Ontem e hoje, os jesuítas nos passos do mestre de Loyola. Artigo de Pietro Citati

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16 Junho 2014

Em Santo Inácio, os padres jesuítas descobriram o convite a abolir todo ascetismo e toda estreiteza. Como ele, os padres jesuítas amavam o cosmos: admiravam todas as criaturas, as estrelas, os cometas, as plantas e os animais; visitavam as mais distantes regiões do mundo; não rejeitavam os prazeres do corpo; e se erguiam acima dos céus, ouvindo o palpitar da criação.

A análise é do ensaísta e crítico literário italiano Pietro Citati, um dos mais respeitados literatos contemporâneos, em artigo para o jornal Corriere della Sera, 12-06-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Inácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus, tinha uma imensa imaginação e a cultivava, e a fazia ser cultivada, pelos padres jesuítas, quando eles realizavam os exercícios espirituais, o coração do ensinamento praticado na Companhia.

Ele lhes exigia que fixassem com a mente os grandes e mínimos aspectos do imaginário cristão: o nascimento de Jesus, a sua infância, o batismo, a tentação, a paixão, a crucificação, a sepultura, a ressurreição. Os jesuítas deviam vasculhar com uma intensidade implacável o que traziam dentro do coração: nada devia lhes escapar, nem mesmo uma pedra ou uma planta ou uma folha de grama dos caminhos que Jesus tinha percorrido; nem mesmo uma palavra que ele pronunciara nas sinagogas ou junto ao mar.

"Era preciso considerar de longe a estrada de Betânia a Jerusalém, se era ampla ou estreita, se era plana ou montanhosa": olhar para a mesa à qual Jesus estava sentado, os pratos, as garrafas, os copos. Assim, a mente dos jesuítas descia para dentro de si mesma; e aprendia o ensinamento que Jesus Cristo tinha depositado na paisagem que tinha percorrido, ou no quarto onde tinha vivido.

Quantas vezes Deus, ou Jesus, ou o Espírito Santo tinha aparecido na mente dos padres jesuítas! A natureza de Deus era um dom: pronto para iluminar e aperfeiçoar com os raios da sua graça o coração dos padres. Estava disposta a se efundir, cada vez mais generosa e mais vasta; e a receber aquilo que dos homens subia até ele:

"Tomai, Senhor, e recebei / toda a minha liberdade, / minha memória, / minha inteligência / e toda a minha vontade. / Tudo o que tenho e possuo, / de vós o recebi, / a vós, Senhor, o restituo. / Tudo é vosso."

Deus confortava, consolava, adoçava com uma alegria inesgotável. "Ri, filho, disse Inácio a um noviço, e sê alegre no Senhor, porque um religioso não tem nenhum motivo para estar triste e tem milhares para se alegrar".

Quando voltavam, os padres jesuítas tentavam encontrar a natureza da própria alma: o que ela tinha de autêntico, de original, de puramente espiritual. A emoção era grandiosa. Mas, ao mesmo tempo, eles encontravam em si mesmos muitas coisas diferentes: tumultos, pecados, paixões, desordens, desventuras; os efeitos que a queda tinha produzido em cada um deles.

Assim, condenavam as desordens, as paixões e os caprichos. Reforçavam a vontade da razão: certo de que a razão, embora nascida depois do pecado original, conseguiria salvá-los do pecado. Não temiam se apoiar nela e na sua substância humana: ao contrário, tentavam torná-la mais robusta e afinada, mais sólida e complicada.

Algumas s vezes, os padres jesuítas se sentiam sufocados. A vida moral, mesmo que virtuosa, forçava a sua alma; os outros seres humanos opunham limites e negações ao seu impulso amoroso. Precisavam de espaço. Em alguns textos cristãos, encontravam o convite a uma severíssima e estreitíssima convicção ascética.

Mas, justamente em Santo Inácio, descobriram o convite a abolir todo ascetismo e toda estreiteza. Como ele, os padres jesuítas amavam o cosmos: admiravam todas as criaturas, as estrelas, os cometas, as plantas e os animais; visitavam as mais distantes regiões do mundo; não rejeitavam os prazeres do corpo; e se erguiam acima dos céus, ouvindo o palpitar da criação.

A Companhia de Jesus exigia dos padres atividades extremamente complicadas: eles deviam, por exemplo, trabalhar como ecônomos e administradores. Embora ordens mais espirituais condenassem essas atividades práticas, os padres jesuítas as defendiam com cautela e tenacidade. Davam-se conta de que a relação cotidiana com a realidade ampliava as suas mentes, tornava mais sinuosa a sua inteligência e a sua fantasia.

Como Santo Inácio, tinham outros temores: a abstração do espírito puro, a loucura da mente abandonada a si mesma. Os Exercícios Espirituais eram extremamente ligados ao tempo do dia, da semana, do mês, do ano. A vida de cada jesuíta obedecia ao tempo. Um certo exercício devia ser feito na aurora de cada dia: então, era preciso guardar-se com diligência de um pecado em particular; depois do almoço, outro exercício lhes recordava quantas vezes eles haviam caído nesse pecado.

Todos os padres jesuítas conheciam o tempo próprio de cada um deles: a ordem temporal continha uma grande e escondida sabedoria, que eles nunca acabariam de aprender. Só coincidindo com o tempo, só fazendo-o bater regularmente nos relógios do coração, eles mantinham a alma aberta e permitiam que Jesus Cristo e o Espírito Santo penetrassem nela.

Quem fazia os Exercícios Espirituais corria um risco: o dos escrúpulos; ou seja, os pecados imaginários, recordações de pecados passados, dúvidas, incertezas, insatisfações, desgostos, torturas da inteligência.

Por si sós, os padres jesuítas não conseguiam se libertar dos escrúpulos; e permaneciam embebidos nos destroços da própria alma. Só lhes restava rezar longamente a Jesus e ao Espírito Santo, abrindo a alma à graça superabundante de Deus.

 

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