26 Junho 2020
"Não, essas soluções não bastam. Embora padres casados e diáconas possam resolver os problemas da língua e da cultura em qualquer lugar do mundo, a Igreja precisa de algo mais. O benefício agregado em se ter padres casados e diáconas, evidentemente, seria o de afirmar a crença de que as mulheres não corrompem o sagrado e que elas podem, realmente, ser a imagem e semelhança de Cristo. Mas mesmo isso pode não bastar".
A opinião é da teóloga estadunidense Phyllis Zagano, pesquisadora da Universidade Hofstra, em Hempstead, Nova York. Em 3 de outubro deste ano, ela irá proferir a palestra intitulada “Visões de uma Igreja justa”, em uma conferência promovida pela organização Voice of the Faithful, dos EUA. É coautora do livro Mulheres diáconos: Passado, presente, futuro (Paulinas, 2019). Seu mais recente livro é Women: Icons of Christ (Paulist Press, 2020). O artigo é publicado por National Catholic Reporter, 25-06-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
Eis o artigo.
“O aparecimento repentino de novas comunidades, ligadas à personalidade de alguns pregadores (…) pode ocultar a insídia (…) de encerrar a experiência de fé em ambientes protegidos e tranquilizadores.” – Discurso do Papa Francisco aos participantes na Plenária do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos; Sala Clementina, 28 de setembro de 2018.
O culto à personalidade é algo bastante assustador. Não importa onde ou como se forma, ele geralmente implica na morte ou diminuição daquele que conquistou seguidores. O que o Papa Francisco manifestou aqui, aos participantes na Plenária do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, constituía o tema da conferência do citado conselho: “Pentecostais, carismáticos e evangélicos: impacto sobre o conceito de unidade”. As palavras que proferiu chegaram ao documento final do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, realizado cerca de um ano depois.
A dinâmica na região amazônica é clara: atualmente, a maior parte dos ex-católicos que moram na região amazônica filiou-se a um desses grupos, em geral vinculados a um único pregador, numa única localidade e por um tempo limitado.
Por quê? Poderíamos achar que o evangelho é o que mais atrai os adeptos dos pregadores pentecostais, carismáticos ou evangélicos que tenham conquistado os corações dessas pessoas. Mas precisamos reconhecer as circunstâncias subjacentes que levam estes fiéis a se reunirem, cada vez mais, em torno desse ou daquele líder.
Em geral, um fenômeno como esse tem a ver com a língua e a cultura. Normalmente, o pregador vem de dentro da comunidade ou, de alguma forma, se insere em uma localidade e ganha seguidores. Ele (ou ela) é (ou pelo menos se torna) alguém conhecido cujas alegrias, esperanças e medos ecoam entre os fiéis. O pregador conhece essas pessoas, sabe como curar suas feridas, sabe como aliviar suas tristezas. O povo ouve palavras de bom senso misturadas com promessas.
Em outros ambientes, quando o debate é político, o mesmo cenário se desenrola. O culto à personalidade move-se para um palco maior. Os meios de comunicação recolhem as promessas, as reivindicações e os argumentos. Levam o político-pregador aos lugares mais longínquos da Terra. E, quando não apresentam o político de uma forma favorável, acabam menosprezados, tachados de propagadores de “fake news”.
O mesmo acontece com alguns televangelistas, cujos seguidores chegam à casa das centenas de milhares e que vivem bem com o resultado dos dízimos astronômicos arrecadados. As denúncias de casos desse tipo, feitas pela imprensa apontando estilos de vida luxuosos, são tidas como tentações do diabo.
Onde ficam as comunidades católicas nisso tudo? A pandemia em curso vem mostrando as habilidades de pregação de centenas de padres e bispos. Alguns são extremamente bons. Outros são simplesmente terríveis. Os sacramentos, deixados de lado, aos poucos voltam à vida do dia a dia, ameaçados por uma segunda onda da doença. O que leva a experiência católica de volta a uma pregação simplificada, sendo a pregação algo tão aperfeiçoado pelos pentecostais, carismáticos, evangélicos e por alguns políticos. As palavras que estes proferem energizam, animam e dão às pessoas um novo propósito na vida, renovam suas energias.
Enquanto isso, a Igreja definha na Amazônia e em outros lugares. O que fazer?
Não basta defender que a ordenação de diáconos casados ao sacerdócio trará as pessoas de volta ao catolicismo. Não basta responder ao chamado dos participantes do Sínodo dos Bispos para que se restaure a tradição de ordenar mulheres ao diaconato. Certamente, não basta pedir que mais missionários estrangeiros se estabeleçam em um ou outro país que esteja em falta de padres.
Não, essas soluções não bastam. Embora padres casados e diáconas possam resolver os problemas da língua e da cultura em qualquer lugar do mundo, a Igreja precisa de algo mais. O benefício agregado em se ter padres casados e diáconas, evidentemente, seria o de afirmar a crença de que as mulheres não corrompem o sagrado e que elas podem, realmente, ser a imagem e semelhança de Cristo. Mas mesmo isso pode não bastar.
O problema posto apresenta a sua própria solução. O catolicismo sobrevive onde ele se adapta e onde é adotado pela cultura local. As línguas e os costumes locais são centrais. O respeito pela mulher deve ser praticado novamente.
Por hoje, só podemos aguardar. Amanhã talvez seja tarde demais.
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