que quer que aconteça por sua divina vontade, com coragem e coração aberto à aceitação. Amém".

 

 

Kerygma e Kairós

 

No momento em que teologia e kérygma se afastam, aparecem resultados negativos para ambos: a teologia torna-se estéril, o kérygma violento fundamentalismo. A tarefa da teologia se propõe como salvaguarda do anúncio, tanto de uma deriva literalista-fundamentalista sempre à espreita, quanto do risco de ser reduzido a pieguice consoladora. Mas alguns riscos precisam ser assumidos, pois o risco, na perspectiva de Ulrich Beck, é o que nos separa da catástrofe.

Estamos diante das duas faces do Jesus histórico: "profeta apocalíptico" e/ou "rabi itinerante" (cf. o Jesus de Pier Paolo Pasolini e o Jesus de Franco Zeffirelli: um confronto crítico). Ambas as figuras devem habitar o modelo teológico querigmático-kairológico, mas a primeira acaba prevalecendo sobre a segunda. Esse modelo se parece com uma elipse com dois focos: o querigmático e o kairológico.

O primeiro foco refere-se ao tema fundamental da linguagem, que, no caso da fé e da teologia, deve ser performativa mais que informativa, conforme os ditames da Spe salvi, 2: "Somente quando o futuro é certo como realidade positiva, é que se torna vivível também o presente. Sendo assim, podemos agora dizer: o cristianismo não era apenas uma ‘boa nova’, ou seja, uma comunicação de conteúdos até então ignorados. Em linguagem atual, dir-se-ia: a mensagem cristã não era só ‘informativa’, mas ‘performativa’.

Significa isto que o Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera fatos e muda a vida. "A porta tenebrosa do tempo, do futuro, foi aberta de par em par. Quem tem esperança, vive diversamente; foi-lhe dada uma vida nova". Ao mesmo tempo, será mais "reveladora" do que meramente "comunicativa": “[…] a linguagem não está a serviço da comunicação mundana, mas está a serviço da revelação do Ser. A linguagem, portanto, se entendida corretamente, é um evento revelador, não um evento comunicativo [...]. Essa revelação, porém, não é algo que o sujeito ávido de conhecimento possa produzir por si só” (a concepção da linguagem segundo Walter Benjamin na interpretação de Wolfram Eilenberger). Sem necessariamente querer dialetizar, pode-se considerar que a linguagem da fé só será comunicativa se, em primeiro lugar, for reveladora.

 

O tempo crucial

 

O fogo kairológico chama em causa a questão do tempo e da história. "O significado que o Novo Testamento atribui ao termo kairós nunca aparece tão adequadamente expresso como numa passagem do Evangelho de João (7,3ss), verdadeiramente clássica a este respeito, em que Jesus diz a seus incrédulos irmãos: "Ainda não é chegado o meu kairós (subir a Jerusalém); mas o vosso kairós sempre está pronto"(v. 6)". É "o tempo como um momento significativo e oportunidade propícia a ser alcançados pelo Deus que salva" (cf. A. Marangon). "A palavra, que mais tarde veio a significar o conceito de um momento crucial no tempo, originalmente significava o nock do arco" (cf. N. Frye).

O modelo teológico interpretativo que procuro adotar ao realizar no momento em que exercito esse imenso esforço é o querigmático/kairológico, que, entre outras coisas, chama em causa uma reflexão sobre o tempo, capaz de ir além da perspectiva da historicidade, elaborada ao longo do século XX filosófico e teológico. No verbete "tempo", que me foi confiado pelos editores do Nuovo Dizionario Teologico Interdisciplinare, publicado pelo Dehoniane de Bolonha, escrevi: "Hoje as dimensões do humano, ou até mesmo do pós-humano (esse fantasma que ameaçadoramente paira sobre nós, junto com o do transumanismo) são sempre e em todo caso identificadas, descritas e propostas dentro de um eterno presente, em que o kairós leigo do momento fugaz retira qualquer relação autêntica com o passado e, consequentemente, com o futuro".

E essa perspectiva me parece fecunda também como chave para interpretar as novas formas de retorno ao religioso. Cultivar uma certa nostalgia da diacronia seria igualmente urgente, mas a sincronização com (e do) evento, que aliás chama em causa uma estrutura fundamental do catolicismo, ou seja, a sacramentalidade, não pode ser deixada à mercê de grupos, que talvez fosse melhor chamar de seitas.

No modelo que procuro habitar, a dimensão testemunhal da fé se combina com aquela intelectual: martyria e apologia e neste horizonte o legado do século XX, na chave interconfessional de que estou tratando, é representado por figuras como como as de Pavel Aleksandrovic Florenskij (1882-1937 vítima do gulag stalinista), Edith Stein (1891-1942, mártir em Auschwitz) e Dietrich Bonhoeffer (1906-1945, executado em Flossenbürg). Tentei reunir o seu legado no ensaio "Teologia fondamentale", publicado na obra La teologia del XX secolo. Un bilancio, editada por G. Canobbio e P. Coda, Città Nuova, Roma 2003, I, 391-499).

 

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