“A política colocada ao serviço do verdadeiro bem comum”, uma urgência diante das eleições municipais

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09 Novembro 2020

"A Igreja do Brasil convida o povo brasileiro a trilhar esses caminhos; agora cabe a cada um tomar consciência da necessidade de fazer realidade a política necessária para o tempo atual", escreve Luis Miguel Modino, padre espanhol e missionário Fidei Donum. 

Eis o artigo.

No próximo domingo, 15 de novembro, a sociedade brasileira está convocada a eleger seus prefeitos e vereadores para os próximos quatro anos. A participação responsável no processo eleitoral é um chamado que a Igreja do Brasil, através dos seus bispos, faz “nesse tempo de profunda crise social, econômica, política e ética que atravessa o Brasil”. Diante da crescente desvalorização da política, o povo brasileiro é chamado a que se concretize “a política melhor, a política colocada ao serviço do verdadeiro bem comum”, como nos lembra Fratelli Tutti, 154.

No Brasil, onde a polarização política tem se instalado na vida do dia a dia, auspiciada por um presidente da República empenhado em provocar enfrentamentos que desviem o foco dos verdadeiros problemas do país, cada vez maiores e mais graves, o processo eleitoral se torna de grande importância. Ele é um claro exemplo de que a política se limita a “receitas efêmeras de marketing cujo recurso mais eficaz está na destruição do outro” (FT 15). No momento atual, o voto consciente tem um papel decisivo no futuro dos 5.564 municípios do país, que em muitos casos são os gestores principais dos recursos públicos, algo decisivo neste tempo de pandemia, onde a corrupção, instalada em todos os níveis, inclusive no círculo mais próximo do presidente, tem aparecido como algo ainda mais evidente.

A mensagem da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, com motivo das eleições municipais, “realizadas em meio a uma grave crise sanitária, com números estarrecedores de mortes e adoecimentos”, mostra o que é a política, “o conjunto de ações pelas quais se busca uma forma de convivência entre indivíduos, grupos e nações que ofereçam condições para a realização do bem comum”, o que exige a participação do laicato, sempre entendendo que “a política é vocação de serviço”, como tem afirmado o Papa Francisco.

Muitas vezes, os cargos públicos respondem aos interesses de grupos particulares, algo que é lembrado na Fratelli Tutti: “desta forma, a política torna-se cada vez mais frágil perante os poderes econômicos transnacionais que aplicam o lema ‘divide e reinarás’”. É por isso que os bispos lembram seu “dever de contribuir com ações eficazes, nos campos da saúde, educação, segurança, transporte, assistência social, moradia, direito à alimentação e proteção da família, entre outros”, assim como o compromisso com a vida. A mensagem se posiciona contra “políticas públicas que favoreçam o aborto, fazendo campanha eleitoral com discursos de ódio, defendendo o uso da violência, o recurso às armas e se atrelando ao tráfico de drogas e às milícias”, lembrando a necessidade de tomar postura “diante da morte de pessoas e das graves feridas do meio ambiente”.

Uma preocupação presente na mensagem episcopal é “o uso de notícias falsas”, uma prática muito comum no mundo virtual. Junto com isso, não é aceitável “o uso interesseiro da religião e de discursos religiosos oportunistas”, que “perverte o sentido e o autêntico valor das tradições religiosas. Serve apenas a interesses particulares e de grupos políticos”. Os bispos pedem “a aplicação das Leis da Ficha Limpa e da Compra de Votos, conquistadas com a efetiva participação da Igreja”, assim como que “a comunidade eclesial se organize para acompanhar os mandatos dos eleitos e eleitas”.

Nesse acompanhamento, a Igreja do Brasil conta com as escolas de Fé e Política e as Comissões Justiça e Paz. Também nos deparamos com experiências como o Comitê do Amazonas de Combate à Corrupção e ao Caixa Dois Eleitoral. A arquidiocese de Manaus é uma das entidades que participam do comitê, que elaborou um folder para ser distribuído em diferentes espaços, também nas paróquias e comunidades. Numa breve apresentação, o folheto mostra a necessidade de promover o bem comum, um conceito presente na Doutrina Social da Igreja. O texto convida os votantes a analisar a vida do candidato, conhecer qual é a função do prefeito e do vereador e quais deveriam ser os elementos a ter em conta na hora de votar num candidato.

Aos poucos, a gente vê que aparecem elementos que até agora não eram colocados entre aquilo que deveria ser assumido pelo candidato, como é que “seja zeloso na preservação do meio ambiente”. Após a encíclica Laudato Si´, um aspecto aprofundado no Sínodo para a Amazônia, o cuidado da casa comum tem se tornado um elemento cada vez mais importante. A mesma coisa podemos dizer de cuidado dos povos indígenas, concretamente das escolas indígenas. Esses elementos se unem a tudo o que tem relação com a corrupção, prestação de contas do mandato, preocupação com os mais pobres, políticas públicas de qualidade para habitação, saneamento e transporte, ou promoção de emprego.

Num tempo em que o virtual tem aparecido como elemento cotidiano na vida do povo, isso também tem aparecido na campanha eleitoral. Também o trabalho do Comitê do Amazonas de Combate à Corrupção e ao Caixa Dois Eleitoral tem sido enfocado nesse sentido. Ao longo desse tempo de campanha tem sido realizado webinars que tem mostrado a realidade social brasileira, seguindo as análises de conjuntura desenvolvidas pela CNBB, e o que as eleições significam na vida do povo, ainda mais no momento atual. No dia da eleição, os membros do comitê vão acompanhar os trabalhos no Tribunal Regional Eleitoral, fiscalizando como está procedendo a eleição.

É tempo de que “a sociedade se oriente para a prossecução do bem comum e, a partir deste objetivo, reconstrua incessantemente a sua ordem política e social, o tecido das suas relações, o seu projeto humano” (FT 66). Hoje, mais do que nunca, especialmente se queremos superar este tempo de grave crise que a pandemia tem trazido à tona, “é necessária a política melhor, a política colocada ao serviço do verdadeiro bem comum” (FT 154). O Papa Francisco tem nos falado isso muitas vezes, a Igreja do Brasil convida o povo brasileiro a trilhar esses caminhos, agora cabe a cada um tomar consciência da necessidade de fazer realidade a política necessária para o tempo atual.

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