Renovar a moral cristã. Artigo de Giannino Piana

Foto: Pixabay

13 Abril 2021

A importância do tema e a autoridade do escritor guiaram o blog Moralia, da revista Il Regno, 07-04-2021, a acolher um breve estudo do Prof. Giannino Piana sobre a mensagem do Papa Francisco por ocasião do aniversário alfonsiano – quase um manifesto do que a reflexão moral pode e deve ser hoje.

Piana é teólogo italiano, ex-professor das universidades de Urbino e de Turim, na Itália, e ex-presidente da Associação Italiana dos Teólogos Moralistas.

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o artigo.

Por ocasião do 150º aniversário da proclamação de Santo Afonso Maria de Ligório, doutor da Igreja, o Papa Francisco enviou ao Pe. Michael Brehl, superior geral da Congregação do Santíssimo Redentor e moderador geral da Academia Alfonsiana, uma importante mensagem.

Nela, referindo-se ao testemunho do santo, ele ilustra algumas diretrizes fundamentais que a teologia moral e a ação pastoral devem assumir, se pretendem corresponder, na fidelidade à proposta do Evangelho, às exigências da situação sociocultural atual e às perguntas do homem e da mulher contemporâneos.

O documento, que tem uma clara orientação pastoral, não deixa de evocar a figura e a obra do santo, acima de tudo, evidenciando a estreita conexão existente entre a sua doutrina, o seu compromisso apostólico e a sua límpida adesão aos ditames evangélicos transferidos com rigor para a vida cotidiana.

O que emerge transversalmente a partir de todos esses âmbitos e que representa a linha de continuidade entre eles é, por um lado, a capacidade de escuta da realidade, de se deixar interpelar pela vida – neste sentido, Santo Afonso não pode ser qualificado nem de laxista, nem de rigorista, mas de realista –; e, por outro, a abordagem misericordiosa às diversas situações existenciais, sem renunciar, por isso, a anunciar com coragem, em toda a sua radicalidade, a mensagem do Evangelho.

 

Uma ética a serviço da consciência

 

A preocupação a partir da qual Santo Afonso se move e que constitui para o Papa Francisco o fim mesmo da moral cristã é a de oferecer um serviço à consciência, privilegiando a acolhida das fragilidades, tanto materiais quanto espirituais, que mais precisam de ser sustentadas e às quais é preciso oferecer um caminho gradual de crescimento rumo ao ideal da perfeição cristã.

Segundo o papa, essa perspectiva também deve ser perseguida hoje. O método sugerido pelo santo conserva formalmente uma viva atualidade, embora deva ser evidentemente atualizado, levando em séria consideração as profundas mudanças ocorridas neste longo período de tempo.

A atualização da mensagem pressupõe, acima de tudo, a adesão a um dos princípios fundamentais que o Papa Francisco colocou, desde o início, na base do seu ensinamento e do seu ministério pastoral, ou seja, a afirmação de que “a realidade supera qualquer ideia” (cf. Evangelii gaudium, n. 231), e que, portanto, a teologia moral não pode (e não deve) se deixar encapsular em um tecido de princípios e de normas, por mais importantes que sejam, mas deve se encarregar da realidade de maneira propositiva.

Isso pressupõe um conhecimento que se torne “prática” – a ética tem a ver, por definição, com a práxis – e que assuma como referência o princípio da opção preferencial pelos pobres; em outras palavras, que coloque em primeiro plano a condição dos pobres, fazendo com que ela se torne um verdadeiro critério hermenêutico.

A atenção à realidade, porém, não significa renunciar a fazer valer, tanto no momento do exercício do juízo quanto no da orientação do agir, um quadro de valores preciso e hierarquicamente ordenado, e, sobretudo a ter uma orientação de fundo, que defina o modelo de ética no qual o católico deve inspirar a sua própria conduta.

Tal orientação e tal modelo encontram expressão concreta na capacidade de fazer interagir, em uma dialética construtiva, a radicalidade do Evangelho com a fraqueza humana e, portanto, com a prática constante da misericórdia. É como dizer que as exigências do Evangelho, às quais é preciso se referir constantemente como meta obrigatória – as “bem-aventuranças” e os “mas eu vos digo” do Sermão da Montanha (cf. Mt 5) não são conselhos piedosos para uns poucos eleitos, mas constituem o conteúdo normativo da mensagem moral cristã, que vale para qualquer pessoa que pretenda se colocar no seguimento de Jesus –, devem poder se compor com a consciência do limite (e da fragilidade humana) em busca de um equilíbrio dinâmico (e a ser sempre renovado).

Isso pressupõe que o ideal de perfeição evangélica seja proposto como norma escatológico-profética, como objetivo sempre que está sempre “à frente” e “além”, e que envolve um esforço de mediação a ser posto em ação nas diversas situações e nas várias vivências pessoais, buscando modalidades eficazes (mesmo que sempre parciais) de aproximação a ele, sem afrouxar a necessária tensão na sua busca, mas também sem criar sentimentos de culpa, gerados pela medição da distância entre aquilo a que somos chamados e a pobreza das metas alcançadas; sentimentos destinados a provocar, consequentemente, formas de desencorajamento e de encurvamento paralisantes.

O tema da misericórdia e do perdão, que é um traço fundamental da pregação e da ação de Jesus – ele se dirige predominantemente aos pecadores e não aos justos –, permite aquela pacificação consigo mesmo que, longe de se traduzir em passividade e inação, torna-se um estímulo a uma permanente metanoia (conversão).

O exemplo de Santo Afonso, a esse respeito, também é eloquente. Embora aderindo à tradição casuística do seu tempo, ele não hesita em colocar em estreita relação a teologia moral com a teologia espiritual, concebendo a primeira como o ponto de partida da vida cristã – um limite além do qual não se pode ir –, e a segunda, como o seu pleno cumprimento.

Enfim, o documento papal indica a necessidade da superação de uma ética individualista, que – não podemos nos esquecer – predominou na modernidade, mesmo no quadro da tradição cristã (a própria “doutrina social” da Igreja era extrínseca e justaposta à moral), e a adoção de uma perspectiva social e comunitária com a assunção de responsabilidades precisas tanto em relação à sociedade civil quanto à Igreja.

A solicitação é a dar origem a uma reflexão moral que coloque o bem comum no centro do seu compromisso, para criar condições favoráveis de vida qualitativamente digna para a humanidade inteira e que, do lado eclesial, seja eficazmente aplicada para aumentar a comunhão dos santos, o traço (talvez) mais qualificador da moral cristã.

 

Uma pastoral missionária

 

As indicações metodológicas e as orientações de fundo oferecidas pelo Papa Francisco refluem imediatamente sobre a ação pastoral. O convite do pontífice aqui (como aliás em muitos outros documentos anteriores) é a assumir uma pastoral missionária, que afunda as suas raízes em um dinamismo evangelizador capaz de agir por atração.

Trata-se de sair dos gargalos de um conformismo que infelizmente ameaça também o anúncio cristão ou da abstração de uma proposta dirigida às chamadas “belas almas”, para ir às periferias não só materiais, mas também espirituais da humanidade, oferecendo uma mensagem centrada na possibilidade do resgate.

A lógica na qual é preciso inspirar a própria ação – teólogos, confessores e leigos preocupados em testemunhar a verdade do Evangelho – é a da encarnação e da cruz. A imersão profunda no humano, não excluindo as suas contradições e as suas fraquezas – o próprio Jesus percorreu esse caminho, assumindo sobre si até a miséria humana e fazendo-se pecado, ele que era totalmente inocente – exige a disponibilidade a não desprezar o confronto com o abismo do mal presente no mundo com uma atitude de verdadeira piedade por quem está nele envolvido, ajudando tais pessoas a se levantarem de novo graças à garantia do perdão.

Já a acolhida do mistério da cruz obriga a lutar contra todas as formas de autojustificação, de meritocracia, de competitividade e de adesão à lógica do mais forte para levar a sério a derrota e a morte, que, porém, não são a última meta, mas recebam a sua luz da glória do Ressuscitado e da promessa de participar um dia da sua condição.

A epidemia da Covid-19 com a qual ainda convivemos – o texto do Papa Francisco nos lembra disso –, junto com todos os efeitos negativos que bem conhecemos, representa um desafio à maturidade da consciência, fazendo-nos tocar com as mãos e de forma inequívoca a nossa precariedade, derrubando o muro da presunção prometeica e a ilusão de uma confiança radical na revolução técnica e levando-nos a reconhecer a ambivalência de toda realidade humana, o limite de toda forma de progresso e a exigência de assumir a atitude da humildade, procurando, em todas as situações, a escolha do bem.

A teologia não pode fugir deste momento histórico particularmente favorável, não tanto para alavancar a fraqueza humana – todos nós lembramos o convite de Bonhoeffer a fugir de um “Deus tapa-buracos” –, mas para olhar corajosamente para a frente no sinal da esperança.

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