Que reforma da Igreja deseja Francisco? Dúvidas e textos em vista da nova Encíclica

Papa Francisco em celebração durante assinatura da nova encíclica no túmulo de São Francisco de Assis | Foto: Vatican Media

05 Outubro 2020

"As 'novas' características de Francisco são de ser o primeiro papa 'filho do Concílio', o primeiro papa 'não europeu' e o primeiro papa jesuíta. Portanto, é justo dizer que o magistério do Papa Francisco se ressente não apenas de suas características genealógicas e geográfico-culturais específicas, mas também de sua identidade jesuíta, mas não é correto julgar o papa apenas como se ele fosse antes de tudo um jesuíta. O papa 'não europeu' e 'filho do Concílio' tem, além das características de jesuíta, também aquelas de quem retoma a 'índole pastoral' com que foi inaugurado o Concílio Vaticano II", escreve Andrea Grillo, teólogo italiano e professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em artigo publicado por Come Se Non, 03-10-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo. 

 

À medida que se aproxima o dia 4 de outubro, quando será divulgada a nova encíclica "Fratelli tutti", cresce no debate eclesial e ganha autoridade uma leitura do pontificado, em que a Reforma da Igreja é identificada - e substancialmente reduzida - à "conversão do coração". Uma interpretação superabundante do perfil jesuíta do Papa Francisco tende a concentrar toda a atenção no lado espiritual, interior e de consciência de sua ação pastoral. Certamente, uma reforma da Igreja que não se fundamente numa profunda mudança espiritual da consciência e que não seja capaz de meditação e discernimento orante seria totalmente vã.

 

Mas o contrário é igualmente verdadeiro: seria completamente vazio pensar numa reforma da Igreja que não se preocupasse com as mediações das instituições, sacramentos, ministérios, linguagens e sensibilidade, em toda a sua exterioridade. Talvez a tentação de voltar o olhar apenas para a dimensão interior resulte das dificuldades que a Igreja vive quase cotidianamente no plano institucional: escândalos, inadequações, atrasos apresentam-se repetida e dolorosamente diante da atenção comum. Mas, justamente diante dessas manifestações de fragilidade do sistema, é necessário não cair em formas ingênuas de fuga e remoção. Um projeto de reforma que não assumisse o lado institucional como mediação decisiva não poderia ter nenhum futuro.

 

Precisamente porque estamos no limiar de um novo documento oficial - a anunciada Encíclica "Fratelli tutti" - pode ser útil verificar, antes de mais nada, no plano dos textos já publicados nestes 7 anos, o que Francisco disse sobre a Reforma da Igreja. Gostaria de examinar apenas três textos principais - EG, LS e o discurso à Igreja italiana em Florença - para identificar como o termo "reforma" e "reforma da Igreja" é tratado.

 

a) Evangelii Gaudium (2013): “a reforma missionária da Igreja”

 

A “Magna Carta” do magistério de Francisco - a Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”, encíclica publicada em 2013, no início do seu pontificado - fala em muitas passagens de “reforma da Igreja” e não o faz apenas no plano espiritual.

 

Todo o primeiro capítulo, que cobre os n. 19-49, que tem como título “A transformação missionária da Igreja”, é indicado, pouco antes, no n.17, quando são enumerados os temas dos documentos, com o título “A reforma da Igreja em saída missionária”. O conteúdo de todo o capítulo não pode ser entendido apenas como uma reflexão espiritual, mas indica, apertis verbis, exigências de caráter institucional e estrutural, absolutamente incontornáveis. As características da “abertura missionária” são fotografadas sobretudo por 5 verbos inequívocos: “tomar a iniciativa, envolver-se, acompanhar, frutificar e festejar”. Esse estilo, para se afirmar, exige uma verdadeira mobilização de reformas: “Espero que todas as comunidades se esforcem por atuar os meios necessários para avançar no caminho duma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento, não nos serve uma ‘simples administração’. Constituamo-nos em ‘estado permanente de missão’, em todas as regiões da terra” (EG 25).

 

Disso decorre, no número seguinte, a indicação clara e límpida da correlação entre reforma de consciência e reforma estrutural: “Há estruturas eclesiais que podem chegar a condicionar um dinamismo evangelizador; de igual modo, as boas estruturas servem quando há uma vida que as anima, sustenta e avalia. Sem vida nova e espírito evangélico autêntico, sem ‘fidelidade da Igreja à própria vocação’, toda e qualquer nova estrutura se corrompe em pouco tempo". (EG 26). Portanto, a reforma das estruturas da Igreja aparece como o “sonhode Francisco: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação. A reforma das estruturas, que a conversão pastoral exige, só se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de ‘saída’ e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade". (EG 27).

 

E, no entanto, confrontando-se com a realidade estrutural "de base", a paróquia, Francisco diz: "Temos, porém, de reconhecer que o apelo à revisão e renovação das paróquias ainda não deu suficientemente fruto, tornando-as ainda mais próximas das pessoas, sendo âmbitos de viva comunhão e participação e orientando-as completamente para a missão.” (EG 28). Também não se descura a necessidade de reforma da linguagem e do estilo: “se um pároco, durante um ano litúrgico, fala dez vezes sobre a temperança e apenas duas ou três vezes sobre a caridade ou sobre a justiça, gera-se uma desproporção, acabando obscurecidas precisamente aquelas virtudes que deveriam estar mais presentes na pregação e na catequese. E o mesmo acontece quando se fala mais da lei que da graça, mais da Igreja que de Jesus Cristo, mais do Papa que da Palavra de Deus.”(EG 38). Uma “reforma da linguagem” é percebida como decisiva para a reforma da Igreja: “São Tomás de Aquino observava que os preceitos adicionados posteriormente pela Igreja se devem exigir com moderação, ‘para não tornar pesada a vida aos fiéis» nem transformar a nossa religião numa escravidão, quando a misericórdia de Deus quis que fosse livre’. Esta advertência, feita há vários séculos, tem uma atualidade tremenda. Deveria ser um dos critérios a considerar, quando se pensa numa reforma da Igreja e da sua pregação que permita realmente chegar a todos"(EG 43).

 

Assim, o estilo da “saída em missão” adquire novas evidências e perde rigidez: “o compromisso evangelizador se move por entre as limitações da linguagem e das circunstâncias. Procura comunicar cada vez melhor a verdade do Evangelho num contexto determinado, sem renunciar à verdade, ao bem e à luz que pode dar quando a perfeição não é possível. Um coração missionário está consciente destas limitações, fazendo-se ‘fraco com os fracos (...) e tudo para todos’ (1Cor 9, 22). Nunca se fecha, nunca se refugia nas próprias seguranças, nunca opta pela rigidez autodefensiva. Sabe que ele mesmo deve crescer na compreensão do Evangelho e no discernimento das sendas do Espírito, e assim não renuncia ao bem possível, ainda que corra o risco de sujar-se com a lama da estrada” (EG 45).

 

 

b) Laudato Si '(2017): “a firme decisão de reformar todo o sistema”

 

No claro ditado que reconhecemos no primeiro cap. da EG corresponde, com acentos diferentes, a referência à “reforma” contida na Laudato si'. No início, o paralelo com EG é totalmente programático: "Na minha exortação Evangelii gaudium, escrevi aos membros da Igreja, a fim de os mobilizar para um processo de reforma missionária ainda pendente. Nesta encíclica, pretendo especialmente entrar em diálogo com todos acerca da nossa casa comum” (LS 3). Aqui, como resulta evidente, a EG vista do ponto de vista da LS, parece orientada a “mobilizar um processo de reforma missionária da Igreja”.

 

Um segundo aspecto importante para compreender as intenções do Papa Francisco é precisamente esse nível diferente do discurso sobre o qual a LS se desenvolve. Tratando-se do “diálogo sobre a casa comum”, o texto pode também referir-se com maior serenidade às reformas, que neste caso não dizem principalmente respeito à Igreja, mas às instituições públicas. Também neste caso, se não se afirma uma “mens” correta - em que a ecologia integral e o respeito pela criação são decisivos - a mudança exterior a pouco servirá. Mas é igualmente verdade que, precisamente para difundir uma nova mens, a exterioridade institucional não é de forma alguma secundária. Muito pelo contrário! Assim, de acordo com essa lógica equilibrada, encontramos escrito no n.181 “Importa dar um lugar preponderante a uma política salutar, capaz de reformar as instituições, coordená-las e dotá-las de bons procedimentos, que permitam superar pressões e inércias viciosas.

 

Todavia é preciso acrescentar que os melhores dispositivos acabam por sucumbir, quando faltam as grandes metas, os valores, uma compreensão humanista e rica de significado, capazes de conferir a cada sociedade uma orientação nobre e generosa” (LS 181). A saída de um “paradigma eficientista” exige decisões estruturais muito claras: “Pensando no bem comum, hoje precisamos imperiosamente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente ao serviço da vida, especialmente da vida humana. A salvação dos bancos a todo o custo, fazendo pagar o preço à população, sem a firme decisão de rever e reformar o sistema inteiro, reafirma um domínio absoluto da finança que não tem futuro e só poderá gerar novas crises depois duma longa, custosa e aparente cura” (LS 189). A atenção às "estruturas" é totalmente ativa e não pode ser reduzida, simplesmente, a um discernimento interior.

 

 

c) O discurso de Florença (2015): a tentação pelagiana

 

O último texto que gostaria de considerar é o grande discurso proferido em Florença em 2015, por ocasião da Convenção da Igreja Italiana. Ao delinear uma igreja “humilde, abnegada e nem-aventurada”, Francisco concentra sua atenção em duas tentações: a pelagiana e a gnóstica.

 

Apresentando a primeira, Francisco pronuncia duas frases de alto peso específico e decisivas para a compreensão de seu pensamento. Relato-as na íntegra:

 

“A doutrina cristã não é um sistema fechado incapaz de gerar perguntas, dúvidas, interrogações, mas é viva, sabe inquietar, animar. Tem uma face não rígida, um corpo que se move e se desenvolve, tem a carne macia: a doutrina cristã chama-se Jesus Cristo. Depois, a reforma da Igreja — e a Igreja é semper reformanda — é alheia ao pelagianismo. Ela não se esgota em mais um plano para mudar as estruturas. Ao contrário, significa implantar-se e radicar-se em Cristo, deixando-se guiar pelo Espírito. Então, tudo será possível com gênio e criatividade”.

 

 

O convite a sair de uma visão rígida da doutrina corresponde a uma leitura que não é simplesmente formal da reforma da Igreja. Uma visão dinâmica não exagera o papel das instituições, mas também não o subestima. Seria paradoxal lermos esse texto como se Francisco quisesse nos dizer que a única reforma seria a do coração. Sem uma real incidência sobre as coisas, sem um “fazer juntos” não há diálogo com Deus e com os seres humanos. Reformar as práxis eclesiais é condição para poder escutar plenamente a palavra do Evangelho. A tentação não é projetar uma reforma da Igreja, mas pensar em resolver o problema da Igreja simplesmente com uma exterioridade diferente. A reforma estrutural é condição necessária, embora não suficiente, para o amadurecimento de uma Igreja humilde, abnegada e bem-aventurada.

 

Em conclusão, as "novas" características de Francisco são de ser o primeiro papa "filho do Concílio", o primeiro papa "não europeu" e o primeiro papa jesuíta. Portanto, é justo dizer que o magistério do Papa Francisco se ressente não apenas de suas características genealógicas e geográfico-culturais específicas, mas também de sua identidade jesuíta, mas não é correto julgar o papa apenas como se ele fosse antes de tudo um jesuíta. O papa "não europeu" e "filho do Concílio" tem, além das características de jesuíta, também aquelas de quem retoma a "índole pastoral" com que foi inaugurado o Concílio Vaticano II. De fato, em EG cita, de forma plástica, do texto inaugural do Concílio precisamente a definição de "índole pastoral": "as enormes e rápidas mudanças culturais exigem que prestemos constante atenção ao tentar exprimir as verdades de sempre em uma linguagem que permita reconhecer a sua permanente novidade; é que, no depósito da doutrina cristã ‘uma coisa é a substância [...] e outra é a formulação que a reveste". (EG 41). Essa forma de considerar a “missão” implica uma reforma das instituições e das linguagens, não apenas uma conversão interior. A exterioridade não é apenas uma consequência, mas também uma causa de reforma. O padre jesuíta e o bispo de Roma são figuras diferentes: trata-se de identidades e formas de vida diferentes, que dialogam frutuosamente e se enriquecem mutuamente, mas que não são redutíveis ou substituíveis uma à outra. Francisco sabe muito bem que desempenha seu papel de papa como padre jesuíta, mas também sabe que não pode se reduzir (e não pode ser reduzido) a padre jesuíta como papa.

 

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