Teólogo franciscano: a Igreja deve abandonar o “bicho-papão da ‘ideologia de gênero’”

Foto: Vatican News

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

16 Julho 2020

"Historicamente a Igreja resiste a desenvolvimentos filosóficos, mas, em muitas áreas, acaba aceitando aqueles que defendem a dignidade da pessoa humana. É chegada a hora de a Igreja abandonar “o bicho-papão da ‘ideologia de gênero’” e seguir o conselho de Pe. Daniel P. Horan, de “aprender mais com as ciências naturais e sociais sobre a maravilhosa diversidade da criação de Deus”, escreve Madeline Foley, em artigo publicado por New Ways Ministry, 15-07-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo. 

A frase “ideologia de gênero” foi desenvolvida ao longo dos últimos três pontificados para demonizar e excluir pessoas LGBTQs. Em artigo publicado no sítio National Catholic Reporter, o Pe. Daniel P. Horan, OFM, franciscano e professor da cátedra Duns Scotus de Espiritualidade na Catholic Theological Union, em Chicago, analisa o uso dessa frase e observa: “Já é tempo de rejeitarmos os argumentos especiosos como os que sustentam a política de direita e pautas eclesiais que promovem o bicho-papão da ‘ideologia de gênero’”.

Todos os desenvolvimentos humanísticos e científicos do ensino católico sofreram resistências, afirma Horan. A Igreja demorou a reconhecer o direito à liberdade religiosa e a condenar a escravidão, porque tais desenvolvimentos constituíam ameaças percebidas à teologia tradicional. Horan nos lembra que as mudanças nesses ensinos, hoje indiscutíveis, na época foram consideradas “heréticas”, “ameaçadoras”, “infundadas” e “contrárias à lei natural”.

Esses desenvolvimentos, embora inicialmente vistos como ameaçadores, eram necessários para proteger a humanidade das pessoas, argumenta o teólogo. Uma dinâmica semelhante ocorre atualmente na Igreja em relação a questões de inclusão LGBTQ. Os opositores aos movimentos de direitos LGBTQs agora afirmam que esses movimentos tem motivação em uma filosofia denotada pelo título depreciativo de “ideologia de gênero”.

A frase “ideologia de gênero”, escreve Horan, “é empregada nos círculos católicos para causar graves prejuízos às pessoas que já são vulneráveis ​​em uma sociedade injusta”.

O uso mais recente e público da frase ocorreu em junho passado, quando a Congregação para a Educação Católica publicou um documento “condenando a ascensão da ‘ideologia de gênero’” e alertando as instituições educacionais católicas a não sucumbirem ao que caracterizava como “nada mais do que um conceito confuso de liberdade no campo dos sentimentos e desejos”.

Horan observa que essa abordagem negativa à igualdade LGBTQ desenvolveu-se ao longo dos últimos três pontificados. Segundo ele, tal abordagem começou com 

(…) os pronunciamentos catequéticos do Papa João Paulo II sobre a “complementaridade de gênero”, naquilo que os seus devotos chamam de “teologia do corpo”, e continuou com a identificação daquilo que o Papa Bento XVI chamou de “ditadura do relativismo”, e nas declarações ad hoc do próprio Papa Francisco, sinalizando seu descontentamento pessoal com aquilo que ele chama de “ideologia de gênero”, comparando esse conceito amorfo com a “guerra nuclear” e com o “nazismo”.

Mais recentemente, escreve Horan, os bispos americanos empregaram o termo em relação à sua recente decisão de não discriminação no ambiente de trabalho. O padre franciscano afirma:

Esta tendência é notável à luz da recente decisão da Suprema Corte, que estende as proteções no ambiente de trabalho a pessoas LGBTQs sob o Título XVIII da Lei de Direitos Civis dos EUA, porque a declaração da conferência episcopal americana sobre a determinação do tribunal alude a temas frequentemente associados com a chamada “ideologia de gênero”.

Filosoficamente, estes que resistem aos direitos LGBTQs opõem “ideologia de gênero” à antropologia aristotélico-tomista, que Horan descreve como “indesculpavelmente desatualizada”. Estas pessoas tomam essa visão tradicional como infalível, enquanto consideram a “ideologia de gênero” como “uma nova moda” recém-lançada. Ironicamente, o próprio Tomás de Aquino foi condenado, em 1277, por ser “perigoso demais” após sua inovação em redescobrir e utilizar Aristóteles, filósofo pagão.

Estes que condenam a “ideologia de gênero”, continua Horan, “bem fariam se ouvissem os principais estudiosos sobre sexo e gênero, como Judith Butler, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, em vez de atacar ela e outros especialistas”. Há décadas, sociólogos e outros cientistas têm estado envolvidos com essas complexas questões, aponta o franciscano, e este trabalho robusto que produziram não pode ser simplesmente descartado de imediato como “ideologia de gênero”, sem uma tentativa genuína de diálogo.

Historicamente a Igreja resiste a desenvolvimentos filosóficos, mas, em muitas áreas, acaba aceitando aqueles que defendem a dignidade da pessoa humana. É chegada a hora de a Igreja abandonar “o bicho-papão da ‘ideologia de gênero’” e seguir o conselho de Horan, de “aprender mais com as ciências naturais e sociais sobre a maravilhosa diversidade da criação de Deus”.

 

Leia mais