The Young Pope: teologia e cinema

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26 Novembro 2016

“À minha resposta ‘Leciono teologia e cinema’, alguns, talvez por timidez, evitavam mais discussões, dizendo: ‘Teologia e cinema? Bem... Interessante...” Assim o padre jesuíta , professor do Centro Interdisciplinar sobre a Comunicação Social da Universidade Gregoriana, falava dos seus estudantes no Congresso Internacional da Faculdade de Teologia da Catalunha, em novembro de nove anos atrás.

A nota é de Maria Antonietta Calabrò, publicada no seu blog Justout, 23-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Talvez, aos estudantes, isso parecia estranho, mas teologia e cinema é um binômio que se impôs fortemente nos últimos anos e se tornou o “casal estranho” mais comentado no Twitter nas últimas semanas, depois da transmissão da série The Young Pope, do canal Sky, dirigida pelo prêmio Oscar Paolo Sorrentino.

O caso, depois, explodiu no início desta semana, dada a coincidência de temas com a atualidade das escolhas do Papa Francisco em matéria de aborto.

O fato é que, de acordo com o Pe. Baugh, o ramo da teologia que privilegia o diálogo com o cinema é justamente “a teologia fundamental, isto é, aquela que estuda Deus, a existência, as ações de Deus, partindo do homem e da existência humana da experiência, da vida, do mundo e das relações interpessoais; partindo da experiência humana do mal, do fracasso, da insuficiência e dos limites, e do amor e do mistério”.

A teologia fundamental – continua Baugh – “insiste no fato de que não há experiência humana, mesmo que trágica, mesmo que de fracasso, que também não seja uma experiência de Deus”.

Eu acho que se pode dizer, sem qualquer dúvida, que isso emerge claramente a partir do filme de TV de Sorrentino e da narrativa do seu papa jovem, Lenny Belardo, que sibi nomen imposuit Pio XIII.

Quantos fracassos, quantos amores, quanto mistério na série do Sky. Há o cardeal Andrew Dussolier, o melhor amigo de Lenny, bispo de San Pedro Sula, depois prefeito da Congregação para o Clero, morto pela sua vida dupla.

Esther Aubry, esposa de um guarda suíço e amiga de Lenny, um mulher muito religiosa que sonha em ter um filho, apesar da sua esterilidade, e o terá.

Há o cardeal Angelo Voiello, secretário de Estado, pronto para utilizar os dossiês para fazer com que Lenny renuncie (mas depois ele se arrepende) e, ao mesmo tempo, afetuoso “pai” de um menino deficiente.

Há o cardeal Kurtwell, arcebispo de Nova York, acusado de pedofilia e, por sua vez, abusado quando criança.

E o cardeal Michael Spencer, pai espiritual de Lenny, seu concorrente para subir ao sólio pontifício, pronto para o suicídio por ter fracassado no propósito de uma vida, protagonista do diálogo sobre o aborto com um inflexível Pio XIII.

Especialista na relação entre teologia e cinema, o Mons. Dario Edoardo Viganò, que desde junho de 2015 é o prefeito da nova Secretaria da Comunicação do Vaticano, escreveu que “na sua obra de representação do real, as mídias contribuem também para reestruturar e reorganizar a linguagem da experiência crente, chegando a modificar as próprias modalidades de percepção da experiência religiosa”.

Viganò, a esse propósito, escreveu um artigo em 2012, mas que se encaixa perfeitamente também agora: “As mídias constituem não apenas um modelo através do qual se reflete a sociedade e se representam os seus acontecimentos, mas também um meio capaz de devolver à própria sociedade as chaves de leitura para interpretar tais acontecimentos”.

E ainda: “O religioso, passando a fazer parte do universo midiático, expõe-se, assim como qualquer outra linguagem e cultura, a formas de decomposição e corrupção; em todo o caso, a uma significativa transformação”. E isso, naturalmente, levanta grandes desafios para a comunicação da Santa Sé: porque talvez, então, as pessoas pensem que o “verdadeiro” papa é como Belardo, e que as dinâmicas internas ao Vaticano sejam efetivamente as mesmas da minissérie da HBO, que foi gravada no verão de 2015, projetada na Itália entre outubro e novembro de 2016, e que vai desembarcar nos Estados Unidos no dia 17 de janeiro de 2017, por um custo total de 40 milhões de dólares.

O verossimilhante pode facilmente levar a melhor sobre a realidade.

A dialética entre ficção fílmica e realidade acompanhou até mesmo a transição entre o pontificado de Ratzinger e o de Bergoglio. No dia 28 de fevereiro de 2013, quando o helicóptero que trazia Bento XVI a bordo levantava voo do heliporto vaticano, as cenas do veículo que sobrevoava a Basílica de São Pedro, os Fóruns Imperiais, o Coliseu e que chegou, 15 minutos depois, à mansão pontifícia de Castelgandolfo deram a volta ao mundo. Imagens, gravadas sob a direção do Mons. Viganò, como responsável, há poucas semanas, do Centro Televisivo Vaticano.

Viganò revelou em uma entrevista à Salt and Light TV, em outubro de 2013, que a direção da gravação foi inspirada no filme “A doce vida”, de Federico Fellini, que inicia com a filmagem de uma estátua de Cristo que, transportada de helicóptero, parece acariciar as periferias romanas.

Da mesma forma, o helicóptero que transportava o papa deu duas vezes a volta ao redor da Cúpula e se afastou voando baixo sobre a cidade, quase acariciando-a, sob o pôr do sol romano.

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