Sexta extinção em massa e a insegurança alimentar global

Foto: Pixabay

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

27 Janeiro 2018

"A agrobiodiversidade é crucial para erradicar as principais causas da deficiência humana e a fome no mundo: uma dieta pobre, seja composta por muito (obesidade) ou pouco alimento (desnutrição). As dietas pobres decorrem de um conjunto estreito de commodities e não há diversidade suficiente", escreve José Eustáquio Diniz Alves, professor da Escola Nacional de Ciências EstatísticasENCE/IBGE, EcoDebate, 26-08-2018.

Eis o artigo.

A humanidade, de modo geral, é egoísta e não se preocupa muito com o destino das demais espécies vivas da Terra. Pior, o avanço do bem-estar humano tem ocorrido às custas do empobrecimento dos ecossistemas e da crescente perda de biodiversidade. Enquanto cresce a população humana, decresce as populações não humanas da fauna e da flora. Mas este processo é insustentável e pode levar a civilização ao colapso, pois o ecocídio é também um suicídio.

Um novo relatório da Bioversity International (2017) revela que a agrobiodiversidade global está sob grave ameaça diante da sexta extinção em massa da vida na Terra. O estudo confirmou o fato de que a sexta extinção em massa, que já está acontecendo, ameaça mais do que os animais selvagens. Também ameaça seriamente o fornecimento de alimentos em todo o mundo.

Grandes proporções das espécies de plantas e animais que formam a base do nosso abastecimento de alimentos estão ameaçadas. Segundo a WWF, o estado atual da biodiversidade do planeta está pior do que nunca. O Índice do Planeta Vivo (LPI, sigla em Inglês), que mede as tendências de milhares de populações de vertebrados, diminuiu 52% entre 1970 e 2010. Em outras palavras, a quantidade de mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes em todo o planeta é, em média, a metade do que era 40 anos atrás.

Ainda segundo a WWF, a biodiversidade está diminuindo em regiões temperadas e tropicais, mas a redução é maior nos trópicos. Entre 1970 e 2010, o LPI temperado diminuiu 36% em 6.569 populações das 1.606 espécies em regiões temperadas, ao passo que o LPI tropical diminuiu 56% em 3.811 populações das 1.638 espécies em regiões tropicais durante o mesmo período. A redução mais dramática aconteceu na América Latina – uma queda de 83%.

Estudo publicado na revista científica Plos One (18/10/2017) revela queda de 75% no número de insetos voadores na Alemanha (Insectageddon). Os dados foram obtidos em áreas protegidas do país, mas o resultado têm implicações para todas as regiões onde a paisagem é dominada pela agricultura. De acordo com os autores da pesquisa, a constatação é preocupante, já que os insetos têm um papel crucial no funcionamento dos ecossistemas, polinizando 80% das plantas e fornecendo alimento para 60% das aves. O colapso das colmeias é um ecocídio contra as abelhas e que pode ter um efeito devastador sobre a produção de alimentos.

Voltando ao relatório da Bioversity International (2017), os dados mostram que, atualmente, cerca de 75% do suprimento global de alimentos vem de apenas 12 culturas e cinco espécies de animais. De acordo com o relatório da Bioversity International, o investimento em produtos básicos de alto rendimento levou a apenas três arroz, milho e trigo, fornecendo metade das calorias baseadas em plantas do mundo, apesar de terem sido documentadas entre 5.000 e 70.000 espécies de plantas como alimento humano.

Essa falta de agrobiodiversidade significa que os suprimentos de alimentos em todo o mundo são muito vulneráveis a pragas e doenças, que podem se mover rapidamente através de grandes regiões de monocultura. Isso é exatamente o que desencadeou a fome da batata irlandesa, mesmo que causou um milhão de pessoas morrer de fome. As mudanças climáticas e as emissões de carbono também são uma ameaça.

O relatório destaca a necessidade de salvar a agrobiodiversidade, pois existem dezenas de milhares de espécies raramente cultivadas e selvagens, oferecendo uma variedade de alimentos que são nutritivos, mais tolerantes às mudanças climáticas e mais resistentes às doenças.
 
No entanto, a mesma degradação, poluição e destruição de áreas selvagens que começaram a extinção em massa de espécies de animais selvagens na Terra ameaçam a biodiversidade agrícola e o abastecimento de alimentos da humanidade. A agrobiodiversidade também é crucial para erradicar as principais causas da deficiência humana e a fome no mundo: uma dieta pobre, seja composta por muito (obesidade) ou pouco alimento (desnutrição). As dietas pobres decorrem de um conjunto estreito de commodities e não há diversidade suficiente.

Não existe produtividade agrícola sem biodiversidade, assim como não existe ECOnomia sem ECOlogia. Evitar a sexta extinção em massa não é apenas um dever ético, mas também uma condição essencial para a segurança alimentar e a sobrevivência do ser humano.

Referência:

Bioversity International. Mainstreaming Agrobiodiversity in Sustainable Food Systems: Scienti¬c Foundations for an Agrobiodiversity Index. Bioversity International, Rome, Italy, 2017
https://www.bioversityinternational.org/fileadmin/user_upload/online_library/Mainstreaming_Agrobiodiversity/Mainstreaming_Agrobiodiversity_Sustainable_Food_Systems_WEB.pdf

Leia mais