“José é do tipo forte e silencioso”. Entrevista com Leonard J. DeLorenzo, autor de novo livro sobre a Ladainha de São José

São José reproduzido na obra de Mariotto Di Nardo | Fonte: Museu do Vaticano - Vatican Media

29 Mai 2021

 

“Penso sobre a crise da masculinidade em nossos dias e nossa época. Certamente, São José não é um santo apenas para os homens, assim como Nossa Senhora não é apenas uma santa para as mulheres. Mas como as duas opções para a masculinidade nas últimas décadas parecem ser masculinidade tóxica ou o apagamento da masculinidadeJosé nos mostra como essa dicotomia é falsa”, afirma Leonard J. DeLorenzo, nesta entrevista em que conta sobre as motivações e reflexões ao escrever seu novo livro “Model of Faith: Reflecting on the Litany of Saint Joseph” (“Modelo de Fé: refletindo sobre a Ladainha de São José”, em tradução livre. Ed. OSV, 2021), assim como este pode ajudar a rezar a Ladainha neste Ano dedicado a São José.

 

Leonard J. DeLorenzo, Ph.D., é diretor de planejamento estratégico da Sullivan Family Saints Initiative, de estudos de graduação no McGrath Institute for Church Life na Universidade de Notre Dame, onde também é professor do Departamento de Teologia. O autor de sete livros e editor de outros três, as mais recentes publicações de Leonard são: “Into the Heart of the Father: Learning from Giving Yourself through Christ in Prayer ”(Ed. Word Among Us, 2021) e dois volumes separados para formação de fé: “Turn to the Lord: na Inivitation to Lifelong Conversion na Turn to the Lord: Forming Disciples for Lifelong Conversion” (Ed. Liturgical Press, 2021).

 

A entrevista é de Charles Camosy, publicada por Crux, 24-05-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis a entrevista.

 

Este é o ano de São José, por isso estou certo que não foi acidental você escrever um livro sobre a Ladainha de São José. Mas o que mais o motivou a escrever um livro como esse?

Em um livro anterior, eu compus reflexões teológicas e espirituais sobre 20 questões que Jesus faz nos Evangelhos (A God who questions, OSV). Essa foi uma abordagem renovadora e revigorante para mim, porque cada reflexão sobre as questões era um capítulo e o livro convidava os leitores a pararem para contemplar essas cenas do Evangelho em profundidade e com criatividade. Esse livro foi como um trabalho devocional.

O novo livro sobre a Ladainha de São José não é apenas “como” um trabalho devocional – é um trabalho devocional. A mesma editora – OSV – perguntou-me se eu estaria interessado em ajudar as pessoas a refletir e a rezar com essa ladainha, e eu aproveitei a oportunidade. Para mim, como autor, senti como um grande alimento espiritual dar um tempo da minha vida a um título ou honra a José, e então escrevendo uma breve reflexão para cada um. Em reflexões para cada um dos 22 títulos e honras de José na Ladainha, eu quis prover aos leitores a oportunidade de relaxar e entrar em profunda meditação sobre esse grande santo, enquanto permitem suas próprias imaginações e criatividades para agarrar sua beleza em uma nova forma.

Ao escrever este livro, eu estava respondendo ao convite do Santo Padre para dedicarmo-nos a São José, ao convite da OSV e ao meu próprio amor aos temas mais devocionais para leitura e oração.

Eu tenho tentado rezar a Ladainha de São José semanalmente – frequentemente com a ajuda do youtube, eu estou envergonhado de dizer – durante esse ano, e como eu tenho dito, recomendo muito isso. Para aqueles que estão interessados em rezar essa oração de uma forma melhor e mais informada eu também recomendo que leiam o seu livro. Que outras estratégias você pode recomendar para desenvolver o hábito de rezar a Ladainha de São José?

Eu penso que a coisa mais importante é diminuir o ritmo. São José é um homem de paciência. Ele é um homem de prudência. Ele esperou sob a Palavra de Deus e então agiu. Diminuindo o ritmo, rezando essa ladainha pensativamente e intencionalmente, nós não apenas nos permitimos habitar com os mistérios que José guardou a si, mas também praticar para se tornar mais como José era: paciente, prudente, obediente.

Eu realmente gosto de completar as coisas. Eu realmente odeio coisas incompletas. Isso me leva a apressar livros frequentemente, especialmente com um livro pequeno como este. Mas eu penso que o livro por si pode nos ajudar a desenvolver uma forma mais sincera de rezar a Ladainha de São José se nós exercitarmos a disciplina de ler uma reflexão por vez. Por isso, eu penso que seria uma boa prática rezar a Ladainha de São José a cada dia, então ler apenas um ou talvez dois desses capítulos por dia, como uma forma de enriquecer nossa oração e reflexão. Para alguém como eu, essa abordagem me cura do desejo de apressar a completude. A chave aqui não é completar, mas contemplar.

 

Falando em questão de séculos, a devoção realmente forte a São José é uma coisa relativamente nova na Igreja, não? Por que você pensa que tal devoção tenha aumentado com o tempo e particularmente se intensificado em nossos dias?

Sabemos muito bem que nenhuma palavra de São José está registrada nas Escrituras. Nesse aspecto, ele é um santo silencioso – “o tipo forte e silencioso”, como as pessoas gostam de dizer. Eu pensei um pouco sobre isso e percebi que há um significado espiritual para esse fato sobre José. Ele não chama atenção para si mesmo. Talvez mais do que qualquer outro santo “conhecido”, precisamos de alguém que nos apresente a José precisamente porque há muito pouco que chamaria nossa atenção de outra forma. Ele não fala por si mesmo. Eu me pergunto se a devoção relativamente nova a São José tem algo a ver com isso: precisamos de um bom tempo para aqueles que primeiro descobriram um amor por José apresentarem o resto de nós a este grande santo.

Santa Teresa de Ávila clamou José como seu patrono especial. Santo André Bessette orava a José constantemente. Grandes santos como esses sabem o que é bom para nós. São eles que atraíram todos nós da Igreja (ou talvez fora da Igreja) a confiar as nossas necessidades e preocupações à intercessão de São José.

Também penso sobre a crise da masculinidade em nossos dias e nossa época. Certamente, São José não é um santo apenas para os homens, assim como Nossa Senhora não é apenas uma santa para as mulheres. Mas como as duas opções para a masculinidade nas últimas décadas parecem ser masculinidade tóxica ou o apagamento da masculinidade, José nos mostra como essa dicotomia é falsa. É uma escolha falsa. Aqui está um homem que foi terno o suficiente para manter a ternura da Mãe de Deus, e forte o suficiente para proteger a Sagrada Família, mesmo contra um tirano sanguinário e mesquinho (o pior tipo). Aqui está um homem que enfrentou as incertezas mais significativas com paciência e não agiu precipitadamente, mas quando a clareza surgiu, ele não hesitou em agir com decisão. Acima de tudo, ele não procurou governar sua própria vida ou a vida de outras pessoas. Em vez disso, ele era um servo e amigo de Deus, confiando em Deus para guiá-lo. Ele é digno de ser um pai para os órfãos e um amigo para os solitários. Sua masculinidade não é ameaçadora nem branda. Ele é ousado e belo. Precisamos disso em nosso mundo hoje mais do que nunca.

 

Ok, vamos mergulhar no livro. Basicamente, cada capítulo enfoca uma linha da própria Ladainha. “Fiel Guardião de Cristo”, “Esperança dos Doentes”, etc. Você teve algum capítulo em particular que o surpreendeu quando você mergulhou nele? Ou um capítulo com uma visão que realmente chamou sua atenção?

Fiquei especialmente comovido ao considerar José como a “Esperança dos Doentes”. Pense nos tempos em que vivemos. Será que todos nós não procuramos por mais e mais esperança em meio a doenças que crescem e todos os seus efeitos? Pois bem, aqui está um santo que tinha nos braços aquele que cura todas as doenças. Certa vez, uma mulher tocou na orla da vestimenta de Jesus e foi curada de uma doença que a afligia havia doze anos. Tudo o que ela fez foi tocar o manto. Agora pense em José: ele não era apenas um pedaço de pano inanimado pendurado em Jesus; em vez disso, ele amava Jesus com um amor de pai. Ele o segurou dia após dia quando criança. Ele o confortou em tempos difíceis. Ele o tranquilizou na escuridão. Ele acolchoou Jesus enquanto dormia. Se aquele pedaço de pano foi um instrumento de cura apenas porque tocou Jesus, quanto mais José será um instrumento de cura para todos os que estão doentes, pois José envolveu seus braços em torno de Jesus diariamente e o banhou com devoção paternal.

 

Uma das linhas mais sérias e poderosas da Ladainha é “Patrono dos Moribundos”. Que sabedoria e percepção esse tipo de devoção a São José oferece a uma cultura que nega a morte como a nossa?

Há um mural na Basílica do Sagrado Coração no campus da Universidade de Notre Dame que retrata José em seu leito de morte, com Maria e Jesus cuidando dele em ambos os lados. Essa imagem está constantemente diante de meus olhos sempre que considero José como o “Padroeiro da Boa Morte”.

Alguém já teve mais pelo que agradecer e mais pelo que lamentar sua própria morte do que São José? Ele sozinho foi chamado para ser um pai para o Filho de Deus e marido da Mãe de Deus. Ao lado de sua esposa, ele derramou sua vida nesta criança. Ele deve ter brilhado com aquele orgulho especial que só um pai pode saber quando ele se sacrificou uma e outra vez por amor a seu filho, e ele não hesitaria em fazer tudo de novo mil vezes. E, no entanto, José morre antes de ver seu amado Jesus em pleno florescimento, agora seu próprio homem, saindo para fazer o trabalho de sua vida: a vontade de seu Pai. Acho que José deve ter ficado cheio de gratidão e tristeza em seu leito de morte: gratidão pelos dons que ele recebeu e o papel que ele desempenhou sozinho, e tristeza por ter se separado de seu filho, de sua esposa e desta vida que ele amava.

José é o “Patrono dos Moribundos” porque ele sabe a beleza da morte cristã, a qual é encontrada tanto em gratidão e tristeza. Mas essas ao mesmo tempo. Acima de tudo, no entanto, José conhece e ama aquele a quem nós devemos dirigir nossa gratidão, ele e sempre leva-nos a Ele. E José sabe quem nos acolhe em nosso sofrimento e enxuga cada lágrima de nossos olhos, quem nos coloca um fim à morte. Eu penso que nós todos tememos que, no final, morreremos sozinhos. Mas essa imagem de Jesus e Maria segurando José em seu leito de morte nos mostra que mesmo nossa morte esteve presumida no mistério da Encarnação. Nós podemos ser tanto gratos quanto tristes porque nós não estamos sozinhos. Cristo está conosco em nossa morte, e a Mãe Santíssima reza por nós na hora de nossa morte, e José, quem também esteve ali, é o sinal da nossa esperança cristã.

 

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