Os pobres e os pecadores, predileção de Jesus

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08 Mai 2017

"Receber a Eucaristia não é um ato individual mas, já na própria expressão tradicional, vem a ser comunhão, isto é, integra na vida de uma comunidade cristã que teria que estar mergulhada no mundo, na preparação coletiva do Reino", escreve Luiz Alberto Gómez de Souza, sociólogo. 

Eis o artigo.

A Eucaristia não é um prêmio para os perfeitos, mas um generoso remédio e alimento para os fracos.
Francisco, bispo de Roma.

São os fracos e os pecadores aqueles que têm mais necessidade do corpo e do sangue de Cristo. A Eucaristia foi, na história, capturada por cristãos que se autoconsideravam justos, como os fariseus do tempo de Jesus. Ficou ligada a um sacramento mal interpretado, que apagava facilmente os pecados e dava "boa consciência" ao beatério, contra a qual se levantou com ira George Bernanos (La grande peur des bien-pensants, 1931).

Entretanto, a Eucaristia deveria antes de tudo ser fonte de consolo e misericórdia para os caídos, os fracos, os últimos, os pobres. Nas missas vemos filas para comungar com tantos que se autonomeiam bons fiéis, tranquilos em sua mediocridade espiritual. Ficam de fora, por insegurança, ameaças ou medo, os que têm fome e sede de reconhecimento, os marginais, tantos recasados, casais gays discriminados, os despossuídos de tudo o que é considerado aceitável pela cultura hegemônica e pelos poderosos. Quantas vezes são enxotados dos templos, com cadeira cativa na frente para o rico da parábola, eles, os pobres lázaros, que tentam se esgueirar lá no fundo, com receio de serem expulsos pelos guardiães desses templos (Lc. 16:19-31). E dizer que foi principalmente para eles que Jesus "se aniquilou" (esvaziou-se a si mesmo) de sua condição de Filho de Deus (Fil. 2:5-7), para amá-los com amor de predileção.

Por isso, Francisco diz que a Eucaristia não é um prêmio para os que se consideram perfeitos, mas um remédio salvífico para os fracos e os pecadores. Aí poderemos estar também nós, se renunciarmos à posição farisaica de proclamar-nos justos, reconhecendo-nos em nossas misérias e, então, tentando assumir, missão quase impossível, a condição de pobres e desvalidos. Miserere nobis.

Atenção, receber a Eucaristia não é um ato individual mas, já na própria expressão tradicional, vem a ser comunhão, isto é, integra na vida de uma comunidade cristã que teria que estar mergulhada no mundo, na preparação coletiva do Reino. Ela seria alimento e, ao mesmo tempo, sinal luminoso e candente de um processo de libertação, enfrentando o pecado social das estruturas, como ensinou o Documento dos Bispos em Puebla (1979, nº28)); hoje tem diante dela, como desafio a vencer, a dominação implacável do capitalismo predador.

Em 1955, durante o Congresso Eucarístico Internacional, fiz uma palestra na ABI do Rio, no ardor de meus dezenove anos, tendo como tema: “O papel social da Eucaristia”. Ali citava Jorge de Lima: “Porque o sangue de Cristo jorrou sobre meus olhos, a minha visão é universal”. E logo Paul Claudel: “Esta manhã comemos na Casa do Pai. Eis diante de mim todos os patriarcas e santos, as doze tribos de Israel”.

Francisco diz que a Eucaristia não é um prêmio para os que se consideram perfeitos, mas um remédio salvífico para os fracos e os pecadores. Aí poderemos estar também nós, se renunciarmos à posição farisaica de proclamar-nos justos, reconhecendo-nos em nossas misérias e, então, tentando assumir, missão quase impossível, a condição de pobres e desvalidos. Miserere nobis.

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