Francisco na Coreia: curador compassivo e guru espiritual

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19 Agosto 2014

No sábado à tarde, o Papa Francisco visitou uma comunidade na região conhecida como Kkottongnae (“aldeia das Flores”). Aqui na Coreia do Sul, alguns disseram que vir para esta região visitar coreanos com deficiências físicas foi uma escolha equivocada, por causa da prática da instituição em reunir estas pessoas e separá-las da sociedade mais ampla. As práticas mais recentes de cuidado enfatizam uma integração junto à sociedade.

O Papa Francisco cumprimenta moradores da “aldeia das Flores” (Fotos da Comissão para a Visita Pastoral)

O Papa Francisco cumprimenta moradores da “aldeia das Flores” (Fotos da Comissão para a Visita Pastoral)

A reportagem é de Thomas C. Fox, publicada pela National Catholic Reporter, 16-08-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

A aldeia das Flores, local administrado pela Igreja e pelo Estado, vem enfrentando acusações contra a sua gestão.

As questões, por enquanto, ficam em segundo plano por causa das imagens poderosas e comoventes do Papa Francisco andando entre aproximadamente 50 crianças e jovens com deficiências físicas e mentais que o cumprimentaram. Francisco dedicou um tempo para tocar a cada uma delas. Quando lhe perguntaram se queria se sentar e descansar, respondeu: “Estou feliz em estar de pé”.

Visivelmente comovido pelos moradores, dedicou um tempo para ficar de pé em frente a cada um dos presentes.

Fotos do papa dando a mão e tocando as crianças, beijando a testa delas e abraçando os jovens têm sido publicadas em todos os principais jornais coreanos. Estas imagens – de Francisco, o que toca, cura e cuida – estão presentes em toda a mídia do país. Juntas, elas reforçam sua imagem de um curador compassivo e guru espiritual que tem uma mensagem que vale a pena ouvir.

Numa sociedade em que alguns continuam a considerar as pessoas com deficiência como sendo vergonhosas, o abraço do papa a estas crianças – transmitido no canal de notícias coreano KBS – foi particularmente poderoso, trazendo ao menos dois temas papais: as verdades sobre a dignidade humana universal e o poder de cura, vinculado à simples compaixão humana, especialmente para os necessitados e vulneráveis da sociedade.

Antes de sair, deu aos trabalhadores locais um mosaico para lembrar a sua visita.

Mais tarde, abençoou a multidão de aproximadamente 30 mil católicos espalhados pelas ruas, sorrindo e acenando. O papa também realizou uma breve visita ao Cemitério para Crianças Abortadas, onde rezou pelos nasciturnos. O Santo Padre falou da santidade da vida humana e de sua inviolabilidade enquanto abençoava o missionário Lee Gu-won, com deficiência congênita de membros.

Imagens do Papa Francisco andando através da Kkottongnae, dando atenção especial aos moradores, tocando a cada um individualmente, vêm se espalhando e, aparentemente, acrescentando às impressões já deixadas durante as suas duas primeiras visitas. Trata-se de um alguém que se preocupa e que carrega um carisma especial. A sua gentileza parece contrastar as imagens mais duras e distantes de outros líderes coreanos que, especialmente na esteira do desastre envolvendo uma balsa em Sewol, parecem bastante distantes dos coreanos comuns. Para um país severamente dividido, uma nação com muita necessidade de cura, a viagem do papa aqui parece ser enviada por Deus.

Durante estes últimos três dias, Francisco repetiu alguns atos de simplicidade e humildade: andando num carro simples da marca Kia; caminhando entre as pessoas; visitando famílias enlutadas com o desastre de 16 de abril que envolveu uma balsa e que tirou a vida de 360 coreanos; encorajando os estudantes que se preocupam em não conseguir entrar para a faculdade; lembrando os poucos ricos que a felicidade vem não de quanto acumulamos, mas de quanto partilhamos. Estes atos simples e humildes fornecem aos coreanos o modelo de uma nova liderança, de um líder próximo do povo, que sente suas dores, seus fardos diários.

Para a Igreja coreana, e bispos que cresceram acostumados com os privilégios clericais, as imagens de um papa simples parecem especialmente apropriadas. Mas a viagem do Papa Francisco, focada sobre os católicos coreanos, está indo muito além da própria Igreja.

Mais de 120 dias após o naufrágio da balsa em Sewol, tragédia nacional que vem causando dor e sendo motivo para introspecção, o governo coreano ainda não foi capaz de chegar a um acordo sobre quais passos precisam ser dados para a investigação.

Os familiares que perderam seus entes queridos no acidente exigem uma investigação independente, uma legislação para investigações como estas e processos contra qualquer um que for considerado culpado. As suas reivindicações foram abraçadas por todo o país, mas não tiveram base governamental.

Agora vem o Papa Francisco, que aparentemente está tão próximo das pessoas na mesma proporção que os líderes do governo estão distantes. Além disso, está dizendo aos coreanos que sabe de seu sofrimento. Durante uma missa celebrada no segundo dia de viagem, vestiu uma fita amarela, que se tornou um símbolo de apoio às famílias envolvidas na tragédia.

Neste momento de mágoas e fraturas, entra um Francisco que escuta. Na qualidade de líder de uma religião que reivindica mais de 10% de sua população, os coreanos de todos os matizes sabem que devem ser-lhe respeitosos. No entanto, não sabiam o que esperar até a sua chegada aqui.

Desde o primeiro momento em que pisou em solo coreano, Francisco tem enfatizado, repetidas vezes, a necessidade da cura: cura pessoal, local, nacional e internacional. Não tem sido severo nem enfadonho – uma atitude reforçada pela sua maneira simples e cuidadosa.

Em quase todas as paradas que fez nos os eventos durante os últimos três dias, Francisco enfatizou – em palavras e em atos – o seu tema de cura.

Àqueles que já assistiram o Francisco carismático exercer o seu charme em outros lugares, esta sua programação na Coreia não é novidade. O que é novo é que suas qualidades compassivas estão alcançando os mares asiáticos, indicando um apelo universal. A Ásia é uma terra onde o respeito pela religião e pelo espiritual tem raízes históricas, ainda que isso tenha sido enterrado de alguma forma na medida em que este país saiu da pobreza e entrou para o rol da riqueza em apenas três décadas.

Na prática, acabou que a nova riqueza da Coreia trouxe problemas consigo, um dos quais sendo a lacuna entre uns poucos ricos e os muito pobres bem como algumas questões de significado em meio a tudo isso.

O Papa Francisco está recebendo uma cobertura midiática incrível. Suas fotos tocando e beijando a testa de crianças e jovens vêm preenchendo as primeiras páginas de praticamente todos os jornais coreanos. O seu rosto sorridente ilumina-se com os grandes painéis de luz dos edifícios no centro de Seul.

Caso a mídia local for um indicador, Francisco está oferecendo a combinação certa de remédios – e os coreanos estão desejando, mais do que tudo, recebê-la.

A esta altura é difícil saber qual o impacto duradouro que o Papa Francisco possa ter na Igreja local e em sua missão, ou mesmo como os bispos coreanos poderão responder, se irão – ou não – se tornar mais próximos de seu povo.

É mais fácil saber que a sociedade coreana está ávida a receber algo que Francisco está oferecendo: um caminho mais delicado e reconciliador para diante.

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