Milagres. Só reconhecemos os de Jesus nos Evangelhos, ou “identificamos todos” como provas do Amor de Deus?

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06 Julho 2018

"Como o Reino é extraordinário, isso até limita um pouco o ser humano em seu discernimento, mas, pela graça, em comunhão com o Deus-Trindade, pequenos e grandiosos milagres, anormais ou até inexplicáveis acontecem para transformar e edificar a alma daquele que crê e os 'identifica'", escreve Orlando Polidoro Junior, pastoralista, teólogo e mestrando em Teologia pela PUCPR.

Eis o artigo.

O que é um milagre? Um acontecimento anormal e inexplicável pelas leis naturais; um prodígio, algo extraordinário, surpreendente. Estas são algumas definições que a semântica descritiva da palavra nos apresenta. Entretanto, nem é preciso pesquisar para constatar e compreender os milagres que, por Amor, O Deus-Trino promove com o propósito de resgatar a paz – fonte que renova a alma – gera confiança e esperança.

Contudo, frente à realidade do dia a dia, algumas vezes perde-se a consciência de “valorizar” as bênçãos e os milagres recebidos, principalmente naqueles períodos da vida em que tudo ocorre bem – cheio de paz. Isto provoca um certo afastamento da fé; da busca, da entrega, e especialmente dos agradecimentos. Porém, os momentos mais difíceis [por necessidade], são os que tornam o envolvimento com a Santíssima Trindade mais intenso, fazendo com que se perceba que a fé precisa ser alimentada todos os dias, tornando a posse das graças mais gratificantes e valorizadas.

As alegrias e as tribulações são atributos presentes na vida de todo ser humano, por isso, de forma natural fazem parte das narrativas bíblicas. Mas, por Amor – como fonte de revelação para que o povo supere os momentos de dificuldades e desfrute os de felicidades, os milagres e as graças são constantes nos dois Testamentos. Mas não cessaram nos escritos, acontecem diariamente, sobretudo na vida dos que creem e confiam no Deus-Trino-Misericordioso.

O Antigo Testamento relata a criação que é o primeiro milagre, superabundante, imensurável ao nosso entendimento [metafísico]. Mas seu maior conteúdo descreve a história do povo que Deus escolheu para se revelar, e como esta revelação, repleta de milagres, vai sendo construída progressivamente no decorrer do tempo.

Numa leitura comum o cristão não consegue detectar, mas num contexto exegético, é notório que o Deus Bíblico do Primeiro Testamento não foi o único que o povo sempre acreditou. São inúmeras passagens que fazem referências a outros deuses, e isto está explícito até nos mandamentos (Ex 20,3; Dt 5,7). Foram três momentos até a revelação ser compreendida, aceita e professada pela maioria. Politeísmo: o povo acreditava em vários deuses. Monolatria: continuava acreditando em vários deuses que supostamente respondiam às necessidades pontuais [deus do sol, da terra, da saúde, da agricultura, do amor etc.], mas de certa forma buscavam um deus Supremo/Divino. Monoteísmo: Deus Único, Criador da terra e da vida – protetor e cuidador de todos. Foram séculos até esta revelação se tornar mais evidente, sendo a referência da fé dos Hebreus. No Livro de Isaias (40-55), que teve sua redação final (aproximada) entre 550-400 a.C. isso está bem definido. Sabe qual o propósito deste relato? Mostrar que, mesmo na fé com razão, ou sem ela, O Deus-Trindade está presente na vida de todos [inclusive pagãos], e em Seu tempo e do Seu modo manifesta inúmeros milagres e graças, para que suas criaturas compreendam, acreditem e desfrutem do Seu Reino terreno (cf. Lc 17,20-21).

Assim como por um entendimento construído de forma literal e radical, ou por um conceito teológico mais investigativo e coerente em relação as alegrias do “Paraíso”, os tormentos provocados pela “queda” [...], a caminhada para conquistar a Terra Prometida, o afastamento durante o exílio da Babilônia e o Reino de Deus anunciado por Jesus, em nenhuma passagem dos Livros Sagrados lemos que na vida terrena é tudo fácil, tranquilo e maravilhoso, sem sofrimentos – somente alegrias. A Graça Divina da felicidade plena só é justificada mesmo quando interpretada numa visão escatológica – elevada à vida eterna (cf. Mc 12,25; Jo 14,2; 1Cor 2,9; 2Cor 5,1). Entretanto, aqui, agora, conforme Romanos 15,13 o Espírito Santo conduz o cristão no caminho da paz e da esperança. Algumas vezes até os Bem-Aventurados (as), que mesmo em tempos de conflitos conseguem viver serenamente, não reconhecem o grandioso milagre da paz em suas vidas.

Os milagres na missão de Cristo

Único mediador entre Deus e os homens, diante da condição humana, igual a nós [menos no pecado], mas suscitando a completude da sua vida terrena, Jesus – que sempre foi movido pela misericórdia – até o madeiro, faz com que os cristãos tenham uma visão mais substancial de seus milagres. Eles são reconhecidos e valorizados com maior magnanimidade quando comparados aos surpreendentes milagres narrados no Primeiro Testamento. Mas qual o propósito de seus milagres?

Os quatro Evangelistas relatam 35 milagres realizados por Jesus durante os três anos de Seu ministério. Eles estão relacionados com curas, “ressurreição”, alimentação, natureza, expulsão de demônios e outros. Junto com o anúncio do Reino, seus milagres exaltam a revelação do Deus de Jesus e o Cristo de Deus. Na presença dos discípulos, Jesus operou muitos outros milagres não descritos nos Evangelhos, mas os relatados servem para que creiamos que Jesus é O Cristo, O Filho de Deus, e que n’Ele e por via d’Ele é possível transfigurar nossas vidas (cf. Jo 20,30-31; 21,25).

Em Mateus, Marcos e Lucas, as quantidades de milagres revelados são semelhantes. O Evangelho de João é o que apresenta um número menor, porém, menciona dois com grandes significados para a fé cristã: o das Bodas de Caná que só consta em João, e o da multiplicação dos pães, o único relatado pelos quatro evangelistas. As exegeses extraídas destes dois milagres mostram como eles são relevantes e repletos de elementos que fortalecem e iluminam ainda mais a fé no Filho do Homem (cf. Jo 3,13).

Milagres. Uma herança espúria, ou verdadeiras revelações do Amor de Deus?

Crendo ou não num Deus Criador, o milagre da vida é muito real, e aceitemos ou não, ela é movida por alegrias e aflições. Diante destes fatos óbvios, também convivemos com os milagres, que existem mesmo não sendo explicados pelas leis da natureza. Mas a questão fundamental é, existe um Deus capaz de realizá-los?

A Santíssima Trindade sempre se revela na história dos homens [no chão da vida], então, como resposta para fortalecer a vida do cristão, é essencial identificar muitos dos inúmeros milagres e graças promovidos desde os tempos bíblicos até o presente [inclusive com um olhar pessoal no interior da alma/coração].

Como o Reino é extraordinário, isso até limita um pouco o ser humano em seu discernimento, mas, pela graça, em comunhão com o Deus-Trindade, pequenos e grandiosos milagres, anormais ou até inexplicáveis acontecem para transformar e edificar a alma daquele que crê e os “identifica”.

Assim com o povo Hebreu chegou até o tempo da vida terrena de Jesus pelos testemunhos, hoje, todo cristão cheio da graça e do Espírito Santo, também dá seu testemunho como reconhecimento da presença do Deus de Jesus em sua vida.

Cristão (ã) consciente e iluminado não fica tentando compreender a causa dos milagres, fica sim, extasiado e cheio de paz e de amor com as maravilhas que eles promovem todos os dias.

Por Cristo, com Cristo, e em Cristo.

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