Autoridade e credibilidade em tempos de redes sociais. Entrevista com Dario Edoardo Viganò

Foto: Pixabay

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

04 Janeiro 2021

“É indispensável que a Igreja reafirme a sua autoridade também nos contextos digitais, a partir da credibilidade.” O Mons. Dario Edoardo Viganò, vice-chanceler da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, publicou recentemente o livro “Testimoni e influencer” [Testemunhas e influenciadores] (EDB), no qual repassa a história da relação entre a Igreja e a autoridade desde as suas origens até o tempo das mídias sociais.

A reportagem é de Riccardo Benotti, publicada em Settimana News, 27-12-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Como a autoridade da Igreja antiga mudou até a pós-conciliar?

As primeiras comunidades cristãs surgiam graças à pregação de um apóstolo, que era considerado uma figura de referência credível e, por isso, uma autoridade reconhecida por toda a comunidade. Para orientar o povo, os apóstolos se valiam da ajuda de colaboradores locais e dos anciãos: eram os episkopoi (supervisores) e os presbyteroi (anciãos). As comunidades cristãs das origens, portanto, eram organizadas com base em um modelo sinagogal que se expressava no conselho dos anciãos. O exercício da autoridade tinha como elemento constitutivo e critério de compreensão a celebração eucarística celebrada em cada comunidade: quem presidia a eucaristia era a mesma pessoa que guiava a comunidade, portanto se trata de uma autoridade ligada sobretudo à fé e aos costumes.

Quando se começou a falar de bispos e padres em um sentido mais próximo ao de hoje?

Entre a segunda metade do século II e o início do século III. Na Igreja antiga, a autoridade se afirmou gradualmente e se ampliou progressivamente sobretudo de três maneiras: por meio da promulgação de leis pelo bem da Igreja, por meio da justiça e por meio da correção dos erros.

O que aconteceu depois do Concílio Vaticano II?

Para a Igreja, a primeira autoridade é a Escritura, e a Igreja, com a sua interpretação, deve continuar buscando o verdadeiro sentido dos textos, deixando-se guiar pelo Espírito Santo para superar os limites impostos pelos diversos gêneros literários.

Com o Concílio, reforça-se a ideia de que a autoridade que a Igreja exerce deve ser entendida como participação na autoridade de Cristo.

Portanto, a autoridade de Cristo é participada pela Igreja com vistas ao cumprimento da sua própria missão, que é a dar testemunho da revelação de Deus. Em particular, a Igreja, no seu conjunto, exprime a sua própria autoridade ao dar testemunho da verdade de Cristo morto e ressuscitado.

O respeito que a sociedade atribuía à autoridade do clero, porém, foi se perdendo com o tempo. Por quê?

Os motivos são múltiplos, mas não devemos esconder a contribuição dada pelo empobrecimento cultural do clero. Até o fim dos anos 1960, o nível dos padres representava para o país um acesso ao saber e aos direitos. A credibilidade intelectual do clero no atual sistema universitário e de preparação profissional restringiu-se em quase todos os casos ao âmbito teológico, pelo qual, aliás, a sociedade mostra cada vez menos interesse.

Uma instituição bimilenar como a Igreja Católica pode continuar tendo autoridade mesmo em um mundo em que são as mídias sociais que ditam a agenda?

As mídias eletrônicas, primeiro, e o desenvolvimento das redes sociais, depois, no contexto da passagem da sociedade burguesa do século XIX para a sociedade das massas do século XX, modificaram significativamente os processos que levam à credibilidade. A Igreja também se insere neste processo, pois, embora tendo origem e finalidade distintas das instituições e das empresas, ela representa uma organização dotada de autoridade de tipo espiritual. Nesse sentido, é bastante difícil reativar as formas clássicas da relação “vertical” em um ambiente caracterizado por um modelo comunicativo horizontal, reticular e socializado.

A autoridade da Igreja pode encontrar um lugar entre os influenciadores da rede?

Inicialmente, os primeiros grandes influenciadores foram as celebridades, que conseguiam capitalizar na web a visibilidade conquistada em outros âmbitos. Agora, estamos assistindo à atualização contínua da lista dos “top tem” influenciadores: superusuários que são capazes de se dirigir a um target de maneira convincente. Mas atenção: se é verdade que há situações nas quais a credibilidade e a autoridade são reconhecidas a uma pessoa, não é evidente que isso, mesmo por questões numéricas, possa se transformar em um reconhecimento social e público, e possa levar a uma mudança de opinião.

Da mesma forma, não é evidente que quem está em uma condição de incidir em opiniões e atitudes públicas seja necessariamente credível, ou seja, goze de uma reputação compartilhada. Acho que é indispensável, portanto, que a Igreja reafirme a sua autoridade também nos contextos digitais a partir da credibilidade. Por outro lado, é o caminho indicado pelo Papa Francisco: “Enquanto estamos no caminho para Jerusalém, o Senhor caminha à nossa frente, para nos lembrar mais uma vez que a única autoridade credível é aquela que nasce do fato de se pôr aos pés dos outros para servir a Cristo”.

  • Dario Edoardo Viganò. Testimoni e influencer. Chiesa e autorità al tempo dei social. Bolonha: EDB, 2020, 120 páginas.

 

Leia mais