A ecologia pode unir católicos e não católicos?

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08 Setembro 2020

Cinco anos após a publicação da encíclica Laudato si', dezesseis personalidades francesas interessadas em ecologia, católicas e não católicas, se encontram com o Papa Francisco em Roma nesta quinta-feira, 3 de setembro. Um encontro que visa claramente criar relações entre homens e mulheres que poderiam encontrar pontos comuns sobre a urgência ecológica, depois de longas divergências no plano político.

A reportagem é de Marion Lecas e Mélinée Le Priolin, publicada por La Croix, 03-09-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

O que o presidente da Conferência Episcopal Francesa, Bispo Eric de Moulins-Beaufort, e a assessoria midiática de Paris Audrey Pulvar têm em comum? A ecologia. Sobre esse tema, um grupo heterogêneo de dezesseis pessoas se encontrará com o Papa Francisco em Roma nesta quinta-feira, 3 de setembro. “A vontade do papa de criar pontes com o mundo profano, colocando a proteção dos seres vivos na terra em primeiro plano, é extremamente positiva”, comemora a jurista Valérie Cabanes, integrante da delegação, sem ocultar seu desacordo com a Igreja sobre outros assuntos. Antes mesmo de ser realizado, esse improvável encontro romano parece já ser um forte sinal: que, na ecologia, “se pode trabalhar e dialogar com pessoas distantes da Igreja”, segundo um dos promotores do evento, o católico Raphaël Cornu-Thénard. Tendo descoberto recentemente os ambientes ecologistas, o fundador de Anuncio e de Congrès Mission pôde encontrar "pessoas muito empenhadas, de admirável abnegação", embora não partilhem da sua fé cristã. “Confiamos neles e procuramos discutir”, propõe.

Então a ecologia não é mais considerada "uma questão de extremistas de esquerda"? Parece que os católicos franceses que continuam a pensar assim não são mais tão numerosos como na década de 1970, quando assistiam com desconfiança à luta do Larzac na televisão. Para o blogueiro católico Patrice de Plunkett [1], essa mudança de atitude ocorrida em poucas décadas deriva, antes de tudo, da evidência da realidade do aquecimento global, mas também da legitimação dada pela encíclica Laudato si' em 2015: “Devemos ser ecologistas, é o papa quem o diz! ”No entanto, entre uma simpatia por princípio e uma verdadeira proximidade política, a distância continua grande. Apenas 10% dos católicos praticantes votaram na Europe-Ecologie-Les Verts (EELV) nas eleições europeias de 2019 (o partido obteve 22% dos votos), 37% escolheram La République en marche e 22% Les Républicains.

“Dado que a ecologia política na França nasceu à esquerda, enquanto o catolicismo francês está mais ligado à direita, questões históricas impedem uma reaproximação total”, observa Jérôme Fourquet, diretor do departamento de pesquisas do Ifop. Uma tendência que afeta a escolha da EELV de se aproximar de partidos como o Partido Socialista ou La France Insoumise, ainda recentemente no segundo turno das eleições municipais. Por isso, o voto ecológico, para muitos católicos ligados à direita, é ainda mais impensável.

O principal motivo de discordância são as questões da bioética, sobre as quais a maioria dos partidos ecológicos tem posições liberais ou libertárias. Patrice de Plunkett acusa esta franja da ecologia política de incoerência: “José Bové, que rejeita em bloco qualquer manipulação do ser vivo, parece-me mais coerente do que os ecologistas que defendem a biotecnologia da transformação sexual!”.

Mas para o teólogo Fabien Revol [2], aquele liberalismo tem, ao contrário, bases profundas: “O pensamento dominante na ecologia política não reconhece a 'natureza humana', portanto seus partidários não estão interessados na defesa de uma dignidade específica do ser humano, com quem, ao contrário, os católicos se preocupam”, explica ele.

Por outro lado, há muitos militantes ecologistas que falam abertamente contra o "antropocentrismo cristão", que em sua opinião é em parte responsável pela degradação dos ecossistemas. “Jesus Cristo nunca fala da humanidade como uma espécie que domina o mundo, ainda que algumas interpretações puderam conduzir a esse dogma”, lamenta Valérie Cabanes, especialista em ecocídio, que se diz grata ao Papa Francisco que “fez o homem descer de seu pedestal” na Laudato si'.

Por fim, ter fé ou não certamente muda a perspectiva sobre o futuro do planeta: “Não anunciamos 'boas novas'. Se não fizermos nada, aos poucos nos destruiremos”, afirma Vincent Brousse, vice-prefeito de Limoges e um dos primeiros ecologistas. Um horizonte que os cristãos muitas vezes consideram obscuro. Por exemplo, Marie Valentin-Auzou, que está se reconvertendo ao ambiente agrícola em Lyon, deplora essa falta de espaço dado à esperança e à misericórdia nos círculos ecologistas que ela frequenta.

Julie Lefort, pesquisadora na área das neurociências, ingressou no Partido Verde em 2015, após anos de escotismo e do desejo de "continuar seu empenho na sociedade". Para ela, católica ligada à Mission de France, o partido EELV é antes de tudo “um lugar de formação intelectual”.

Entre a Igreja Católica e a ecologia política, essa mulher de trinta anos nota diferentes convergências: a preocupação em incluir todos os seres humanos, até mesmo os “menos participativos”, ou a consciência da ligação entre a causa ambiental e a justiça social. Conexão enfatizada pelo Papa Francisco na Laudato Si' e aprovada pela maioria dos militantes ambientalistas, para os quais a expressão de ecologia integral (que muitos consideram abusada) soaria quase como um pleonasmo: a ecologia não é necessariamente integral? Como outros cristãos empenhados na ecologia, Julie Lefort deplora a prudência da Igreja que, segundo ela, convida a um compromisso individual ou em pequena escala comunitária (ecologistas, Eglise verte, etc.). “Denunciar atividades nocivas ao clima, em particular com a luta não violenta, parece-me crucial, mas a Igreja não incentiva esse tipo de ação”.

Patrice de Plunkett, por outro lado, argumenta o contrário: “Quando uma batalha é legítima, em vista do bem comum, a doutrina social da Igreja está muito mais aberta ao radicalismo do que se pensa!”. Recordando que o Papa Francisco convida os cristãos a se unirem a "todos os homens de boa vontade", acredita que a associação com não-crentes sobre esses temas também tenha um aspecto de testemunho. Agora que quase mais ninguém ignora o peso do que está em jogo, muitos católicos dizem que não querem fugir desse compromisso.

Os dezesseis membros da delegação que se encontraram com o Papa Francisco:

Mons. Éric de Moulins Beaufort. Arcebispo de Reims e Presidente da Conferência Episcopal Francesa
Pablo Servigne. Pesquisador, especialista em colapso
Valérie Cabanes, especialista em direito internacional, favorável ao reconhecimento do crime de ecocídio
Gaël Giraud. Padre jesuíta e economista
Damien Nodé-Langlois. Professor de ciências da vida e da terra
Elena Lasida. Professora de economia do Institut catholique de Paris
Laurent Landete, diretor do Collège des Bernardins, membro do Pontifício Conselho para os Leigos
Maxime de Rostolan. Fundadora da Fermes d'avenir, Blue Bees et Communitrees.
Elena de Rostolan. Advogada
Juliet Binoche. Atriz
Xavier Houot. Empreendedor
Aurélien Gonthier. Agricultor
Jean-Pierre Denis. Poeta e jornalista
Audrey Pulvar. Ex-jornalista, agora assessor da Prefeitura de Paris
Hélène Le Teno. Engenheira, diretora da fundação Jean-Noël Thorel, co-fundadora da Heart Leadership University
Raphaël Cornu-Thénard. Arquiteto, fundador do movimento Anuncio e de Congrès Mission.

 

Notas:

[1] Cathos, écolos: mêmes combats? Éd. Peuple libre, 2015, 80 p., 10 €.

[2] Penser l'écologie dans la tradicional catholique, Labor et Fides, 2018, 408 p., 22 €.

 

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