Vírus novo, medos antigos

Imagens de microscópio do coronavírus | Foto: Fred Murphy - Wikimedia Commons

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30 Janeiro 2020

À medida que a epidemia de coronavírus se espalha, devemos reler História do Medo no Ocidente, uma das obras-primas de Jean Delumeau, o eminente historiador e o grande cristão que acaba de nos deixar. Se perguntado hoje, o professor do Collège de France provavelmente começaria lembrando que nossas sociedades são muito mais seguras que as de antigamente, que viviam angustiadas com a epidemia e a fome.

O texto é de Jean-Pierre Denis, publicado como editorial da revista francesa La Vie, 29-01-2020. A tradução é de André Langer.

No século XIV, a Grande Peste matou pelo menos um quarto da população da Europa Ocidental. Mais tarde, cidades como Marselha e Milão perderam quase metade de seus habitantes. O Festival das Luzes, que acontece em cada 8 de dezembro em Lyon, celebra o desejo dos almotacés, que colocaram a cidade sob a proteção de Maria. O culto superpopular de São Roque está ligado especialmente ao medo da epidemia – e de Montpellier se espalhou para todo o Languedoc, na Itália, e, finalmente, para todos os continentes.

Antigamente, a medicina se mostrava impotente, mas o sistema religioso fornecia ao corpo social algo para resistir espiritualmente. Nossa época deixa a descoberto as preocupações espirituais, ignora o sentido da vida e acredita poder esconjurar a angústia da morte. Por outro lado, encontra ajuda na tecnologia, nas medidas sanitárias e na ciência. Mesmo que certas escolhas possam ser criticadas, as grandes vacinações fizeram recuar ou desaparecer as doenças graves.

No entanto, o que acreditávamos ter sido posto no passado nunca será completamente descartado. Pode ser uma angústia surda, atávica, que se revela nos dias de hoje. Do clima ao vírus, do ambiental às armas, a humanidade está redescobrindo sua dupla vulnerabilidade com relação à natureza e à sua própria loucura. A preocupação está de volta.

Talvez Delumeau pense que a nossa mídia está tendo um papel muito grande no comércio da ansiedade. Mas como podemos julgar isso quando, por um lado, a OMS declara “muito alto” o risco associado ao coronavírus na China e “alto” em nível mundial, enquanto, por outro lado, a taxa de mortalidade, pouco mais de 2%, parece bastante baixa?

Somos todos chineses. A epidemia também nos lembra que a humanidade não é apenas uma justaposição de nações. As doenças, assim como as imagens, circulam em alta velocidade. O planeta encolheu. Todas as coisas extrapolam as fronteiras. Já estamos tentando medir o impacto do coronavírus no comércio, no turismo e na economia mundial. Precisamos de respostas “glocais”, locais e globais.

É realmente incrível ver como aquilo que aconteceu em um mercado de Wuhan, no centro da China, afeta instantaneamente o nosso cotidiano. Nacionalistas de todo tipo brincam com a promessa de novos muros. Mas, para o bem ou para o mal, estamos mais conectados do que nunca.

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