No Chile devastado pelos abusos, desmorona a popularidade do papa sul-americano

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10 Janeiro 2022

 

O cardeal Ezzati, não mais eleitor, terá que se defender dos abusos encobertos.

 

A reportagem é de Marco Grieco, publicada em Domani, 07-01-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Ricardo Ezzati, arcebispo de Santiago do Chile, criado cardeal pelo Papa Francisco em 2014, completou 80 anos. E, enquanto as portas do conclave se fecham para ele com o fim da prerrogativa de cardeal eleitor, as do Tribunal de Santiago se abrem.

Figura proeminente da Igreja latino-americana, o purpurado nascido em Vicenza terá que responder, junto com outros membros da ordem salesiana chilena, incluindo Maximiano Ortúzar, Alfonso Horn, os ex-provinciais Natale Vitali Forti, Alberto Lorenzelli Rossi e Leonardo Martínez, pelas acusações de associação criminosa por terem encoberto dezenas de abusos sexuais entre 1973 e 2009.

Os advogados das vítimas definiram isso como um “pacto de silêncio”: “Esse processo também será importante para trazer à tona as responsabilidades das respectivas autoridades eclesiásticas e leigas, percebidas no passado como uma entidade única”, explica o advogado dos abusados, Juan Pablo Hermosilla.

Espera-se um janeiro sombrio para Ezzati, que há exatamente cinco anos apresentou a sua renúncia enquanto se aprofundava a trama da pedofilia em um dos países mais católicos da América Latina.

Dois anos depois de apresentar a sua renúncia, o Papa Francisco o destituiu, e o Tribunal de Apelação de Santiago rejeitava o pedido de arquivamento das investigações sobre outros supostos ocultamentos. Como prova do caráter endêmico dos casos, hoje é possível consultar o mapa elaborado pela Rede de Sobreviventes Chilenos: uma coluna dolorosa em que se amontoam histórias até recentemente submersas, em um total de 360 casos verificados até agora.

 

Associação criminosa

 

Agora, as vítimas exigem que se reconheça a responsabilidade daqueles bispos que, apesar de seu conhecimento, não fizeram nada.

O próprio Papa Francisco admitiu que, na base de tudo isso, há uma conduta de ocultamento e despistagem. Na carta aos bispos chilenos de 2018, o seu mea culpa era seguido pela tomada de consciência de “uma falta de informações verdadeiras e equilibradas”: “Depois de 11 anos de investigações sobre os sacerdotes predadores, nesta fase estamos reconstruindo as responsabilidades de figuras como o cardeal Ezzati e outros bispos chilenos, que não só não denunciaram as violências de que tinham conhecimento, mas também se macularam com o encobrimento, afastando os abusadores de uma paróquia a outra: é o que no jargão chamamos de provocar a fuga”, explica Hermosilla.

A ação legal visa a esclarecer os crimes cometidos na ordem salesiana, mas envolve também figuras importantes do clero chileno. Entre eles, o cardeal Francisco Javier Errázuriz, membro até 2018 do C9, o conselho de cardeais escolhidos pelo pontífice para reformar a Igreja e a Cúria, e Ivo Scapolo, núncio apostólico no Chile quando o Papa Francisco foi para lá em visita apostólica: “Scapolo tinha conhecimento dos abusos, pelo menos dos cometidos por Fernando Karadima. Sabemos disso graças a uma carta que lhe foi enviada pelo cardeal Errázuriz, e também sabemos que já houve denúncias. Tenho certeza de que ele estava ciente disso, enquanto os dois cardeais escondiam os casos, dando a entender, porém, que estavam investigando”, explica Hermosilla.

 

Operatio impunitatis

 

Para Hugo Rivera, advogado de defesa do cardeal Ezzati, as acusações seriam infundadas. Por outro lado, a acusação considera essa posição mais uma prova de uma “atitude de soberba”.

Hermosilla sublinha: “Baseamo-nos em casos de pedofilia que a própria Congregação para a Doutrina da Fé estabeleceu como certos. O que estamos pedindo hoje é que se evite a impunidade, pois, quando um delito não é punido, os crimes podem se repetir”.

Este último é precisamente o dano mais grave: é o que demonstra o caso de Patricio Vela, abusado durante anos pelo sacerdote Cristián Precht, que se suicidou há 24 anos: “O último homem que Vela viu antes de tirar a própria vida foi o seu algoz. Foi necessária a intervenção do Papa Francisco para que Precht fosse removido do sacerdócio, depois que a primeira condenação havia sido uma suspensão do sacerdócio de apenas quatro anos”.

Nos últimos anos, Hermosilla menciona três casos de suicídio entre os seus clientes, enquanto outros tentaram se suicidar: “O último caso data de há duas semanas e diz respeito a um homem atualmente em tratamento em uma clínica com obsessões suicidas. Só podemos imaginar remotamente o que significa ter um mundo interior destruído quando se é criança: que tipo de defesa você tem aos oito anos de idade?”, questiona.

É uma questão moral da qual a Igreja não pode escapar: “Quando a vítima decide denunciar porque continua acreditando que a Igreja pode lhe oferecer ajuda, as autoridades eclesiásticas muitas vezes não ouvem, pelo contrário, riem na sua cara. Quem minimiza os abusos muitas vezes produz um dano psicológico maior do que o próprio abuso sexual”.

 

Um papa impopular

 

Apesar dos expurgos desencadeados ao longo dos anos como um efeito dominó para dezenas de bispos chilenos, a sede de justiça volta seus refletores para a morna incisividade de Francisco no combate aos abusos. O recente ceticismo expressado por Bergoglio sobre o relatório francês da Comissão Sauvé se assemelha muito às suas posições sobre o caso chileno.

Em 18 de janeiro de 2018, pouco antes da celebração eucarística em Iquique, o papa menosprezou diante da imprensa as acusações contra o bispo de Osorno, Juan Barros Madrid, que não teria comunicado as denúncias contra seu mentor, Fernando Karadima: “Vou falar no dia em que me trouxerem as provas contra o bispo”, exclamou Francisco irritado, rotulando-as como calúnia. Barros renunciou alguns meses depois, mas o mal-estar despertado pelo papa nas vítimas também chegou a alguns prelados católicos.

O arcebispo de Boston, cardeal Seán Patrick O’Malley, se distanciou oficialmente das palavras do papa, e fontes vaticanas afirmam que – ao contrário do que disse oficialmente – o cardeal estadunidense correu ao Peru para convidar o papa a se arrepender das palavras proferidas alguns dias antes em Santiago do Chile: “As palavras do papa transmitem a mensagem de que, se você não puder provar as suas afirmações, você não será acreditado”, dizia o comunicado oficial da Arquidiocese de Boston.

Assim, no voo de volta, Francisco se corrigiu: “Ouvir o papa dizer na cara deles: ‘Tragam-me uma carta com a prova’, é uma bofetada. E agora me dou conta de que a minha expressão não foi feliz, porque eu não pensei nisso”.

Alguns meses depois, Hermosilla acompanhava as vítimas de abusos que o papa acolheu no Vaticano: “Acredito que o papa não sabia de tudo, porque quem o informou foram os bispos chilenos. No entanto, apesar do seu poder, creio que ele fez pouco: ou ele não tem todo o poder que pensa ter, ou não tem a determinação que se imagina. Deve ser um dos dois, porque, quando as provas são tão claras, é um mistério que ele tenha feito tão pouco”, admite.

Resta o paradoxo de que as expectativas depositadas no primeiro papa latino-americano, o próprio Bergoglio, artífice da teologia do povo, não só não frearam a hemorragia de fiéis no país que, às vésperas do golpe militar de 1973, contava 80% de católicos, mas também permaneceram como um eco vazio, apesar das cúpulas e das palavras.

 

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