“Toda a nossa vida não é suficiente para descobrir o que o nosso imaginário produz sobre Deus”. Entrevista com Daniel Marguerat

Foto: Unsplash

08 Abril 2020

Aproximando-se do início da Semana Santa, o pastor e biblista suíço Daniel Marguerat, especialista na figura de Jesus e um grande popularizador teológico, nos recebeu para conversar conosco sobre seu percurso e para nos lembrar até que ponto, apesar das crises que atravessam a Igreja, a mensagem dos Evangelhos permanece essencial.

Porque justamente Marguerat. Esta Semana Santa é um pouco especial para os cristãos, que recordarão a morte e celebrarão a ressurreição de Cristo confinados em suas casas. Uma boa oportunidade para (re)descobrir Daniel Marguerat, pastor e biblicista suíço, que em seu último trabalho propõe uma vida de Jesus apaixonante, que refaz o destino daquele homem de Nazaré, o primeiro a falar de um Deus de compaixão.

Pesquisa exigente e popularização generosa: há mais de quarenta anos, Daniel Marguerat se destaca nas duas áreas. Podemos lembrar suas explicações luminosas na série de documentários Corpus Christi, de Mordillat et Prieur. O fato é que esse pesquisador, em muitos trabalhos volumosos e inúmeros artigos, leu e releu o Novo Testamento, revisitando as origens do cristianismo com o espírito e as perguntas de um cristão do século XXI. Fomos encontrá-lo em Lausanne, na Suíça, onde ele mora, perto da cidade, para sentir sua pulsação, mas a um passo dos campos e das montanhas ...

A entrevista com Daniel Marguerat é de Élodie Maurot, publicada por La Croix L'Hebdo, 04-04-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

Você é considerado um dos grandes especialistas de Jesus, de Paulo e da história dos inícios do cristianismo. Qual foi a origem da sua jornada?

O despertar ocorreu na faculdade de teologia. Há quem desaconselhe os estudos de teologia, dizendo: "Não vá para aquele lado, você perderá a fé!". Para mim, aconteceu exatamente o contrário. Entrei na faculdade de teologia um pouco por exclusão. Aos 18 anos, tinha o desejo de ajudar as pessoas e pensei em três trabalhos para fazer isso: médico, professor ou pastor. Desisti de ser médico porque sou bastante emotivo. A visão do sangue e dos corpos dilacerados me perturba demais. Ser professor significaria seguir os passos de meu pai e isso não me pareceu particularmente criativo (risos). Então eu decidi pela teologia e ser pastor.

Basicamente, eu queria ajudar as pessoas, mas me perguntava: o que pode ajudá-las em seu próprio íntimo, sem simplesmente "engessar" as feridas? Eu pensei que interessar-se pela alma seria uma coisa boa. Talvez eu tivesse uma visão um tanto ingênua da "medicina da alma".

 

O que aconteceu durante esses estudos?

Fiquei profundamente atraído pelo Novo Testamento, e a figura de Jesus literalmente me transtornou. Descobri que a fé não era aquela espiritualidade um tanto evanescente, aquela crença tranquila que eu havia vivido em minha família, mas que o intelecto tinha um papel importante na fé. Eu descobri, acima de tudo, um evangelho que questionava. As Bem-aventuranças realmente me chocaram. O discurso da montanha se impôs a mim com sua incrível exigência. Mas, de fato, havia respiração! Descobri a fé porque acreditava naquela respiração, naquele sopro que atravessava os Evangelhos. Havia neles um caminho exigente, mas promissor, o chamado de um Deus de acolhimento incondicional. Algo à altura das minhas ambições, de meu ideal, de meu plano de vida.

 

Como as coisas se articularam entre o pastorado e a pesquisa?

Você sabe, eu tenho uma teologia da Providência que vem de Calvino. João Calvino era um teólogo extremamente sutil, que não confundia a Providência com as pequenas vicissitudes da vida. Ele estava muito consciente da transcendência de Deus. Para ele, acreditar na Providência consiste em viver sob o olhar favorável de Deus. Calvino escreve: viva sua vida como se a misericórdia de Deus a dominasse - de sua "mansidão" ele diz, na sua língua do século XVI.

Então, com esse horizonte em mente, posso falar dos "golpes" da Providência, de suas felizes surpresas.

Se penso nos primeiros anos da minha vida pastoral, lembro-me de experiências que foram estruturantes. Em particular, os cinco anos que passei como pastor em uma grande paróquia em Lausanne. A Igreja do cantão de Vaud me pediu para inventar e implementar uma pastoral especial para a infância e a juventude, dos 4 aos 20 anos. Foi nesse período que fui levado a me posicionar como teólogo ao lado de pedagogos muito competentes, mas que precisavam das respostas do biblista. Depois disso, fui pastor em uma pequena paróquia do interior. Para mim, que conhecia apenas a cidade, foi como um transplante total. Descobri o mundo camponês e, com ele, a morte e a aproximação da morte. Descobri as vigílias fúnebres, a agonia em casa, a lavagem do corpo ... Um confronto com a morte cuidadosamente evitado na cidade.

Muitos dos meus trabalhos sobre a morte e a fé na ressurreição provêm dessa experiência humana.

 

Que palavra a dizer diante da emoção que causa a morte? Como falar de Deus diante da morte?

Costumo retornar continuamente aos textos bíblicos.

 

Junto com obras universitárias, você escreveu para o público em geral. Isso vem do seu cuidado como pastor?

Quando fui nomeado para a Universidade de Lausanne como professor de Novo Testamento em 1984, deixei o pastorado como acontece nesses casos na tradição protestante. Mas sempre mantive um vínculo com a Igreja. Em alguns lugares, participei de cultos ou como especialista encarregado pelas autoridades da Igreja. Essa atividade, certamente marginal, era simbólica para mim do meu compromisso de fé.

Eu sempre quis manter contato com um tipo de palavra diferente daquele da universidade. Eu ensinava a meus alunos a ler e estudar o Novo Testamento. Eu os guiava até o momento em que brota do texto uma palavra de sentido. Pessoalmente, porém, eu não queria parar naquele limiar! Queria ir até a palavra proclamada, compartilhada, queria que a palavra repercutisse sobre o humano e sobre o Deus que emerge do texto bíblico. Ficar no laboratório, ser um técnico da exegese, não me satisfazia. Eu queria conservar uma palavra e textos destinados ao público em geral.

O grande dilema, no regime da popularização, é fazer as pessoas entenderem a complexidade dos problemas, permanecendo legíveis. Os teólogos da universidade devem enfrentar esse desafio, caso contrário há o risco de uma teologia de duas velocidades: por um lado, uma teologia para o clero e poucos laicos à altura de uma linguagem universitária sofisticada específica da teologia, pelo outro, uma devoção tipo fast-food para o povo da Igreja. Discriminação inaceitável! Além disso, há uma vontade de formação teológica, vejo isso nas minhas palestras. Compreendo que muitos padres e pastores não têm mais tempo nem gosto de aprofundar perguntas tão abertas como o pós-morte, a trindade ou "quem era Jesus?". Mas a pergunta está aí. E a sociedade está cada vez menos disponível para ouvir discursos repetitivos ...

 

Como recebe a palavra de Cristo que diz que sua mensagem é entendida primeiro pelos pequenos, não pelos sábios?

Os "pequeninos" do evangelho não são os idiotas. São aqueles que não se apresentam diante de Deus do alto de suas riquezas, saber ou autoestima. São aqueles que sabem que precisam de Deus, particularmente no Evangelho de Mateus, onde "os pequenos" são frequentemente mencionados.

Como formador, estou sempre atento a como as pessoas recebem o que eu digo. Porque as pesquisas acadêmicas podem ser interessantes nos resultados. Ao lidar com a questão da ressurreição ou dos milagres, a pesquisa bíblica é frequentemente colocada nos antípodas do que uma fé popular veicula. Portanto, é oportuno demonstrar diplomacia e sensibilidade. Quando você diz a alguém "você pensa de maneira errada, agora eu vou lhe mostrar como pensar de maneira certa", é um pouco chocante para quem o ouve, mas se a pessoa se coloca no plano intelectual e está disposta, pode entender e seguir o raciocínio. Mas quando você diz a alguém "você acredita mal, agora eu lhe digo como acreditar melhor", é muito mais delicado, difícil e complexo. De fato, a fé envolve toda a pessoa, sua história espiritual, sua relação com aqueles que lhe transmitiram a fé. Eu sempre tento fazer progredir a inteligência da fé de uma maneira que não seja provocativa. Tenho a preocupação de permitir que o outro cresça na fé.

Muitas pessoas desejam articular melhor a razão do século XXI com as afirmações da fé. Por isso, a crença da pessoa, muitas vezes mantida fixa nas percepções da infância, deve se mover, mudar: algumas convicções devem ser abandonadas e outras conquistadas. Estou convencido de que se requer a inteligência da fé para aquelas pessoas que acreditam. Não é um revestimento externo ou marginal. A inteligência da fé deve crescer junto com a inteligência da pessoa, à medida que sua história cresce, para que sua experiência pessoal se amplie. A fé deve seguir o caminho do crescimento. Lamento que os pastores ou padres pensem que seja seu dever, pelo contrário, fixar a fé em respostas de catecismo.

 

Você já vivenciou momentos de conflito interno?

Também sou chamado a rever minha crença, mas devo admitir que sempre fui guiado pelo "ganho" que obtenho desse percurso intelectual. Minha fé nunca esteve realmente em perigo, mas tive que fazer profundas revisões. Por exemplo, aceitar que certas narrativas de milagres - como a de Jesus andando sobre a água - são provavelmente construções teológicas. Em um primeiro momento, é extremamente desconcertante. Até o momento em que descobri que há um registro diferente daquele da historicidade dos fatos. Passar de uma verdade histórica para uma verdade teológica é descobrir que uma fábula às vezes é mais verdadeira do que uma anedota histórica, porque é mais rica de sentido. Sim, existe uma forma de conversão que nem sempre é fácil. Mas, eu sou testemunha, o que se perde em crenças antigas se ganha em convicções de pessoa adulta.

Se o cristianismo deste começo do século XXI é um cristianismo cansado, se o colapso da prática do culto é tão desconcertante, é porque a fé parece a muitos como uma ferramenta inoperante. E o que um trabalhador faz com uma ferramenta inútil? A deixa, a abandona. Eu tento fazer da fé um instrumento que funciona na existência.

 

Seu último livro sobre Jesus (Vie et destin de Jésus de Nazareth, Seuil) teve um grande sucesso. Você insiste no livro sobre a radicalidade de Jesus. É algo que o impressiona particularmente?

Eu sou um pouco como Leon Tolstoi quando leu o discurso da montanha. Ele ficou completamente transtornado com essa leitura e declarou que ali estava a verdade cristã, que deveríamos viver assim ou deixar de nos chamar de cristãos. Sempre sou fascinado pela radicalidade da moral de Jesus e de seu chamado: a recusa de reação agressiva, a recusa da lei de talião, de oferecer a face esquerda quando batem na face direita ... Desses pedidos incríveis, reconheço a verdade antropológica: a espiral da violência só pode ser interrompida se não se responde à violência com a violência. Nesse apelo abismal, não reconheço uma lei insuportável, mas o desejo de Deus por nós. Deus acredita que somos capazes de viver isso!

Todas as tentativas de formalizar a mensagem de Jesus, de fixar seus ensinamentos em princípios ou regras morais, sempre serão insuficientes. Jesus veio para reinterpretar a lei, mas sem forjar uma nova. O amor ilimitado ao próximo faz explodir toda ideia de lei. É por isso que falo do amor ao próximo como um horizonte. O chamado é impressionante em sua força, mas não constitui um ideal perfeccionista. O perfeccionismo é uma perversão da relação com a lei. Um "horizonte" nos coloca em movimento. Convoca a nossa liberdade. Não nos submete, mas nos inspira.

 

O ideal e a liberdade, esses dois temas não são realmente dois lugares de mal-entendidos entre o mundo contemporâneo e a Igreja?

O evangelho e, portanto, o discurso das Igrejas oscila entre dois polos: o anúncio do pecado e a proclamação da graça. O Evangelho revela tanto o pecado - isto é, um desvio em relação a Deus - quanto a mensagem de amor incondicional que domina esse desvio, que a teologia chama de graça. Na minha opinião, as Igrejas hoje têm dificuldades na sociedade porque não conseguem retraduzir o pecado em termos de fragilidade do homem e a graça em termos de libertação. O que é chamado erroneamente de "sentimento de culpa judaico-cristão" fixa o pecado e encerra o indivíduo ao seu sentimento de culpa.

Sejamos claros: essa deriva moralizante é uma perversão da mensagem do Evangelho. Vamos retraduzir a salvação também em termos de "sentir-se bem": sentir-se bem com Deus, consigo mesmos, com os outros. Hoje, as Igrejas pagam o que lhes é reprovado como arrogância: colocar-se como uma instituição impecável, perfeita ou, pior ainda, infalível! Pagam por ter esquecido a mensagem da fragilidade, um esquecimento que transfere o pecado sobre os outros e não sobre si mesmo. Além disso, quando isso é acompanhado por uma hipocrisia moral - pode ser visto nos vários escândalos de abuso sexual -, a mensagem se vê completamente desacreditada.

 

Você fala de liberdade. A liberdade implica que a ética cristã é articulada de acordo com o contexto das pessoas. A fraternidade é um horizonte que não dita nada, que não impõe nada, mas que indica uma direção, um espírito, uma intenção. A fidelidade cristã chama todo crente a ser criativo. Se você tivesse que escolher uma palavra de Jesus, qual proporia?

Oh! (longo silêncio) Se tivesse que escolher apenas uma - é terrível! - seria "Pai nosso que estás no céu". Essa invocação cristaliza a vocação de Jesus: fazer descobrir Deus como um pai de amor incondicional (o pai é quem sempre amará seus filhos, façam eles o que fizerem) e, ao mesmo tempo, um Deus que, como um pai, questiona seus filhos, indica a eles um caminho.

Essa fórmula resume para mim ao mesmo tempo o dom da graça e a vertigem da Lei. Trabalhei com a psicanalista Marie Balmary sobre o Juízo final. Em nosso diálogo, percebi até que ponto estamos imersos em um imaginário de Deus que continua a forjar em nós imagens que respondem a nossas necessidades ou medos. Frequentemente são imagens da morte: trata-se do Deus protetor que nos tira toda responsabilidade, ou o Deus gendarme que ameaça e pune as infrações da lei. Toda a nossa vida não é suficiente para descobrir o que o nosso imaginário produz sobre Deus. O único termo com o qual Jesus designa Deus é a palavra "Pai", enquanto o judaísmo de seu tempo abundava em pomposos epítetos teológicos. Ele até diz "abba", pai em aramaico. Essa palavra é tão importante que o apóstolo Paulo a introduzirá nas comunidades que ele fundaria ... embora não falem aramaico! Na Epístola aos Gálatas (capítulo 4), fala do "Espírito de Deus clama em nossos corações 'abba', pai". Vinte anos após a morte de Jesus, Paulo entendeu que aquela palavra condensava a imagem de Deus que o Senhor nos deixou como herança.

 

Os cristãos estão no período da Quaresma, depois de longos meses marcados pelos escândalos recorrentes de abusos sexuais na Igreja Católica. Que leitura faz dessa crise?

Do meu ponto de vista, a Igreja Católica sofre principalmente por um erro histórico: ter vinculado a vocação do sacerdócio ao celibato obrigatório. Ora, a tradição cristã mais antiga é acolher ministros casados ou solteiros, de acordo com a sua escolha (o que praticam os ortodoxos e protestantes). Devemos voltar à distinção entre celibato e presbiterado, porque dessa confusão nasceu uma fragilidade estrutural da Igreja católica. É claro que a pedofilia ou a sexualidade desviada não são exclusivas do celibato, mas a multiplicação desses escândalos no catolicismo não é acidental: a Igreja romana é a única instituição religiosa que impõe o celibato a seus integrantes. 

A segunda coisa que precisa ser entendida é o alto preço que a Igreja católica paga por sua lei do silêncio. Nós sabemos o motivo: proteger a instituição. Mas, assim, os indivíduos são sacrificados. A perenidade do cristianismo e a salvação da instituição não podem ser obtidas a esse preço. A Quaresma é uma boa oportunidade para refletir sobre o pecado religioso, aquele momento em que a religião se perverte e sacrifica o humano em nome de sua imagem de Deus. Mas vamos ser sinceros: protestantes, ortodoxos, católicos, somos solidários e ninguém pode se alegrar com os infortúnios alheios. Juntos, somos o corpo de Cristo.

 

O atual descrédito da Igreja Católica é profundo. Como a Igreja pode se levantar?

O descrédito é forte porque deriva de uma confiança decepcionada, uma confiança traída. Isso também significa que a confiança pode ser reconstruída. Como? Eu acredito que a "direção" da confiança deve ser invertida, isto é, que deve vir dos ministros. Padres e pastores devem manifestar a sua confiança nos laicos: são o povo que Deus ama, que Deus escolheu. Eles são, como diz a Primeira Epístola de Pedro, "a casa de Deus, a santa comunidade sacerdotal" (capítulo 2). A instituição deve fazer de tudo para formar, equipar, incentivar e valorizar os laicos: eles são o povo de Deus. Estou convencido de que o povo de Deus possa recuperar a confiança em seus ministros, se estes últimos voltarem a ser verdadeiramente servos para eles, ajudantes, acompanhantes. É uma inversão do olhar que precisa ser feita. Essa estratégia é ainda mais delicada, pois estamos testemunhando hoje uma solicitação que não hesito em definir regressiva: a nostalgia de um clero conservador e autoritário.

 

É também uma questão de dar às mulheres um lugar diferente, cujas vozes se elevam em toda parte na sociedade e na Igreja?

Na Igreja, o lugar das mulheres não deve ser abordado do ponto de vista do direito, mesmo que seja legítimo na sociedade. Deve partir de um reconhecimento do valor igual do homem e da mulher diante de Deus. O batismo estabelece uma comunidade de irmãos e irmãs, não de grandes irmãos e pequenas irmãs! É verdade que, nesse ponto, a Igreja católica está muito atrasada. Não está atrasada em termos de atualidade; está atrasada em termos da prática de Jesus (aberta às mulheres) e na do apóstolo Paulo. Porque, não importa o que se diga, São Paulo fundou comunidades que misturavam judeus e gregos, senhores e escravos, homens e mulheres, com direitos iguais e acesso a ministérios.

A exclusão progressiva das mulheres foi determinada pelo patriarcado difundido, não era exigência do Evangelho. Além disso, a atual escassez sacerdotal poderia ser uma imensa oportunidade para a Igreja. O empenho dos laicos, homens e mulheres, de animar as comunidades paroquiais levará as mulheres a ocupar o lugar que até agora foi recusado a elas. Poderia se dizer que a escassez é boa? Ouso fazer isso.

 

Você escreveu muito sobre a Páscoa e a ressurreição. Como a mensagem da Páscoa pode ir ao encontro da busca espiritual contemporânea?

Os primeiros cristãos fizeram da ressurreição de Cristo a principal afirmação: "Deus o ressuscitou dentre os mortos". Mas, estudando os relatos da ressurreição, percebi que se a proclamação pascal foi colocada no coração da fé, é porque o Cristo ressuscitado é também um Cristo "que faz ressuscitar". Os primeiros cristãos reconheceram que aquele movimento com que Deus faz renascer a vida além da morte não é único, mas surge no próprio coração da vida. É por isso que usaram o vocabulário da ressurreição para dizer como Jesus cura os enfermos e os eleva. Entenderam bem, aqueles primeiros cristãos, que a mensagem da Páscoa não é apenas uma mensagem do além-túmulo. É uma mensagem que percebe como, no coração da vida, Deus vem nos surpreender e nos dá forças para superar os fracassos e as desgraças, aquelas pequenas mortes pelas quais passamos.

Deve-se dizer e repetir que a Páscoa é a festa de Cristo que nos faz ressurgir, isto é, do Cristo que nos eleva. Eu acredito na futura ressurreição dos corpos; Deus nos acolherá após a nossa morte; mas acredito nisso porque, na minha vida e na vida dos outros, consigo discernir os sinais do Cristo que faz ressurgir. Há episódios em nossa vida que têm um perfume de ressurreição: esse perfume é o sinal de Deus que ressuscita e eleva. Em meu último livro, Vida e Destino de Jesus de Nazaré, mostrei como a notícia da Páscoa deve ser recebida, mas não apenas como uma informação sobre eventos que ocorreram no ano 30 de nossa era. O que ficou inscrito naquele momento da história é a revelação de que a última palavra sobre a nossa vida e sobre a história do mundo, pertence a Deus. Apesar dos que se proclamam donos do mundo, sejam políticos ou economistas, a verdade última cabe a Deus. Nesses tempos de catastrofismo coletivo, torna-se urgente dizê-lo e repeti-lo, celebrá-lo, compartilhá-lo.

 

A Europa e o mundo vivem hoje um período de preocupação e grande fechamento sobre si mesmos por causa da pandemia. Como o evangelho ressoa para você nesse período?

O risco absoluto, neste momento de "salve-se quem puder", é o fechamento individualista. As corridas aos supermercados traem um medo de que faltem as coisas e a tentação de fechamento sobre si mesmo. O Evangelho nos diz que somente juntos seremos salvos. Ontem, os jovens desfilavam nas ruas pedindo aos mais velhos: nos ajudem a salvar o planeta. Hoje, os velhos pedem aos jovens: ajude-nos a ficar vivos. Seremos salvos juntos. As Igrejas poderiam ser os locais onde a ajuda mútua é cultivada, onde são tecidos os laços entre as pessoas e as gerações. Mais do que nunca, parece evidente que sobre esta Terra somos confiados uns aos outros.

 

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