29 Junho 2021
Um cego recebeu de presente os olhos: ele imediatamente pediu para ter também as sobrancelhas. A Geórgia é uma república caucasiana com capital Tbilisi. A Bíblia foi traduzida para sua língua, a partir do século V, em códigos importantes. O que propusemos é um curioso aforismo georgiano. A sua contundência é indiscutível e diz respeito a um defeito que todos carregamos conosco e que nos torna insaciáveis. Queremos, exigimos, pretendemos, reclamamos, pedimos sem parar, como se tudo nos fosse devido.
O comentário é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, publicado por Il Sole 24 Ore, 27-06-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.
A insatisfação nem sequer nos permite usufruir o que obtivemos porque, logo a seguir, estamos prontos a protestar porque queremos outra coisa. Este é um vício que diz respeito não só à posse, mas também à inteligência: gostaríamos de compreender e resolver tudo. Diz respeito à própria vida: se temos uma dor, nos queixamos; se passa, a serenidade nos parece pouco; se estamos sozinhos, gostaríamos de uma presença; quando temos uma pessoa ao nosso lado, ficamos entediados. A ladainha poderia continuar indefinidamente.
Não conhecemos o gosto da simplicidade, do pouco, da sobriedade, da essencialidade, de nos contentarmos até das pequenas coisas e da cotidianidade. O poeta russo Sergej Esenin escreveu em sua obra póstuma O Homem Negro (1926): “Mostrar-se simples e sorridentes é a arte suprema do mundo”. Viver com simplicidade gera paz interior, liberta de tensões incessantes, e se torna um dos dons mais preciosos da existência.